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doutrina jornalística

A semana passada, escrevi neste espaço sobre o Avante!, órgão central do Partido Comunista Português, maravilhando-me com o que nele li sob a forma de notícia, entrevista e opinião. Contudo, na minha ignorância, passei ao lado do fundamental: parte dessas maravilhas foram produzidas por jornalistas com carteira profissional, o que de tão inverosímil nem sob tortura norte-coreana me ocorreria delirar. Alertada, porém, descobri que pelo menos em mais dois órgãos informativos (chamemos-lhes assim) de partidos, o Acção Socialista, do PS, e o Esquerda, do BE, há jornalistas com carteira profissional no activo (de acordo com o assessor de imprensa do PSD, o Povo Livre não emprega jornalistas).

 

Assente o impensável, acorri a reler a lei que regula a actividade jornalística. E sim, lá está a definição de jornalista ("quem como ocupação principal, permanente e remunerada, exerce com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões") e o que não pode ser considerado jornalismo - funções semelhantes desde que com objectivos de promoção de "actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial". É certo que não se encontra (estranhamente, de resto) algo específico sobre órgãos de doutrinação, como é o caso dos citados (assim classificados no registo da ERC). Mas referem-se como incompatíveis com o jornalismo as funções de "angariação, concepção ou apresentação de mensagens publicitárias", assim como "de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem".

 

Ora bem: se um assessor de imprensa, cuja função é a de veicular a informação que o seu contratador lhe fornece (geralmente parcial e não raro até falsa), não pode acumular, e bem, essa função com o estatuto de jornalista, alguém me explica como pode alguém que trabalha num órgão de informação com os mesmos objectivos ser considerado jornalista? Mistério. E maior mistério saber como se compagina isso com os deveres de "informar com rigor e isenção, demarcando claramente os factos da opinião", "procurar a diversificação das suas fontes de informação e ouvir as partes com interesses atendíveis nos casos de que se ocupem" e "recusar funções ou tarefas susceptíveis de comprometer a sua independência e integridade profissional". Mas quando se tem como órgão fiscalizador das violações ao Estatuto uma entidade - a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista - que prima pela catalepsia e se sabe que o sindicato dos jornalistas já teve na direcção alguém que fez toda a carreira jornalística (sem aspas, pois) no Avante!, não é de crer que a deontologia corra algum risco de se transformar em doutrina. Não: a doutrina é mais vale tudo - menos, claro, dizer que não pode valer.

 

(publicado hoje no dn)

 

adenda -- só a falta de espaço me impediu de referir também os órgãos dos clubes desportivos. estou aliás muito interessada em saber se por exemplo a benfica tv tem jornalistas contratados. até porque me lembro muito bem de uma 'notícia' relacionada com um benfiquista que teria sido atacado por adeptos do braga, 'notícia' essa veiculada pela benfica tv e 'apanhada' por outros meios, caso do público, e que se veio a revelar simplesmente falsa.

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