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jugular

pacheco pereira e o mal consentido

'Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social (...)."

 

pacheco pereira cita o papa para atacar o pretensamente pio portas -- está bem, claro, e bem pensado. mas é também de si que pacheco fala. foi ele o principal, porque o mais inteligente e eficaz, obreiro da cultura de calúnia e do ódio que nos trouxe onde estamos, que abriu caminho a este governo que ele execra; foi ele um dos fautores do mal e seu consentimento que minaram e minam a nossa vida colectiva.  

 

sempre falhado em tudo o que tenta fazer na política partidária, pacheco só provou ser bom numa coisa: a ínsidia e o discurso do ódio que compensam a sua incapacidade de 'manobrar' classicamente nos meandros partidários. por vezes, como é agora o caso, disfarçados de preocupações sociais e patrióticas, mas sempre do ponto de vista de uma pretensa superioridade intelectual e ética -- e até aristocrática. 

 

este é, não nos esqueçamos, o homem que sustentou a ridícula teoria das escutas de belém; é o homem que escreveu textos inteiros a denunciar blogues (blogues, sim, e entre eles o jugular) como antros de vileza e perigo para o país, espécie de centro nevrálgico do 'mal socrático', afixando em cada opinador ou blogueiro que não execrasse sócrates a estrela davidiana da venalidade. é o teórico da 'narrativa' da 'política criminosa', que levou os actuais psd e pp para o poder e é ainda a propaganda favorita da maioria -- propaganda que ele agora denuncia, enojado, dando o braço aos que incidentalmente lhe dão jeito como aliados (e não cessa de me espantar que tantos, em amnésia fulgurante ou igual conveniência, aceitem dar-lhe o braço).

 

este é o homem dos ataques ad hominem, que faz análises de carácter a todos os seus inimigos para concluir que são destituídos dele. mas que, tão atento, livre e desprendido, nunca reparou no de cavaco -- nem, claro, no seu.

 

O maravilhoso mundo das comunicações dos clientes com a NOS

Impressionante como as relações com as operadoras de telecomunicações em Portugal dão sempre asneira. Subscrever serviços é de uma simplicidade cristalina mas quando há merda - e há frequentemente - entra-se num instante num universo kafkiano. 

Há uns dias uma pessoa da minha família, que vive numa zona rural, subscreveu, através de mim, um serviço de net e telefone da NOS. De instalação simples, receberíamos o equipamento em casa e depois era só ligar e já estava. Fizemos todas as advertências, que era uma zona rural, com deficiências de rede, e fomos descansados "A morada está coberta, não há problema nenhum". Lá recebemos a coisa, fui até à casa e questão (a 50km de Lisboa), liguei o equipamento e..népias, telefone morto e net a velocidade de caracol, 90% das páginas nem conseguem chegar a abrir. 

Começou a saga, ligar para o apoio a cliente, com custos brutais (porque não se é cliente NOS, o único telefone NOS é o acabado de subscrever e não funciona) e não se resolve o problema. Ida a uma loja NOS na cidade mais próxima "Não somos loja oficial, terá de se dirigir a Lisboa". Respiro fundo 3 vezes e vou a uma loja oficial, no Colombo. Aí explico a situação e sou "presenteada" com um número de telefone para onde posso ligar gratuitamente durante 7 dias. Como tenho de estar junto ao equipamento para fazer a chamada faço 100km para resolver a situação (mais custos, 50km ida+50km vinda+portagens), ligo para o dito número e no fim de muito palavreado dizem-me que não conseguem resolver o problema, que terei de ligar para um 16qualquercoisa, pago, digo que não tenho nada de pagar mais chamadas para resolver problemas de um serviço que nunca funcionou, "Ah! Mas as chamadas são grátis de telefones NOS". Chegada a este momento tive que morder a língua para não começar a dizer palavrões "Qual foi a parte que não percebeu de só termos como telefone NOS um que não funciona?". Desligo e uso o último recurso, na loja a pessoa que me atendeu tinha-me facultado o seu endereço pessoal. Envio mail e peço, de forma educada, que me agendem uma porra de uma visita técnica já que pelo telefone ninguém me parece poder ajudar. Espero 24h pela resposta, que não chega.

Tendo em conta toda esta história (que aqui está resumida porque os telefonemas foram múltiplos) resolvemos que só nos resta cancelar o serviço - dentro do prazo previsto dos 14 dias - e pedir a restituição do dinheiro pago pelo equipamento. Começa novo festival, tentar encontrar um contacto mail da NOS é do domínio da fantasia, não estou para pagar mais não sei quantos euros pelas chamadas. Faço o óbvio, vou à página da NOS e uso o "nós ligamos gratuitamente" que está acoplado às subscrições de serviço. O que esperava aconteceu, claro, "Aqui só podemos fazer ativações, terá de se dirigir a uma loja". Dirigir-me a uma loja implicará que eu faça mais uma centena de quilómetros (para ir buscar o equipamento), a que acrescem os quilómetros que o meu familiar, já com uma certa idade e que é o cliente oficial da conta, terá de fazer também para voltar para casa. E no fim disto quem paga todas as despesas que tivemos para ter um serviço que não funcionou nunca?

Cute, hein?

o primeiro dia

Hoje é dia 1. Na sexta feira passada, recebi da FCT a derradeira informação: "comunicamos-lhe que, nesta data, foi processada a listagem dos pagamentos relativos ao mês de dezembro de 2014". E agora? Não sei, ninguém sabe. Ninguém parece querer saber. É o fim do triénio de uma bolsa de pós-doutoramento. Haverá mais? Renovação da bolsa para mais três anos? Talvez sim, talvez não. Um bolseiro está obrigado a, num prazo razoável de 6 meses (portanto, até ao final de junho passado), fazer um relatório do trabalho realizado durante os três anos (em rigor, dois anos e meio), com endereços url da obra produzida e publicada, participação em conferências, colóquios e congressos e outro trabalho. Se possível, internacional e em inglês. Trata-se de um "balanço intermédio", para além dos relatórios anuais. Já não interessa muito que no início do contrato a FCT tivesse definido uma verba anual para deslocações a eventos internacionais e que, passado o primeiro ano (e a dita verba devidamente gasta e justificada), viesse arrepiar caminho dizendo que a tal quantia, afinal, era para o triénio inteiro. A isto chama-se quebra de contrato, mas ninguém pareceu dar por isso e o investigador, feliz e contente por ter com que pagar as contas ao fim do mês ao contrário de tanta gente, nem se atreveu a piar. Também não interessa muito que seja pressionado para a "internacionalização", para os tais eventos além-fronteiras (que se fazem todos pagar, agora, com generosas fees), os quais tem portanto que pagar do seu bolso ou procurar financiamento alternativo. Também não tem grande interesse a pressão crescente para publicar, publicar, publicar nas tais revistas com peer-review e "indexadas", se possível nos malditos quartis Q1 e Q2 da Scopus, as mesmas que, depois, o mesmo investigador não tem acesso porque é caríssimo, o B-On é uma merda e os centros cortam nestas e noutras despesas. E nem vale a pena falar da bibliografia mais recente, que não existe por cá e cujos preços são proibitivos para um investigador. Quem o é "lá fora", em universidades com tudo à disposição, o mais recente conhecimento e produção à distância de uns metros ou de um clic nem imagina a vantagem de que dispõe, logo à partida, mesmo sem ter produzido nada. Má sorte, azar, quem mandou o lusito armar-se em tal coisa, ainda por cima com o mais flagrante tema PSEM? (para quem não conheça o termo, está aqui a explicação). E falar do Seguro Social Voluntário, que é pago mensalmente e que a FCT reembolsa quando lhe apetece, nunca com atraso inferior a 2 meses, também não vale a pena.

Apesar de tudo isto, lá saiu o tal relatório, com títulos em revistas de circulação internacional, capítulos de livros, participação (papers e organização de painel) em colóquios e seminários, tudo devidamente acompanhado de reformulação do projeto de trabalho, parecer do orientador e da instituição de acolhimento e declaração sob compromisso de honra da veracidade de tudo aquilo e de que não exerce outra atividade profissional. Tudo entregue antes do fim de junho. E a resposta? A tal que diz se foi aceite e a bolsa, renovada para o segundo triénio previsto no contrato, seguindo as condições definidas pela mesma FCT, segundo as quais não se trata de nova candidatura nem de novo projeto, apenas uma etapa de avaliação intermédia? Nada. Já lá vão 5 meses, a bolsa acabou, e o investigador vai aguardando, com uma planificação de trabalho para 2015 suspensa, periclitante e provisória e sem saber se o projeto em que trabalha há 3 anos pode ser prosseguido ou se ficará suspenso ad eternum, talvez para outro tonto ingénuo retomar, daqui a umas gerações. Sabe que o trabalho apresentado é mais do que suficiente para justificar a renovação, espera que sim, acha que sim, reza para que sim. Mas com a FCT, quem sabe? Não seria melhor arranjar um plano B, começar a procurar - se calhar já tarde a más horas - alternativas de trabalho, prazos, concursos de lugares lá fora? Estou a falar de um investigador, mas são centenas. Milhares?

Quando sou obrigado a dar explicações mínimas a quem lá fora aguarda por uma resposta para organização de um painel ou confirmação para participação num congresso (coisa que, por muito que surpreenda a FCT, tem que ser feita com vários meses de antecipação), confesso que hesito sempre. Sei que vou causar, no mínimo, piedade ou galhofa. Ou desconfiança, talvez. Geralmente desculpo-me com atrasos e "a crise". Não é a primeira vez que recebo resposta solidária, porque por lá a crise também aperta. Mas tenho a certeza de que não sabem do que falam. Porque sei que desconhecem o que é estar no último mês sem que a instituição oficial responsável pela ciência diga se uma bolsa é renovada ou não. Quase que sou tentado a fazer aquele exercício de imaginação demagógica: alguém que experimente meter políticos, ministros, diretores e quadros superiores do estado em igual situação, que é a de não saber se tem mais três anos ou apenas trinta dias de trabalho. Talvez a coisa se resolvesse mais depressa. Ah! que estúpido, não estamos a falar de elites da nação, de garantes da democracia e do estado de direito ou, quem sabe, de motores da ordem natural e do movimento dos astros, estamos a falar de madraços que estudam e investigam merdas que não servem para nada e que nem sequer contribuem para gerar um sapato, uma pinga de exportação, um grama de equilíbrio do défice público. Tinha-me esquecido mas lembrei-me: é que a demagogia em torno do valor do conhecimento e da investigação científica, tantas vezes apregoada neste país de chicos-espertos ignorantes, acaba por nos afetar.

cavaco não disse, mas podia ter dito, não é? e (quase) toda a gente achava normal

ontem à noite soube que a presidência tinha desmentido a referência a mulheres, bonitas ou não, no almoço de 27 em abu dabhi, e que a sic assumira ter havido 'um mal entendido'. ao mesmo tempo, soube que a intervenção de cavaco no almoço está no site da presidência e fui ver. em vez de referência a mulheres bonitas, oiço (em inglês) referência a paisagens bonitas.

 

portanto, um repórter, aparentemente, terá feito confusão entre women e landscapes, o que já de si é extraordinário, e só deu pelo facto passados três dias? mais extraordinário ainda, a presidência da república, perante a reportagem da sic e a imediata reacção nas redes sociais (onde a pr está e onde não colocou até agora qualquer desmentido), não achou necessário reagir durante três dias? e nos media nacionais nenhuma reação (de monta, pelo menos) a tal barbaridade?

 

o desmentido de cavaco, aliás, só surge depois de alegre ter referido criticamente a coisa no seu discurso no congresso.

 

a única explicação para tudo isto é óbvia: se cavaco não disse, nem a presidência nem a sic nem o resto dos media e comentadores sortidos achou impossível que o tivesse dito ou que isso tivesse qualquer gravidade. o facto aliás de ninguém ter duvidado de que cavaco pudesse ter dito aquilo, mesmo entre as pessoas que consideram inadmissível tal coisa na boca de um presidente, diz tudo sobre o que se pensa de cavaco (et pour cause) mas também sobre a cultura generalizada de machismo -- ou seja, de absoluta falta de respeito pelas mulheres -- em que estamos todos mergulhados. 

 

(publicado também como nota no post abaixo, contar a morte, descontar a vida)

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