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Os Salteadores do Canguru Perdido

Aproveito a maré para retomar este blog, que tem andado subnutrido. E a maré é a recente informação, divulgada pela imprensa internacional (por exemplo, aquiaqui ou aqui), sobre o manuscrito português que alegadamente contém uma figura de um canguru. Conclusão: é uma (presumida) prova da chegada dos portugueses à Austrália antes do "descobrimento" oficial, por um navio holandês em 1606. Como é comum neste tipo de informações, o que não passa de uma curiosidade assume foros de descoberta extraordinária, capaz inclusivamente de "reescrever a história", como os jornais se apressam a reproduzir. Para tal, nada melhor do que pegar nas afirmações da responsável (ou porta-voz) da galeria de arte norte-americana que adquiriu o manuscrito. Ninguém parece interessado em perceber que a instituição tem todo o interesse em publicitar a "descoberta", nem que para isso tenha que alinhavar umas declarações especulativas e sensacionalistas, como afirmar que "Portugal was extremely secretive about her trade routes during this period, explaining why their presence there wasn't widely known" ou que o presumido canguru prova "that the artist of this manuscript had either been in Australia, or even more interestingly, that travellers' reports and drawings of the interesting animals found in this new world were already available in Portugal". Para compor o ramalhete, lá vem o inevitável testemunho de Peter Trickett, autor de uma (mais do que contestada e de duvidosa credibilidade) obra onde defende a chegada dos portugueses ao continente australiano na década de 1520: “It is not surprising at all that an image of a kangaroo would have turned up in Portugal at some point in the latter part of the 16th century, it could be that someone in the Portuguese expedition had this manuscript in their possession". A imprensa portuguesa, claro, vai atrás. O Correio da Manhã, sempre na vanguarda informativa, e sob o curioso título "Ilustração de freira 'descobre' Austrália", faz eco de tudo isto. Curiosamente (ou não), faz interessantes acrescentos da sua lavra, dizendo que "O secretismo e o terramoto de 1755 explicam porque não há registos oficiais nos arquivos portugueses" e que "Portugal tinha, desde 1512, um entreposto comercial em Timor". Começo já aqui: 1. o (alegado) "secretismo" não fazia nenhum sentido nas águas do Sueste Asiático (que fervilhava de navios chineses, malaios, guzerates, japoneses, javaneses), e chegar lá não era segredo nenhum (já franceses o haviam feito na década de 1520, e ingleses na de 1570, e holandeses na de 1590). 2. o terramoto não é para aqui chamado; muita documentação desapareceu, mas duvido que alguma vez tivesse havido "registo oficial" da chegada portuguesa à Austrália. 3. Os portugueses chegaram a Timor em 1515 ou 1516 e não tiveram nenhum "entreposto comercial" por lá durante muito tempo, simplesmente iam carregar sândalo, como chineses e javaneses.

Falar sobre a possível chegada dos portugueses à Austrália no século XVI é assunto muito batido, que não interessa aqui esmiuçar (ou repetir). Apenas é bom relembrar o essencial (não sou eu que o digo, são os autores que estudaram a fundo esta temática e têm sobre ela trabalho produzido e publicado): é possível, talvez provável, que portugueses tenham posto os pés em terras australianas antes dos holandeses. Mas como se tratou de mercadores, de "Fernões Mendes Pintos", de gente que navegava nas redondezas (uma vez mais, a carregar sândalo em Timor) e que viajava geralmente em navios asiáticos (e de asiáticos), por conta própria ou ao serviço do capitão de Malaca, não deixaram registo. A Austrália era uma terra sem interesse, onde não havia cravo, sândalo, noz-moscada, pimenta... nem porcelana chinesa ou algodão indiano. Ficava fora das rotas de comércio asiáticas, nem chineses, nem japoneses, nem malaios se interessavam. Logo, os portugueses também não. Logo, a ter havido tuga ou tugas a desembarcar por lá, não se tratou de uma armada saída de Lisboa, de Goa, de Malaca, com um capitão mandatado pelo rei para "descobrir" a Austrália. Isso nunca existiu. Na viagem de Colombo, por exemplo, sim. Aqui, não. As teses de Trickett (e de McIntyre antes dele, por exemplo) agarram-se a este modelo e a uma alegada viagem de Cristóvão de Mendonça que nunca foi feita. Ponto final. Que há, então? ecos, vestígios ténues, suspeitas; a cartografia da "Escola de Dieppe" é um indício; as obras de Manuel Godinho de Erédia são outro. E pouco mais. Até ver. Fala-se da procura das "ilhas de outro", mas os portugueses procuravam "ilhas de ouro" em muitos sítios (nomeadamente em Samatra), havia lendas malaias idênticas, nada de verdadeiramente novo ou que nos leve à Austrália.

E o canguru? Bom, o canguru pode ser tudo menos um canguru. Trocando por miúdos: ver um canguru numa iluminura de uma obra religiosa das Caldas é um belo exercício de imaginação. Suponhamos um cenário no qual eu (e muitos antes de mim, certamente) franzeria o sobrolho: a mesma imagem numa cópia de um relato de viagens, numa nova versão de uma crónica sobre os portugueses na Ásia, num manuscrito comprovadamente de alguém que tivesse estado na Índia, em Malaca, num escrito de um tratado de geografia sobre a Ásia. Assim, num livro de orações de autoria desconhecida, pertença de uma freira das Caldas, lamento, mas é pouco. Não chega, sequer, para levar a sério. A conservadora da galeria de arte americana bem pode dizer que é um canguru perfeitinho, o Peter Trickett pode afirmar o que quiser, mas o assunto nunca passará (até ver, repito), de uma curiosidade. Aliás, comento: o canguru não era um animal particularmente bizarro para ser reproduzido com tamanho cuidado. Uma girafa, por exemplo, sim. E quem conhece a iconografia da época e vê os resultados dos desenhos feitos a partir de descrições de terceiros (por exemplo, a forma como Filippo Pigafetta desenhou uma zebra, a partir das descrições de Duarte Lopes), sabe que saía debuxado uma criatura bem diferente da verdadeira.

Entretanto, fiz umas declarações à Lusa sobre o assunto, que começam a sair na imprensa. É muito curiosa a forma como as nossas palavras saem "cá pra fora": eis que a SIC Notícias diz que "Historiador diz que portugueses conheciam Austrália antes dos holandeses". Ainda vou ter que fazer uma conferência de imprensa a fazer desmentidos, querem lá ver?

(metido aqui assim um bocado a martelo, a partir do outro blog)

...

Referende-se então isso: "Tem tanto horror aos homossexuais que deseja que a sociedade portuguesa decida em referendo discriminar os filhos deles ou acha que a lei portuguesa deve deixar, o mais depressa possível, de fingir que essas crianças não existem e o Parlamento lhes deve garantir os direitos que lhes faltam?"

 

Da Fernanda, no DN de hoje

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