Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

jugular

Muito aquém de Capricórnio

O tema do descobrimento da Austrália pelos portugueses renasce ocasionalmente na imprensa, ora pela descoberta de um canhão numa praia ora pela de um desenho de um alegado canguru num manuscrito seiscentista. Embora, do ponto de vista científico, se trate de uma questão menor - há muito que a historiografia se desinteressou por pormenores tão marcadamente eurocêntricos como "quem descobriu a terra X" - suscita natural interesse junto do público. Afinal, não vivemos hoje em plena nostalgia dos tempos - reais ou imaginários - em que as viagens portuguesas causavam assombro e Portugal era respeitado e invejado por toda a Europa? Como escapar ao fascínio da hipótese de terem sido também os portugueses os "primeiros" a chegar à Austrália?

Esta ideia tem um paladino: o jornalista australiano Peter Trickett e o seu Beyond Capricorn (em português, Para além de Capricórnio), de 2007. A sua "tese" - que não é nova, antes reformula ideias anteriores - resume-se rapidamente: na década de 1520, Cristóvão de Mendonça foi secretamente incumbido pelo rei para atingir a lendária "ilha do ouro" mencionada por Marco Polo. A sua armada partiu de Lisboa e acabou por reconhecer e cartografar o continente australiano. Os seus mapas perderam-se, mas hoje restam cópias de origem francesa, que formam o chamado Atlas Vallard. Trickett reconstitui a viagem de Mendonça e o seu périplo. É uma bela e apaixonante odisseia; pena ser pouco mais do que ficção. Deficiente domínio do português, desconhecimento da produção científica sobre a expansão portuguesa e a Ásia marítima, abordagem limitada e preconceituosa das fontes históricas, erros grosseiros de interpretação, são algumas das mazelas de que padece o seu trabalho.

Quem queira saber mais sobre o tema constatará que não falta informação, na internet e na imprensa (replicada em blogues e redes sociais), sobre as ideias de Trickett e suas variantes, tomadas como inovadoras, heterodoxas, desafiadoras das velhas tradições, ousadas, estimulantes. O autor esteve em Portugal, deu entrevistas e toda a imprensa reproduziu acriticamente a sua "tese", com maior ou menor entusiasmo. Um autor australiano a defender os brios do patriotismo português não é coisa que surja todos os dias, é um facto. Em 2009, como corolário, Trickett foi agraciado com a Comenda da Ordem do Mérito.

Já a crítica ao seu trabalho (quer à "tese" propriamente dita quer ao livro) é uma raridade. Não conheço qualquer recensão crítica à obra. A comunidade científica não reagiu? Sim, logo em 2008, o Museu da Ciência da Univ. de Coimbra realizou um colóquio e uma mesa-redonda com historiadores de reconhecida credibilidade: a obra de Trickett aponta algumas pistas de trabalho interessantes, mas a sua "tese" carece de fundamentação. Não é a hipótese de os portugueses terem, muito provavelmente, visitado a costa australiana antes de holandeses e britânicos que está errada; é, tão-somente, a novela Cristóvão de Mendonça. As atas deste encontro foram publicadas recentemente (Portugueses na Austrália: as Primeiras Viagens), mas a divulgação foi praticamente nula, em flagrante contraste com a ampla difusão de Para além de Capricórnio, cujas ficções continuam a fazer escola e a polir o ego nacional. Alguns poderão entender esta bizarria como uma prova do provincianismo português; para mim, é sobretudo um sintoma do enraizado divórcio entre público e academia, leigos e especialistas, divulgação e ciência, que persiste em Portugal.

(publicado anteontem no DN)

o navio fantasma

Acaba de sair na imprensa mais uma notícia sobre o possível achamento da Flor de la Mar, o navio que Afonso de Albuquerque carregou com o saque de Malaca após a tomada da cidade, em 1511, e que naufragou pouco depois da partida. As histórias sobre as fabulosas riquezas que transportaria são já uma lenda. A notícia do Público diz coisas engraçadas: a mais flagrante é a identificação precipitada do que estará em vias de ser encontrado com aquela nau. Ora, sabe-se que o local de naufrágio, embora incerto, foi seguramente junto a Samatra (em Pasai ou em Aru). Mas o que é noticiado é que se trata da região de Semarang (e não "Seramang", como lá consta), na costa norte de Java. Não importa? Importa, e muito, é que Java fica a leste de Malaca; a Índia - para onde Albuquerque seguia - fica, caso ninguém tenha reparado, a oeste. A confirmar-se o achado, poderá ser um navio português, mas nunca o Flor de la Mar.

A segunda curiosidade é a referência ao tesouro. Fala-se de "60 toneladas de ouro". Isto é uma informação reproduzida por tudo o que é site de curiosidades e tesouros, mas a verdade, triste e incómoda, é que tal tesouro, muito provavelmente, não existe: não só a carga original seria certamente de valor muito inferior ao que diz a lenda, como se sabe que, após o naufrágio, parte substancial das riquezas deram à costa e foram de imediato tomadas pelas gentes da terra. Um conselho: é melhor continuarem à procura do tesouro dos Templários.

No livro, faço uma síntese da questão: pergunta 19, "Existe um tesouro da Flor de la Mar?"

(Na SIC falam do assunto, mais precisamente na Flor do Mar. Nada de espanholadas, pois então).

(Em stereo).

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    The times they are a-changin’. Como sempre …

  • Anónimo

    De facto vivemos tempos curiosos, onde supostament...

  • Anónimo

    De acordo, muito bem escrito.

  • Manuel Dias

    Temos de perguntar porque as autocracias estão ...

  • Anónimo

    aaaaaaaaaaaaAcho que para o bem ou para o mal o po...

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2011
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2010
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2009
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2008
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2007
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D

Links

blogs

media