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I Hope the Muslims Love Their Children Too (I)

Como é que era? "In Europe and America, there's a growing feeling of hysteria...". Uma música de Gordon Sumner, vulgo Sting, lançada em 1985, dava conta do ambiente da Guerra Fria, do desencanto de um mundo dividido em dois blocos e da espada de Dâmocles que pendia sobre a cabeça de todos, indiferentemente do local onde viviam, da sua ideologia, credo, raça ou sexo. Foi apenas há 25 anos. O mundo mudou, já ninguém pensa no perigo das armas nucleares e a ameaça à segurança individual e colectiva perdeu o rosto visível de um país ou uma ideologia, seja ela o expansionismo soviético ou o imperialismo capitalista. Hoje, nove anos depois do "11 de Setembro", o grande temor é o terrorismo islâmico ou, mais exactamente, o que consideramos ser o "Islão terrorista". E tal como há um quarto de século o cantor britânico falava num crescente sentimento de histeria, também hoje existe algo de idêntico, não exactamente acerca dos grupos que sonham por destruir a América e humilhar o Ocidente, mas do Islão na sua globalidade. Uma religião milenar, uma das grandes religiões mundiais, herdeira da tradição judaico-cristã e com a qual amadureceu e evoluiu é subitamente, no espaço de meia dúzia de anos, promovida a ameaça, equiparada a terror e tomada por sinónimo de regressão civilizacional e de obscurantismo, num misto de medo, ignorância e preconceito.

 

Alguém temia o avanço da religião muçulmana há 20 anos? Alguém propunha queimar publicamente exemplares do Corão? Alguém se opunha à construção de uma mesquita ou de um minarete onde quer que fosse, alguém legislava proibindo uma mulher de usar véu? O que aconteceu entretanto? Uma revolução islâmica que mudou a face de um continente, causou uma hecatombe mundial, massacrou milhões de pessoas, ameaça o futuro da Humanidade? Não. Um grupo de fanáticos militantes que atacou o coração da América, causando 3 milhares de mortos. Um acto de guerra cruel, indiscriminado, que não se dirigiu a militares ou a chefias mas a civis, a quem quer que estivesse na hora errada no local errado, destinado a espalhar o medo e a desconfiança em "mancha de óleo", a acentuar clivagens e diferenças e a generalizar o ódio e a intolerância em espiral. É isto o terror. E está a resultar. Contudo, o impacto dos atentados de há nove anos foi enormemente amplificado por algo especificamente "americano": nunca a guerra tinha chegado à América. Na percepção americana do mundo, todas as guerras são toleráveis, desde que ocorram longe das suas fronteiras. A globalização veio alterar radicalmente esta regra elementar, com os efeitos que se conhecem: arrastamento de meio-mundo para uma intervenção desastrada no Médio Oriente, invasão de dois países, agravamento das tensões regionais, acirramento do ódio anti-americano e, por extensão, anti-europeu. À medida que o tempo passou, à ideia de um terrorismo essencialmente islâmico passou-se à de um Islão essencialmente terrorista. Já não temos, hoje, o sentimento de um verniz muçulmano a cobrir um projecto terrorista; já passámos ao inverso. A controvérsia envolvendo a construção de uma mesquita algures não muito longe do "ground zero" mostra que o processo de contaminação está completo: mais importante do que saber que foram terroristas os responsáveis pelo crime brutal de 2001 é realçar que eram muçulmanos; e que um templo ao deus dos autores é uma glorificação do acto e uma ofensa à vítimas (não importando que algumas destas partilhassem da mesma fé). Do "lado de lá", também há quem considere que o acto de queimar exemplares do Alcorão não resulta de estupidez de um punhado de alucinados: é uma ofensa da América a todos os muçulmanos.

Todos estamos a embarcar numa nova visão dual do mundo: um "choque de civilizações", uma oposição inconciliável entre dois mundos, uma civilização "ocidental", democrática, livre vs. um mundo bárbaro, intolerante e obscurantista. Evidentemente, do "lado de lá" os adjectivos são outros. Num certo sentido, a bipolarização que se cria desaparecida em 1989 regressou, de forma atenuada mas muito mais perigosa: não é um bloco político-militar que se nos opõe, é uma religião que julgamos histórica e visceralmente antagónica e ameaçadora aos valores, práticas e tradições que prezamos e que assumimos como exclusivamente nossas. Ora, esta visão dualista e simplificada da realidade decorre, entre outros factores, de uma série de equívocos sobre o Islão e o seu relacionamento com o que convencionamos chamar de "Ocidente"; e como este antagonismo exacerbado é recente, esses equívocos são, em boa parte, do passado e da História.

(Continua)

 

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