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Em defesa da memória

A implantação da República foi um bambúrrio, diz-se. Mas não se esqueçam de que tudo estava preparado por dentro para esse bambúrrio ... bastou o estrondo para desabar o trono. Raul Brandão- (na foto, José Relvas proclama a República à varanda dos Paços do Concelho em Lisboa)

Durante a minha estadia nos Estados Unidos, fiquei surpreendida pelo conhecimento de história do país demonstrado pelos meus colegas de laboratório, conhecimento adquirido nas aulas de História no ensino básico e secundário. É certo que para muitos a História norte americana iniciava-se com a colonização europeia do continente e visitei no Arizona ruínas «pré-históricas» dos Hohokam ou Anasazi que descobri serem datadas dos século XIV-XV. Mas durante as celebrações do 4 de Julho pude confirmar que todos sabiam exactamente e com todos os pormenores o que se tinha passado nesse dia no ano de 1776, data em que o Segundo Congresso declarou oficialmente a independência das Treze Colónias e sabiam que em 3 de Setembro de 1783 o Reino Unido reconhecera oficialmente a derrota no Tratado de Paris. Hoje, a escassos meses da data que assinala os 100 anos da república, pergunto-me quantos de nós se inquiridos poderiam responder com a desenvoltura dos meus amigos americanos sobre os detalhes da data que se assinala.

 

Não sei qual será a experiência dos nossos leitores, mas pessoalmente contei a disciplina de História entre as minhas favoritas nos graus de ensino em que me foi ministrada, até ao actual 9º ano e em conjunto com Geografia. Aprendi imenso sobre a Antiguidade Clássica, decorei nomes e cognomes dos primeiros reis de Portugal mas a minha História detalhada parou na Restauração. Depois de 1640, o curriculo da época incluía apenas uma breve incursão pelos «horrores» pombalinos. História de Portugal nos séculos XIX e XX era um buraco no currículo que mesmo a minha irmã, que se licenciou em História, não preencheu totalmente na Faculdade.Durante muitos anos, as reminiscências do meu avô materno, que nasceu em 1900 nas imediações de Mafra, eram a única fonte de informação sobre o porquê de um feriado uns dias depois de as aulas começarem.

A dois meses do centenário da República, praticamente a única alteração a este panorama é que hoje em dia não há avós vivos que recoredem presencialmente  o 5 de Outubro.  António José Saraiva, que não é nem pouco mais ou menos o meu historiador preferido, escrevia em 1960 no número do Seara Nova que assinalava o cinquentenário da república:

“Como hoje em dia acontece com a maioria dos Portugueses, quase só conheço o regime que vigorou em Portugal de 1910 a 1926 por ouvir falar. As palavras dos seus inimigos, a persistência, apesar de tudo, de uma parte das instituições criadas por aquele regime, fazem-me no entanto conceber uma admiração mal definida por essa República democrática que foi das primeiras a aparecer na Europa (...)
Já é tempo enfim de sabermos o que foi a República de 1910 a 1926. Nada de bom resulta de se lhe atirarem pedras, e não é bastante, também, cobri-la de flores. Mais alguma coisa é preciso: que os historiadores se ocupem dela».

No post do Rui, rapidamente se viram os inimigos que se devotam até hoje a atirar pedras e a vilipendiar o espírito de liberdade e progresso que norteou a 1ª República.  Felizmente não só os historiadores começam, finalmente, a acupar-se dela como começam a ser (re)publicados alguns livros fundamentais para a compreensão deste período conturbado da História nacional, que continua neglicenciado nos curricula do secundário. Um destes livros foi escrito por um dos actores principais do 5 de Outubro,  «A Revolução Portuguesa 1907-1910», escrito por António Maria de Azevedo Machado Santos, o herói da Rotunda. Reeditado pela Sextante com prefácio de António Reis, do livro, uma das fontes fundamentais para a compreensão da História da implantação da República, existiam até há 3 anos apenas os exemplares da edição de 1911, alguns exemplares facsimilados editados por alfarrabistas e os magros 2500 exemplares da reedição de 1982 pela Assírio e Alvim, prefaciados por Joel Serrão.

Nele encontramos um relatório factual dos acontecimentos ocorridos entre a noite de 3 e a épica manhã de 5 de Outubro em que Machado Santos, com os seus nove sargentos, umas escassas centenas de militares e alguns civis, resistiu na Rotunda ao que parecia a derrota certa das forças republicanas.

Por um bambúrrio de sorte e por mercê do encarregado dos negócios da Alemanha, às oito e trinta da manhã, Machado Santos desceu a Avenida a caminho do quartel-general monárquico instalado no Palácio do Almada, no Largo de S. Domingos. A República foi proclamada às 8h44mn do dia 5 de Outubro de 1910.

Mas este bambúrrio foi de facto apenas o estrondo que faltava para fazer desabar o trono. Ler Machado Santos será certamente necessário para se perceber em detalhe os acontecimentos do dia que em breve celebraremos. Mas o que urge para que não se esvazie a memória, o primeiro passo para a sua deturpação, é perceber porque qualquer estrondo seria suficiente para a queda da monarquia.

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