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jugular

Uma paella Magalhânica

Estamos em plena temporada de comemorações da viagem de Fernão de Magalhães. O arranque ocorreu no passado dia 20, assinalando 500 anos da partida da armada que haveria de realizar a primeira circum-navegação do mundo. Na véspera, estreou nos cinemas portugueses “Elcano & Magallanes” (por cá chamado de “Uma Aventura nos Mares”), uma animação espanhola sobre a viagem, na qual Magalhães é gordo, bonacheirão e coxo e Elcano o jovem herói destemido por quem a princesa “indígena” se apaixona. O vilão é, naturalmente, o embaixador português. No dia seguinte, o Canal História passou os dois primeiros episódios de “A Primeira Volta ao Mundo”, uma série documental igualmente espanhola aguardada com alguma expectativa e que mereceu destaque na imprensa portuguesa.

Começo por dizer duas coisas: não tenho nada contra “produtos” e abordagens heterodoxas que escapam ao cânone erudito e académico na evocação destes eventos, porque sei que é preciso cativar o interesse do público leigo, e não defendo que Portugal deva gastar milhões em estratégias idênticas para defender o “nosso” Magalhães e mostrar a “nossa” versão do tema. Em poucas palavras, prefiro uma boa série espanhola a uma má série portuguesa; porque o que define a qualidade não é o polimento que o meu ego patriótico recebe mas sim a capacidade de conciliar o rigor histórico com as exigências da divulgação. “A Primeira Volta ao Mundo” presta um mau serviço, fundamentalmente, porque é incapaz dessa conciliação, subjugando aquele a esta última.

A série parte das duas premissas habituais da agenda espanhola: colocar em relevo a forma excecional, vanguardista e visionária como Carlos I e a sua corte acolheram e financiaram o projeto de Magalhães e destacar a figura e o papel de Sebastián Elcano em todo o processo. Para esse efeito, lança mão de um formato arrojado, traçando paralelos com a realidade dos nossos dias e misturando depoimentos atuais com os dos protagonistas da saga. Porém, o resultado é desastroso e confuso.

O primeiro episódio chama-se “uma startup no século XVI”, na qual o rei é “Presidente da Empresa”, Magalhães, “Diretor Geral”, Juan de Cartagena, “Diretor Comercial e Diretor Financeiro” e Elcano, “Diretor de Operações”, entre outros personagens. Tudo como deve ser (e foi, segundo a série) uma verdadeira startup de sucesso. Presumo que o cenário estaria completo se a Web Summit ocorresse em Sevilha em vez de Lisboa. Já o segundo episódio chama-se “Uma Nave Espacial de Madeira” e traça a estafada – além de ridícula e incongruente – comparação simplista e acrítica entre a viagem e a exploração espacial. Naus e caravelas são “as naves espaciais da época”, o arco que vai do Cabo de S. Vicente ao Guadalquivir é o “cosmódromo da modernidade”, o Cabo Canaveral ou o Baikonur daquela época. Um dos intervenientes chega mesmo a comparar a viagem com a ida a Marte.

Nada disto seria muito grave se fosse apenas uma questão de formato e do uso de palavras-choque. Afinal, é preciso seduzir o público e qualquer divulgador da História está consciente da importância de fazer passar a mensagem. Contudo, no seu afã de cativar os espetadores, o guião perde-se em afirmações bombásticas, como afirmar-se que o domínio do comércio das especiarias correspondia, na época, a “controlar o mundo da energia, do petróleo, das redes cibernéticas” de hoje. Há igualmente sérios erros e omissões. Três exemplos: 1. o motim que deflagrou em San Julián (na Patagónia) e que quase comprometeu a expedição é cuidadosamente omitido. Quem foi, na realidade, um dos principais revoltosos? Juan de Cartagena, o tal “Diretor Comercial e Diretor Financeiro” da pseudo-startup; quem aderiu ao motim? Dezenas de tripulantes, entre os quais… Sebastián Elcano, o “Diretor de Operações” da mesma e que a série eleva à categoria de herói impoluto da viagem. 2. A demanda das Molucas é apresentada como uma mera corrida entre Portugal e Espanha, na qual esta foi célere a “captar talentos” (seguindo a linguagem de startup) e a preparar uma expedição devidamente capacitada e financiada. É omitido o facto de os portugueses já lá estarem estabelecidos, de, à data da viagem, disporem de uma sólida – e invejada – base de apoio regional (Malaca) e de já terem procedido ao reconhecimento do mundo malaio-indonésio e das suas rotas e potencialidades, além de já terem alcançado a China, meia dúzia de anos antes. Em vez disso, afirma-se que a localização das Molucas era um “segredo que só Magalhães conhecia”. 3. A certa altura, a narrativa insere a navegação astronómica e a chegada ao hemisfério sul, com a consequente perda de visibilidade da Estrela Polar. De entre as várias omissões, nada é dito acerca do facto de o uso do astrolábio – havia vários exemplares na expedição - colmatar esta lacuna. Em vez disso, e de forma a realçar o contraste cromático, fala-se de “terra plana”, de monstros marinhos e de superstições.

Não há historiadores portugueses na série. Esta lacuna não é irrelevante porque os convidados parecem não estar habilitados a transmitir conhecimentos atualizados sobre a situação de Portugal e da Ásia. Sugere-se que o cravo-da-índia chegava à Europa pela Rota da Seda, exibindo-se um mapa assinalando uma ligação terrestre entre a China e a Ásia Menor; na realidade, o cravo passava por Malaca, daí para a Índia e Mar Vermelho, sempre por via marítima, e chegava à Europa via Cairo e Veneza. Afirma-se que as ilhas eram apenas “conhecidas pelos nativos” e que eram frequentadas por mercadores chineses. Na verdade, a China não importava cravo; o principal mercado consumidor era a Índia e os mercadores que o lá iam buscar eram guzerates, malaios, javaneses. Por fim, para que servia o cravo (e outras especiarias)?, pergunta-se. A resposta, repetida em vários depoimentos, é a que se tratava de um conservante, que se usava para disfarçar o mau sabor e a decomposição da carne, que “era como ter um frigorífico” e que “permitia que os alimentos estivessem disponíveis no inverno” “para controle da fome”. Além de errada (apesar de se tratar de uma ideia muito difundida), convenhamos que seria muito pouco racional conservar a carne com algo tão caro, havendo sal e vinagre à disposição em abundância na Europa.

O rol de erros e incorreções prossegue: afirma-se que Magalhães dirigir-se a Carlos I era algo “inimaginável à época” (o que é inexato), diz-se que a principal característica das caravelas era terem “um leme mais baixo e mais robusto” (sem referência à vela triangular e à capacidade de bolinar), declara-se que a documentação sobre navegação era escrita em “castelhano antigo” (ao contrário de outra, em latim) para dificultar a compreensão pelos rivais portugueses, que Magalhães se ofendeu com D. Manuel porque este não o deixou ficar no palácio onde estava e onde os navegantes costumavam ficar, que o tratado de Tordesilhas concedeu “o que se conhecia para Portugal; para Castela, o desconhecido, o vazio”, sem contexto nem explicação. Há uma afirmação particularmente perturbante, proferida por José Manuel Nuñez de la Fuente: a de que os portugueses adquiriram conhecimentos náuticos (especificamente o astrolábio e o quadrante) por contacto com os chineses, nomeadamente via expedições de Zheng He. Concluo que as teses de Gavin Menzies, apesar de completamente desacreditadas pela comunidade científica, continuam a proliferar e a ser difundidas pelas vozes mais insuspeitas. Por fim, dois pormenores: um retrato de Carlos V é repetidamente atribuído a Rui Faleiro e a tradução é deficiente, entre “quintáis”, “descorbridores”, “atuáis”, “factoria”, “marino”, “Canarias” ou “bahia”.

Até ao momento, “A Primeira Volta ao Mundo” revela um enorme contraste entre intenções e resultados, agravado pela pressão da agenda oficial espanhola e por um guião confuso, falta de coordenação científica adequada e deficiências no cuidado narrativo e no rigor factual. Afirma fornecer uma ementa dinâmica e diversificada de conhecimento interessante, atraente e atual, mas não passa de uma paella salobra e pretensiosa, nutricionalmente pobre e com sabor confuso e disfarçado por doses excessivas de açafrão, que apenas lhe concedem aroma intrigante e cor exótica.

(No ípsilon de anteontem)

valete e a 'pide feminista': uma fábula sobre a liberdade de expressão

reflecti bastante antes de escrever isto. cheguei à conclusão de que é um imperativo ético e até um dever cívico fazê-lo.

no sábado 21 de setembro, às 00.37, recebi uma mensagem do rapper valete, a quem entrevistara para o dn na terça-feira (publicando artigo na quarta) sobre a sua música mais recente.

nessa mensagem, valete aconselhava-me a 'conter-me' no twitter onde, acusava, eu estava 'numa intifada anti-valete'. e terminava dizendo: 'garanto-te que não queres comprar esta guerra.'

respondi-lhe dizendo que nada do que escrevera no twitter era novo em relação ao que lhe dissera pessoalmente: durante a conversa que tivemos dei-lhe a minha opinião sobre a música e o vídeo, tal como depois da publicação ele me disse que não tinha gostado do artigo. toda a conversa até essa mensagem na madrugada de sábado tinha sido cordata, entre duas pessoas com opiniões diferentes mas que falam civilizadamente uma com a outra – o normal, portanto. tinha-lhe até falado de um filme de kurosawa, rashômon, em que um homicídio é narrado das perspectivas de todos os intervenientes e testemunhas, porque me pareceu que algo do tipo podia ser uma saída para o sarilho em que ele se tinha metido.

porém no sábado tudo mudou. depois de lhe responder à primeira mensagem da forma descrita, valete retorquiu: 'estás avisada, fernanda, não te vou avisar segunda vez.' e como lhe tivesse respondido ser melhor não me avisar, e que os únicos avisos do género que recebera na vida vieram de pessoas com as quais supunha que ele não se quereria misturar, deixou ainda mais claro o seu intuito: 'se vacilares vou-te provar bem rápido que não ameaço em vão. assunto encerrado.'

não voltei a falar com valete, que ainda me enviou, na manhã de sábado, um link de um post no facebook em que alguém que se identifica como mulher acusava as mulheres como eu, que consideram que a música e o vídeo de valete reiteram estereótipos de género e o discurso da misoginia (que aliás se encontra noutras criações dele, como não te adaptes) e banalizam a violência sobre as mulheres, de serem 'pesudofeministas'. e fiquei a pensar no que deveria fazer.

entretanto a discussão pública continuou. mamadou ba, um dos líderes do sos racismo, publicou um texto a condenar a música e o vídeo de valete e também as suas justificações: 'para se defender, valete diz inacreditavelmente: "decretaram agora que não se pode fazer filmes com violência e que não se pode fazer arte sem mensagem. como fiz em toda a minha vida contei uma boa história, consegui levar para um registo cinematográfico e chegámos a este resultado. é uma boa história e bom cinema. nada mais.”

"fazer arte sem mensagem" sobre a violência doméstica é, sim, inaceitável. não se trata de decreto nenhum, nem de juízo de uma minoria que não percebe do processo criativo do rap. é uma posição de princípio que vincula a criação artística à responsabilidade cidadã e ao compromisso político. e, parafraseando aimé césaire, respondo-lhe que o que se espera de um artista rapper é que a sua boca seja a boca dos infortúnios que não têm boca, a sua voz, a liberdade daqueles que estão afundados na masmorra do desespero.”'

nos comentários ao post de mamadou, outras pessoas, uma delas ligada ao meio musical negro -- varela kay, membro da máfia sulleana, o mais antigo colectivo de rap em portugal -- corroboram a opinião de mamadou: 'a "liberdade de expressão" não pode continuar a ser a justificação para tudo o que é injustificável e a "liberdade artística" pode ser um perigoso cavalo de tróia. o storytelling é prática recorrente no rap, estilo musical que tem como fundamento meter o dedo em feridas sociais/existenciais/universais, mas este videoclip é uma irresponsável exteriorização de traumas masculinos e, independentemente da intenção, o efeito é perigoso e quase que uma legitimação do direito à "honra patriarcal". (...) enquanto músico e autor, muitas vezes também me apetece fazer/escrever o que me vai na real gana, mas não o faço, porque as minhas "liberdades" podem influenciar negativamente quem me segue, consequentemente, influenciar negativamente a sociedade em que estou inserido. é essa a responsabilidade que advém de uma posição (mais ou menos relevante) no meio artístico, e numa cultura urbana como o hip-hop a responsabilidade é acrescida, pois o rap, além de ser na sua génese uma arma de consciencialização e reeducação, é o estilo musical mais influente dos séc. xx e xxi e cada vez mais é consumido por adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à inteligência (cada vez mais) e perigosamente influenciáveis. assim sendo, o rigor da interpretação não pode ser tão violentamente deixado ao acaso. não sei se há alguma "mensagem" ou objectivo subentendido na música, mas num país com um dos índices mais elevados de mortalidade em violência doméstica da europa, uma música destas não pode vir para a rua sem referenciar inequivocamente a intenção, caso contrário, é só um veículo para a normalização de um problema (e a antecâmara para futuros crimes).'

a partir daqui tornar-se-ia mais difícil manter o discurso, lançado por valete e assumido por muita gente, de que as críticas que lhe fazem se devem a “preconceito e desconhecimento em relação ao hip hop” e vêm de “feministas de classe média” – só faltou dizer que são brancas e racistas.

mas o debate foi torpedeado pelas acções de valete.

depois da ameaça que me dirigiu na tentativa de me calar – o valete que reivindica toda a liberdade de expressão na sua obra não consegue lidar com a minha liberdade de expressão se usada para criticar essa obra -- tive notícia de outra, que está a ser partilhada no instagram, fb e twitter.

nessa outra, dirigida a um homem, alguém que aparentemente é valete, através da sua conta de instagram, ameaça e especifica o que a ameaça implica: 'tás avisado. vou-te dar 2 cabeçadas pa aprenderes a não ser espertinho. que a minha mãe morra se eu não te deixar ensanguentado.' foi também enviada uma mensagem, da mesma conta, para a mulher do homem ameaçado: 'só para avisar que o teu marido foi desrespeitoso em relação a mim. ainda esta semana vou ter com ele e vou-lhe dar nos cornos. só para ele aprender que isto não é merda de putos a brincar aos telemóveis.' o recipiente da ameaça, com quem falei, disse-me que está a ponderar apresentar queixa. e viu-se obrigado a mudar o nome da sua conta no instagram, cadeá-la e distorcer a foto que o identificava.

o autor de uma música e de um vídeo que apresentam a violência homicida como reacção a 'desrespeito' e 'desonra' e que nega que eles possam ser interpretados como apologia ou banalização dessa violência, reputando de 'patética' e 'rebuscada' tal interpretação, demonstra afinal que a sua reacção ao que considera um 'desrespeito' ou simples contrariedade é precisamente a violência (talvez aqui seja preciso explicar que a ameaça é em si violência e é como tal que configura crime no código penal).

se a ideia de valete ao ameaçar-me é deixar-me 'toda ensanguentada', se tem outro plano ou está simplesmente a tentar atemorizar-me e não tenciona ir mais longe, não sei. não sei como integrar esta atitude na pessoa com quem estive horas a falar de forma cordata e com quem até tinha simpatizado.

mas sei que não posso admitir que alguém com esta dimensão pública, alguém que é visto como um role model por muitos jovens e menos jovens, que passa por um 'rapper consciente' e com 'preocupações sociais' e até por um 'intelectual', ache que pode tentar reduzir pessoas ao silêncio com ameaças de mafioso enquanto faz de conta que é um grande defensor da liberdade de expressão e que os 'censores', ou 'pides' -- usou a expressão 'pide feminista' -- são os que se atrevem a criticá-lo. 

não o denunciar seria tornar-me cúmplice desta fraude.

é certo que valete não é o primeiro a ter esta ideia equivocada e perigosa da liberdade de expressão, que passa por se arrogar poder dizer e fazer tudo mas negar aos outros a liberdade de crítica, taxando-a de censura. mas é com ele que a falácia da liberdade de expressão melhor se desmascara: é a falácia do opressor, que se arroga o direito a tudo, até à violência, para fazer imperar o seu discurso. 

se calhar é de lhe agradecer ter tornado isto tão claro.

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