Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

jugular

Vá lá, informem-se antes de titular as notícias.

Não se trata só, nem sobretudo, "das taxas moderadoras". Esse aspecto nem diz respeito à "lei da Inerrupção Voluntária da Gravidez", como é referida no Económico.

 

Para esclarecimento dos senhores jornalistas:

 

1) Alterações à lei 16/2007 (Lei da IVG ou do Aborto) : (1) obrigatoriedade do acompanhamento psicológico e social no período de reflexão, (2) o envolvimento no processo de objetores de consciência; (3) a não obrigatoriedade de conhecimento público do estatuto de objetor de consciência; e (4) a implicação de serviços exteriores ao SNS no processo, durante o período de reflexão.

 

2) O pagamento de taxa moderadora é uma mudança no DL 113/2011, que já entrou em vigor a 1 de outubro.

três tristes timbres de uma sinfonia pobre

O primeiro foi a abstenção. Pensar que no meu país há mais de quatro milhões de pessoas que prescindem do seu direito de votar é algo que me deixa - e que deveria deixar todos, para além da simples lamentação - perplexo e crispado. Há quatro milhões de portugueses que desistiram de exercer o seu direito soberano: escolher quem os governa. Não é desleixo. Os portugueses não votam porque o voto entronca numa noção de cidadania que continua a ser estranha e com raízes frágeis, em 40 anos de democracia: direitos, deveres, interesse comum, projeto coletivo. Não votam da mesma forma como não reclamam num serviço, antes resmungam ou desancam o funcionário; não votam como não protestam, antes encolhem-se ou insultam; não votam como não se organizam, antes desdenham de quem o faz. O corolário do "este país é uma merda". Portugal é o país do respeitinho, do medo à autoridade, da desconfiança que o parceiro nos passe a perna, do sussurro pelas costas e sorriso pela frente, de um povo habituado a ser súbdito e não cidadão. O país do desenrascado e do espertalhaço. Do individualista desconfiado: dos seus pares, das instituições, dos políticos e, sobretudo, do Estado. No sábado, numa caixa de supermercado, ouvi uma discussão entre um senhor que dizia que precisávamos não de um, mas de vários Salazares, e um outro que dizia "Salazares não, Lenines". Ambos concordavam que Salazar tinha muitos defeitos mas, ao menos, não roubava. É a este nível rasteiro, de pura desconfiança acerca de tudo e todos, que nos encontramos. Quatro milhões não foram votar. Não decidiram. Escolher é uma responsabilidade, um ónus. Não votar é não decidir, e quem não decide não se sente responsável pelo que acontece, os males do mundo e do país, "eu não tenho nada a ver", foram "eles". Um país de Pilatos, involuntários mas reais, muitos, quatro milhões deles.

 

O segundo foi a vitória do PàF. O mais absoluto desconsolo. Como é possível que quatro anos de laboratório social de uma gente oportunista, que dizia ter tudo estudado e que afinal não conhecia nada, que prometeu cortar gorduras e acabou a raspar no osso, que alinhou com os credores internacionais na mais absoluta subserviência de capataz ansioso por "ir além da troika", insensível ao descalabro social, hipócrita, beata, mentirosa até ao tutano, não tenham causado uma repulsa inequívoca, total, global? Gostarão os portugueses de ser guinea pigs? Serão masoquistas? Um "povo estúpido", como ouvi de várias bocas, antes e depois do dia de eleições? Não acredito. Existe inequivocamente um sentimento, muito católico, de expiação pelos "abusos", o vivemos "acima das nossas possibilidades" que obrigou a um merecido apertar de cinto. Mas mais importante foi a ideia, muito elementar e, por isso, eficaz, incutida, repetida e sedimentada, de que o pior já passou, de que houve sacrifícios mas estamos a sair da crise, de que o "ajustamento" foi doloroso mas necessário e que agora - precisamente em ano de eleições - podemos finalmente resolver os problemas. Todos sabemos que não passa de pura mistificação. Mas a memória é curta e quem mexe os cordelinhos sabe que o uso e abuso de termos como "moderado" e "radical" condiciona a perceção da realidade e espartilha as escolhas e as opções. Evidentemente, muitos dos que votaram PàF fizeram-no por acharem tratar-se do mal menor. Antes estes, que conhecemos, do que os outros, que não se sabe o que são e que - dizem - são "radicais"; e para desgraças já basta as que sofremos. Nada de ruturas. Deixa-nos cá ficar no nosso nichozinho, que é mau mas podia ser pior.

 

O terceiro foi o fracasso do Livre/Tempo de Avançar. Ao contrário dos desvarios de prosápia demagógica de Marinho e Pinto ou do caudilhismo Femen de Joana Amaral Dias, tratou-se de um verdadeiro projeto político participado, com processos de reflexão e debate e eleição de candidatos inéditos em Portugal. O programa eleitoral era sólido e com propostas válidas e substanciais; quem quiser, que compare com a pobreza confrangedora do programa do PàF. Tinha à sua frente pessoas dotadas de mérito e competência política. Não é qualquer um que consegue ter como mandatário nacional uma figura como José Mattoso. Nenhum outro "pequeno partido" teve empenho idêntico por parte dos seus membros ou ações de campanha de âmbito sequer, comparável. Foi uma proposta verdadeiramente nova no panorama eleitoral. No entanto, falhou em absoluto. Ficar atrás do PAN, PDR, MRPP e não alcançar os 50 mil votos é um desaire total para quem tinha ambições e expectativas de se constituir como uma "ponte da esquerda". Ora, este fracasso marcou igualmente o fim de qualquer sonho desse tipo, pelo menos num futuro próximo, num país onde "esquerda" e "direita" deixaram de ter qualquer significado, são meros chavões e rótulos vazios de conteúdo. Pior, deixou bem claro que ideias bem formuladas, propostas inovadoras, projetos participativos e apelo aos valores da cidadania não ganham eleições em Portugal. Nada que surpreenda num país com 4 milhões de abstencionistas. Nada que surpreenda num país onde a PàF venceu as eleições.

Entre Cila e Caribdis ou Que possas viver em tempos interessantes

O PS está frente a um grande desafio. Por isso é distribuir por quem queira cópias da Odisseia. O resultado das eleições colocam o Partido Socialista entre Cila e Caribdis. Com o resultado alcançado, a coligação vai preparar-se para dar uma de Cavaco 85/87 e engrenar no discurso do PS radicalizado e de braço dado com a extrema-esquerda triunfante. A esquerda do PS por seu turno e sem surpresas (aliás, já começou) vai tentar colar o PS à coligação e à austeridade. Chatices de não ter vencido as eleições embora tenha melhorado o resultado face a 2011 e seja o partido mais votado entre a maioria de esquerda que agora existe no Parlamento. Enfim, injustiças da vida, sabedoria do povo.

 

Como pode o Partido Socialista atravessar o seu estreito de Messina? Do mesmo modo que Ulisses: lutando. Lutando para se manter afastado de um perigo e de outro. Não obstante os resultados de ontem, o PS já fez o mais importante: tem trabalho, tem um programa, tem muito boa gente eleita e disposta a trabalhar. Tem uma alternativa para Portugal. Mesmo se esta alternativa não obteve a maioria dos votos dos portugueses, foi sufragada por muitos: obteve 32,38% dos votos, o melhor resultado a seguir à coligação, com uma diferença de 6%. Esses portugueses, onde me incluo, esperam que o PS, como ontem afirmou António Costa, cumpra o seu programa, nem viabilizando a austeridade da direita, nem coligações negativas à esquerda. Entre Cila e Caribdis há caminho: desde logo todas as soluções de esquerda que não impliquem afrontas ao programa do PS mas permitam compromissos com outros partidos. A responsabilidade que este interessante Parlamento de Outubro de 2015 cria sobre todos os partidos representados é enorme. Sobretudo para a Esquerda.

 

Vai ser duro e muito arriscado. Vai ser preciso determinação, diplomacia e competência. Nunca (pelo menos no meu tempo de vida) foi tão interessante ser socialista em Portugal.

Vai ficar a comer bolo-rei, aposto.

105 anos depois da sua implantação há um sujeito, que por acaso é Presidente da República, que não lhe presta a devida homenagem. Para além de tudo o resto, que é muito, demonstra um absoluto desrespeito pelos portugueses. Diz que tem de "se concentrar na reflexão sobre as decisões que terá de tomar nos próximos dias". Será que a disfunção cognitiva é a responsável pela falta de capacidade no desempenho em multifunção? Valha-nos a certeza de ser este seu o último 5 de outubro como PR.

Pág. 3/3

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

Links

blogs

media