Adoro o campo...
Regressei da costa alentejana com uma irritante fotodermatite, causada muito provavelmente por contacto com uma das umbelíferas integrantes da vegetação luxuriante do local que escolhemos para férias e agravada por não ter percebido que a comichão que me invadia as canelas não tinha nada a ver com mordidelas das muitas melgas e mosquitos que me escolheram como alvo e ter insistido em ir à praia apagar a palidez de um ano passado em exclusivo indoors.
Enquanto me resigno a não poder voltar a ter as pernas ao léu este Verão, vou meditando na evolução da reacção social ao bronzeado, um must nas sociedades contemporâneas - excepto no Irão onde uns quantos alucinados ayatollas pretendem mandar para a prisão quem o exiba-, que curiosamente ou não, correlaciona com o reconhecimento de que a exposição ao Sol, contrariamente ao que me aconteceu, pode ser muito benéfica.
De facto, as propriedades terapêuticas da luz são conhecidas desde o início da História mas o interesse quer na exposição quer na utilização terapêutica da luz, como muitas outras coisas, foi suspenso nas sociedades ocidentais na Idade Média e assim permaneceu até finais do século XIX, início do século XX, especialmente depois de Niels Finsen ter recebido o Nobel da Medicina em 1903 pelo seu tratamento «solar» do lupus vulgaris.
Os registos históricos mais antigos que temos indicam que o uso da luz como agente terapêutico pode ser traçado ao culto do Sol, um deus que povoou o panteão de inúmeras mitologias. Muito antes do culto de Rá em Heliopolis, as civilizações pré-históricas adoraram o Sol e endereçaram-lhe preces. A influência do deus do Sol grego, Helios, permaneceu mesmo depois do advento da racionalidade grega, por exemplo na metáfora do Sol de Platão e no facto de o pai da História, Heródoto, ser também o pai da helioterapia, importada pelos romanos que transformaram os helioses gregos em solaria.
Os antigos egípcios usaram igualmente a fototerapia para tratamento de algumas afecções dermatológicas, como referido no papiro de Ebers, o mais extenso dos papiros médicos do Antigo Egipto. Nomeadamente, foram os pioneiros da terapia fotodinâmica (Photodynamic Therapy ou PDT) ao tratarem a lepra branca ou vitiligo com exposição ao sol da pele untada com cicuta negra - rica em 8-metoxipsoraleno, um fotossensibilizador que ainda hoje se utiliza. De igual forma, os psoralenos da Psoralea corylifolia são o princípio activo dos tratamentos milenares prescritos para esta afecção na Índia e na China. O Atharva Veda prescreve o uso das sementes negras da beivechi ou babachi (Veisuchaika no original, alguns dos muitos nomes com que a planta é conhecida), seguido da exposição directa ao sol para tratamento do vitiligo.
Os solaria acompanharam a queda de Roma e a helioterapia só foi recuperada parcialmente por Avicena no século XI. Mas na Europa medieval e renascentista a exposição ao Sol era evitada já que escurecia a pele e uma pele nívea era uma marca de nobreza. Aliás, foi muito comum as classes mais altas utilizarem pós para tornar mais pálida a tez, prática que não era muito saudável quando os pigmentos branqueadores de eleição eram compostos de arsénio ou de chumbo. Na Inglaterra isabelina, o ceruse veneziano era utilizado não só para conferir uma pele branca, realçada por «beauty marks» artisticamente aplicados, como nos «tratamentos» capilares que conjugados com a mistura de óleo de vitriol (ácido sulfúrico) e extracto de ruibarbo usada para aclarar os cabelos explicam as testas proeminentes dos retratos desta época.
A Revolução Industrial começou a alterar a relação entre status social e cor da pele já que a palidez começou a ser associada aos trabalhadores que passavam o dia encerrados em fábricas e longe da luz do Sol. Assim, o bronzeado foi perdendo a sua conotação «trabalhadora» mas só nos loucos anos 20 o efeito terapêutico do Sol que fazia furor na comunidade médica foi promovido socialmente por Coco Chanel, curiosamente na mesma altura em que introduziu o Chanel No. 5, cuja composição incluía então alguns componentes muito fotóxicos.
Na figura: Deauville, 1929.


