Para além de tudo o resto - que é imenso e intolerável -, o que ontem foi decidido pelo governo espanhol constitui um tremendo aumento da desigualdade entre as mulheres. Haverás as que podem dirigir-se ao estrangeiro para fazer um aborto em condições medicamente normais e as que estarão sujeitas ao que calhar. Como todos sabemos não é uma lei que impedirá o aborto (nunca o foi), apenas o tornará ilegal e inseguro.
"A comunidade cresceu, mas metade continuam a ser africanos. Depois há asiáticos, sunitas, israelitas e uma pequena porção de árabes."
Esta frase foi retirada de uma notícia do i sobre a comunidade muçulmana em Portugal, não tem desculpa a ignorância demonstrada e a embrulhada feita. Misturar origens geográficas com ramos do Islão? Trocar ismaelitas com israelitas? Quando não fazemos ideia do que falamos convém procurar informação e, como me dizia alguém há minutos, "é que hoje em dia, com o google, já não há desculpa possível". E até tremo ao imaginar o que serão os árabes.
À atenção da autora do texto: a maioria dos africanos muçulmanos em Portugal, são sunitas. Já agora, os tais israelitas-muito-provavelmente-ismaelitas são xiitas (em qualquer texto básico sobre islão encontra as diferenças).
No início da tarde ouvi na TSF o som deste excerto de "Água Viva". Teria uns 15 anos quando passou na tv portuguesa e animou o debate sobre o topless em Portugal, que acabou por se vulgarizar durante a década de 80 sem alarido especial. É tão estranho perceber que mais de 30 anos depois seja tema que ainda inflama o Brasil (logo o Brasil?!). O que se passou hoje é ridículo, patético e triste, muito triste.
É a segunda vez no espaço de uma semana. Há uns dias reconheci uma colega de liceu, que não via há um bom quarto de século. Uma daquelas ocasiões em que passamos por alguém, vem um flash, espera aí, de onde conheço eu esta cara, e aquela dúvida do "será que me reconheceu? volto atrás?". Às vezes sim, às vezes não. Comigo, geralmente, é sim. E sim foi. Ocasionalmente tenho boas surpresas, um reconhecimento mútuo. Não foi o caso. Fico a fazer figura de urso, a tratar alguém por tu, com uma intimidade inconveniente para alguém que nos olha com ar de "quem é este maduro?". A moça (já menos moça) lá acabou por sorrir e por se esforçar por concordar, sim, ah, olá, pois, desculpa, não estava a ser. Não percebi se me reconheceu ou não, se foi sincera ou se apenas me quis despachar. Quando corre bem, é uma sensação nostálgica interessante; quando não, é um amargozinho que nos fica.
Ontem, pior. Um mocinho (já bem pouco mocinho, QED) que conheci muito bem, e cuja casa frequentei, em ambiente escolar, há mais de 30 anos. Lá fiz as figuras do costume. "Que engraçado, até tenho boa memória, mas não me lembro de si". Este "de si" gelou-me a alma. Descrevi pormenores, os amigos comuns, as situações e o grupo de estarolas que partilhávamos, nada feito. Este agora vive ali, aquele está mal; o outro? mudou-se, vive em Viana. Tive muita sorte, porque escapei por pouco a dar-lhe uma palmada nas costas e entrar a matar com algo semelhante a um "olha quem é ele, que andas aqui a fazer, ó meu g'anda cabrão?", tratando-o pela alcunha com que era conhecido na época.
É assim. Nada feito. As partidas da memória são cruéis. Mas como em muitas situações, "always look at the bright side...". Ficamos a saber que nos enganamos quando cremos deixar marca na memória alheia, idêntica, pelo menos, à que nos ficou, é verdade. Fica o consolo: há quem esteja em muito pior estado do que nós, amnésico, com a memória em cavacos, demente, passado, em cacos, à beira do Alzheimer. Pode não ser verdade, mas isso pouco importa. Admitir o esquecimento é muito mais doloroso.