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I Hope the Muslims Love Their Children Too (IV)

Mas então como agora, uma coisa era o discurso, a propaganda, a ideologia; outra bem distinta era a prática. E as duas quase nunca afinavam pelo mesmo diapasão; a realpolitik sempre prevaleceu debaixo do verniz da ortodoxia. Um exemplo paradigmático, que enche as páginas dos manuais escolares (hoje bem menos do que outrora, é verdade) e do imaginário colectivo, é o que se convencionou designar de Cruzadas, em plena baixa Idade Média. O que nem sempre é dito é que a I Cruzada, a mais feroz e agressiva, nasceu de um mal-entendido, de um pedido de ajuda a Roma por parte do imperador bizantino contra os turcos seljúcidas (que ameaçavam a Anatólia depois da batalha de Manzikert) que foi mal-interpretado e tomado como apelo contra alegadas (e falsas) perseguições aos cristãos sírios; a resposta foi desproporcionada: o Papa Urbano II concedeu remissão dos pecados a quem partisse para ajudar os cristãos de Bizâncio e o apelo ecoou pela Europa. Em 1096 partiram as primeiras hordas do norte de França, contingentes desordenados e anárquicos que progrediram para oriente até Jerusalém, semeando a destruição e a pilhagem por onde passavam. Quem quiser conhecer os pormenores "não-oficiais" pode ler Amin Maalouf. O imperador bizantino deve ter-se arrependido amargamente dos apelos que lançara, pois fora ele quem desencadeara a vinda de vagas de gente que não conseguia agora controlar e que cedo se tornaram uma ameaça à integridade do seu império.

 

As cruzadas rapidamente perderam o teor messiânico e milenarista e passaram a ser empresas políticas no jogo das casas reais da Europa, entre si e com Roma, e nos negócios de Veneza. A IV Cruzada tomou e saqueou Constantinopla, em 1204, o que foi, só por si, revelador; passou a haver "cruzadas papais" (nomeadamente contra a heresia dos cátaros, em 1207-08) e "cruzadas imperiais" (como a VI, de Frederico II, em 1228-29). Do "outro lado", o panorama era, de alguma forma, paralelo: um jihâd pregado em diversos momentos (e sobretudo pelos atabegs de Mossul), mas a fragmentação política e a rivalidade e hostilidade entre as várias potências (fatímidas - ismaelitas - no Egipto, turcos seljúcidas na Ásia Menor) convidava ao compromisso e à negociação. A guerra alternava com a paz, com o trato mercantil e com o acordo político: rapidamente foram declaradas tréguas e a primeira metade do século XIII foi de relativa paz na Palestina. Escuso-me a falar das apregoadas "cruzadas do Ocidente" ou "Reconquista" peninsular, patina ideológica dos vencedores destinada a cobrir de um mui excelso zelo cristão a expansão das potências setentrionais para sul e a vitória do rito latino sobre o cristianismo moçárabe.

Presumo que todos, hoje, sentem um tom de ameaça e de insegurança quando são divulgadas declarações de Bin Laden sobre a necessidade de expulsar os "novos cruzados"; quem o ouve do "lado de cá" imediatamente imagina um "mundo islâmico" receptivo, uma turba sedenta de vingança por antiquíssimas ofensas cometidas pelos "cruzados" ocidentais. Contudo, e para além de muito pouca gente lhe reconhecer legitimidade e autoridade para pregar o que quer que seja, o seu discurso é mera retórica: os grandes inimigos dos muçulmanos árabes da Idade Média não foram os cruzados europeus; foram os turcos, primeiro os seljúcidas, depois os otomanos, todos bons muçulmanos, como é evidente. A luta de libertação do mundo árabe não se fez contra nenhuma potência ocidental, fez-se contra os ocupantes otomanos, até à desagregação posterior a 1918. Lawrence da Arábia, alguém viu? Na vizinhança, no mundo persa, velha civilização anterior ao Islão, o nacionalismo sobrepõe-se (apesar da retórica inflamada do louco Ahmadinejad e de alguns mullahs) à solidariedade especificamente "islâmica" e está profundamente enraizada uma animosidade anti-árabe e um rancor (xiita) anti-sunita seculares, que perduram.

Mesmo no que respeita ao "perigo turco" que assustou a Europa durante dois séculos, a realidade ficou muito aquém das ideologias e das propagandas. Nos séculos XVI-XVII, a sombra de três grandes potências muçulmanas pairavam sobre uma cristandade aparentemente em contracção: o Império Otomano, a Pérsia Safávida e a Índia Mogor; porém, e como se esperava, eram potências rivais. A aliança entre portugueses e persas chegou a ser ponderada de ambos os lados, na primeira metade do século XVI (no rescaldo da tomada de Bassorá pelos otomanos) e a Índia Mogor manteve boas relações com os portugueses e, posteriormente, com a East India Company britânica. Era o "Turco" o grande perigo, imparável nos Balcãs, no Magreb e no Médio Oriente; Viena esteve prestes a cair, por duas vezes. Mas onde se poderia esperar um "bloco cristão", apenas se viu convergência estratégica e pontual entre o Sacro Império, alemães, polacos, sérvios ou húngaros, aliás rapidamente traídos pelas tentações hegemónicas austríacas. O grande inimigo do mundo católico era o Turco? não. Eram os luteranos e os calvinistas. De tal modo que os calvinistas das Províncias Unidas Neerlandesas, acossados pelos exércitos de Filipe II e perante as atrocidades do Duque de Alba, preferiam colocar-se sob a autoridade de Selim II do que capitular perante a intolerância católica. "Liever Turks van Paaps", diziam, "antes turcos que papistas", o que demonstrava não só a profunda divisão e o ódio inconciliável que existia na cristandade ocidental mas também a tolerância religiosa que vigorava nos domínios otomanos (aliás, muito e sempre superior à que vigorou em qualquer parte da Europa nessa época). E mesmo no interior do mundo católico, as fracturas eram evidentes: o Cristianíssimo Francisco I de França promoveu uma aliança estratégica com os otomanos contra o inimigo comum, o odiado Carlos V, aliança que foi muito além do simples contacto diplomático e que teve efeitos práticos na colaboração militar, por exemplo, na guerra no Mediterrâneo, entre as armadas francesas e os frotas barbarescas do célebre corsário Barbarrossa, e que se prolongou pelo século XVII adentro.

Poder-se-ia pensar que as solidariedades religiosas cristãs vs. muçulmanas funcionassem fora do contexto da Europa / Médio Oriente, longe de velhas rivalidades, disputas fronteiriças, hegemonias e tensões entre estados e etnias; no Índico, por exemplo. Mas mesmo aqui, por muito que os portugueses agitassem os estandartes do zelo católico e árabes, guzerates, mappila malabares, javaneses ou achéns declarassem a guerra santa, os interesses mercantis, práticos, económicos, prevaleceram sempre. Além disso, o mundo marítimo, cosmopolita, aberto aos contactos, aos tratos e às parcerias do comércio, eram essencialmente mais tolerantes do que o mundo fechado e unívoco dos continentes, das planícies e das estepes. Houve um momento de sintonia anti-cristã e anti-portuguesa, sim, pelas décadas de 1560-70, mas foi breve e inconsequente. E com a chegada dos herejes holandeses e ingleses à Ásia, nos finais do século XVI, a dicotomia religiosa deixou definitivamente de fazer qualquer sentido, também aqui. Mesmo a actividade missionária, nomeadamente da Companhia de Jesus, raramente esbarrava com o proselitismo islâmico, preferindo concentrar as suas atenções em regiões mais promissoras, nomeadamente no Japão e na China, imunes à penetração da "maldita seita". Houve casos de competição, sim: nas Filipinas, a incipiente islamização de Tondo e Manila foi rapidamente submergida pela conquista castelhana, mas prevaleceu mais a sul, em Mindanao; nas Molucas e na Insulíndia Oriental, os missionários católicos perderam gradualmente terreno, criando raízes em pequenas ilhas num mar muçulmano, como em Timor, em Amboino ou em Larantuca.

A partir do século XVIII, a ambivalência de cariz religioso entre a Cruz e o Crescente, que anteriormente tivera um valor essencialmente ideológico e propagandístico, tornou-se definitivamente uma antiqualha, capitulando perante a raison d'État formulada e desenvolvida pela Europa das Luzes e pelos estados modernos. O surgimento de novas potências na geopolítica mundial, com novas tensões e focos de disputa, veio tornar obsoleto o antigo prestigio da solidariedade entre estados cristãos: a Guerra da Crimeia, por exemplo, assistiu à aliança franco-anglo-otomana sem pruridos, perante a expansão russa para sul.

E hoje, no mundo pós-Guerra Fria, eis que regressam velhos temores, ressuscitam velhas ambivalências, alimentadas, fermentadas e sistematizadas ideologicamente por construções que falam da ameaça do Islão ou de "choque de civilizações".

 

(continua - mas está quase a acabar)

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