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jugular

caladinha, chiu

uma das coisas mais interessantes da discussão da caixa de comentários deste post -- e, de resto, daquilo que sobre ele se escreveu na bloga ou nos comentários, no site do dn, ao artigo de opinião que originou o post -- é o facto de uma parte substancial dos críticos do meu texto usarem como 'argumento' uma acusação, a de que eu teria um interesse 'pessoal' e 'directo' no assunto em causa e portanto um alegado 'conflito de interesses' que me impediria de abrir a boca sobre o assunto.

 

sendo o meu texto sobre o facto de existir, do meu ponto de vista, uma incompatibilidade entre participar num processo e reportar sobre ele, incompatibilidade que considero de princípio e que tentei abordar sem pessoalizar ou subjectivizar o caso -- usando as justificações alegadas pelo jornalista em causa, mas não efectuando qualquer análise às suas motivações pessoais -- é de uma impagável ironia que o grosso das críticas se concentre no conflito de interesses de que eu padeceria (baseando-se em raciocínios e conclusões que já desmontei e desconstruí várias vezes e cuja baixeza e primarismo estereotipados, apesar de profundamente repugnantes, já só me entediam), evitando assim abordar aquele sobre o qual escrevi e que, longe de se remeter a uma qualquer subjectividade, é patente e formalmente exposto e até questionável do ponto de vista legal.

 

ou seja: perante a colocação de um problema -- é ou não uma perversão alguém que se coloca dentro de um processo judicial reportar sobre ele? esta realidade é ou não a caricatura da espantosa promiscuidade existente em portugal neste momento entre media e sistema judicial (promiscuidade que de resto o próprio jornalista que se fez assistente denuncia e apresenta como um dos motivos para essa sua acção)? -- uma razoável quantidade de gente prefere discutir se eu posso sequer colocar o problema.

 

ora eu posso, é claro, estar enganada. posso não estar a ver bem e estou, como sempre -- e se escrever o que escrevi num jornal, sujeitando-me a todo e qualquer contraditório (a começar pelo do jornalista e do jornal que se considerarão visados), assim como os comentários que aprovei neste blogue e aos quais respondi na caixa de comentários referida não são demonstração disso, não sei o que poderá ser -- disposta a debater, discutir, ouvir e argumentar. mas o lugar a que me querem remeter os que me acusam de querer 'calar' e 'censurar' o jornalista em causa não é de debate; é o do silêncio, o do 'caladinha, chiu' -- e isso, imagine-se, em nome de uma ideia qualquer de liberdade de expressão.

 

esta ignomínia é já de si um paradoxo deslumbrante. mas não o é menos que o caso de josé antónio cerejo esteja a merecer tão pouca atenção -- tão pouca que o meu texto é, que tenha dado por isso, o único de um comentador sobre o assunto, apesar de ter ouvido já, em conversas privadas, muitos jornalistas e actores mediáticos dizer que consideram inaceitável a sua condição de agente duplo e inconsubstanciadas e perversas as suas explicações (não vamos para as motivações, isto não é psicanálise). onde estão então as vozes públicas? onde estão os debates?

 

sabemos o que se passa: quem se atreve a pôr em causa o modus operandi de jornalistas que se apresentem, como é o caso deste jornalista, como incansáveis paladinos da luta 'contra o poder' (que por acaso neste caso é mesmo só o primeiro-ministro) leva com umas baldadas de porcaria em cima, de vendido e serventuário para baixo. e parece que há muita gente com muito mais medo desse poder, o dos caluniadores e chantageadores da 'liberdade de expressão' , que do tal poder que vem e vai com eleições.

 

mas o paradoxo não fica por aqui. ao remeter a discussão para a existência de 'campos' ou trincheiras, colocando no mesmo saco de serviço ao poder toda a gente que coloca dúvidas sobre os métodos de alguns meios e jornalistas, o que quem o faz está a assumir é a sua condição, precisamente, de trincheira, não se dando assim conta de que contamina com a sua frente de calúnia (sim, esta tem dono, e que dono) tudo e todos os que apresenta como 'justos', insinuando do 'seu lado' um conflito de interesses de sinal contrário ao que denuncia nos outros. se os que alegadamente 'defendem' (e é defesa, desta perspectiva, tudo o que não seja um ataque cerrado) são suspeitos por definição, que dizer dos que só atacam e se recusam a debater toda e qualquer matéria que não resulte em mais munições para o seu fito, execrando e condenando ao silêncio e ao opróbrio todo e qualquer que não jure pela respectiva cartilha?

 

como se não fosse possível, neste caso, partir senão de um lugar viciado. o dos que amam e o dos que odeiam. não, enganam-se. e perde quem manda calar primeiro.

 

em adenda: o folhetim, por eduardo pitta

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