Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

eduardo e jorge

Quando este texto for publicado, o Eduardo e o Jorge estarão casados. O Jorge e o Eduardo vivem juntos há mais de três décadas – mais casados que isso não se arranja – mas só agora, por força da alteração do Código Civil que entrou em vigor no início de Junho, tiveram a possibilidade de formalizar essa união.

 

Já assisti à minha dose de casamentos. Casamentos de família, casamentos de amigos, casamentos de gente muito nova e menos nova, casamentos divertidos e casamentos chatos, casamentos de estadão e casamentos pelintras, casamentos de convicção e de imitação, casamentos religiosos e civis. Decerto por distracção e preconceito meus, nunca dei muita importância aos casamentos – soavam-me tão hirtos e convencionais, tão desinteressantes na sua assunção ritualizada de uma relação. Quase patéticos na banalidade.

 

Compreendia, é claro, que as pessoas se casassem, que quisessem casar-se. Há motivos para isso – desde logo, os que se prendem com a segurança material, a partilha de bens, a garantia de direitos, sucessórios e não só, mas também, claro, o carácter mais simbólico da cerimónia, na sua proclamação de ser para outro. Mas ao meu entendimento das relações íntimas, que preza a sua gestão privada, o carácter publicitário do casamento (que chegou a implicar mesmo, até há poucos anos, “colar cartazes” na “publicação dos banhos”) repugnava como uma concessão ao critério dos outros: que tinham eles a ver com as escolhas do meu coração? Que obrigação ou interesse poderia eu ter de lhas anunciar, com megafone, registo e carimbo?

 

Essencialmente, a minha visão do casamento não mudou, mesmo quando me juntei às vozes que pugnavam pelo seu alargamento aos casais do mesmo sexo. Não seria certamente por não almejar para mim esse estado que me parecia justo negá-lo a quem dele era excluído apenas por não acompanhar a maioria da população na atracção por pessoas de sexo diferente – exclusão que, foi sempre muito claro, relevava da repugnância que alguns sentem pela “equiparação” das relações entre pessoas do mesmo sexo com as de sexo diferente, pela ideia de lhes conferir a mesma dignidade no anúncio público e na sua “aceitação” formal pela comunidade.

 

Chegar à noção de casamento assim, como que a contra-corrente, fez-me investigar e reflectir sobre ela como nunca me ocorrera. Li a parte que lhe diz respeito no Código Civil, a sua história, a discussão que por cá teve lugar nas Cortes, no século XIX, a propósito da sua instituição (em oposição ao casamento então consagrado pela lei – o católico). Descobri que era possível casar pessoas moribundas – um facto que contradizia em absoluto todas as “definições” que eram apresentadas sobre o carácter “procriativo” do casamento e que permite entender, com clareza, o quanto o simbolismo declarativo lhe é fulcral, de como o rito do casamento é, essencialmente, e antes de todas as decorrências materiais e estatutárias, de todos os averbamentos e reconhecimentos oficiais, uma espécie de jura testemunhada.

 

Dir-me-ão que isso era óbvio desde o início. Não o foi para mim. Foi longo e derivativo o caminho que me levou a esta revelação, e que, com todas as reservas subjectivas que mantenho em relação ao casamento, me faz vê-lo agora como algo muito mais significativo e tocante do que me parecera durante tanto tempo.

 

De alguma forma, o casamento do Eduardo e do Jorge é o primeiro da minha vida. Tinham razão, afinal, os que diziam que a lei aprovada a 8 de Janeiro no parlamento ia refundar a ideia de casamento: sem deixar de ser uma convenção e um formalismo e uma satisfação prestada à comunidade, reafirmou-se como essência de livre vontade individual e como gesto romântico. Parabéns, Jorge, parabéns, Eduardo, e obrigada – não é todos os dias que se partilha a celebração do amor.

 

(texto publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 1 de agosto, ou seja, dois dias depois do evento que a ana assinalou nessa madrugada, depois de um dia de muito champanhe e alegria)

25 comentários

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

Links

blogs

media