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The people can do (no) wrong

O povo, como se sabe, é inatacável. Os únicos agentes do Mal neste mundo são sempre pequenos grupos, as minorias: as étnicas, as sexuais, as profissionais. E claro, esse particularmente vicioso grupo, os políticos.

 

Os políticos, como se sabe, são o Mal encarnado.

 

Quando se inventou a liberdade de imprensa foi para dar cabo deles. E quando se teorizaram limites à reserva da vida privada foi para eles não se armarem em espertos.

 

O golpe genial das democracias republicanas modernas é que substituíram o rei inimputável pelo povo inimputável. Antes the king could do no wrong. Agora the people can do no wrong. Mesmo quando alguém acusa o povo de ter falta de qualidades, logo se apressa a explicar que a culpa é dos fracos líderes (ainda no outro dia vi um clérigo defender esta posição, num video que tem circulado com grande sucesso pela internet). O rei era um déspota totalitário, o povo, na pior das hipóteses, engana-se: os políticos não estiveram à altura da confiança que neles foi depositada.

 

Lemos a imprensa, vemos televisão e nunca o povo é acusado de nada. Pelo contrário: o povo é sempre a vítima. O povo está impotente. O povo sofre. E, ainda por cima, o povo nunca faz mal. Recentemente, aliás, a sabedoria romana que nos tinha chegado ao longo dos séculos, resumida na máxima de que a "turba controla-se com pão e circo", vem sendo substituída pela abordagem científica da sabedoria das multidões (mas calma, leiam também isto).

 

Pensar-se-ia que, com tantos anos que levamos desta constatação, já seria tempo de o povo, que nunca se engana, ter posto mãos à obra para construir um sistema em que pudesse colaborar mais, diminuir o poder dos seus representantes, fiscalizar as grandes decisões dos políticos, esse vicioso grupo. Digamos, capitalizar com as virtudes do povo, para construir um país mais justo, mais amigo, mais solidário. Mas o povo não se mete nisso, que é trabalho sujo (para isso temos os políticos) ou, pelo menos, trabalho duro. E, que diabos, é para isso que há a democracia, para nos maçarmos nos dias de eleições e depois ficarmos o resto do tempo a queixarmo-nos da vida. E dos políticos (e lá se foi a república...)

 

Ora, como o povo é inatacável, virtuoso por definição, a culpa desta situação não pode ser dele. A falta de espírito comunitário e participativo não é culpa do povo. A ausência de estruturas locais, regionais de pressão e decisão, à margem dos partidos, não é culpa do povo. A falta de mecanismos de controlo dos seus representantes também não. O Estado tem o tamanho que tem contra a vontade do povo, que não o quer para nada. A culpa é das perigosas minorias: os ciganos, os homossexuais, os advogados, os médicos, os idosos, os juízes e, claro, os políticos. Todos eles conspiram para prejudicar o povo, para agrilhoar o povo. Ficamos com a ideia de que se o povo fosse deixado em paz estaria melhor.

 

Aliás, coligindo os predicados que os políticos deverão ter, de acordo com os arautos do povo, percebe-se a argúcia do engodo: tantas virtudes só poderiam ser obra do demónio. Tudo lobos com pele de cordeiro. Não há ser humano que resista.

 

Ao invés de uma cultura em que nos habituamos desde a família, do bairro, da cidade, da região, a negociar o que queremos, procurando soluções com cedências múltiplas e pontos de equilíbrio óptimo (long live Nash!), procuramos uma cultura de renúncia às maçadas do poder através das eleições, mantendo-o como um morto-vivo que permite a execrável legitimidade do ministro de bancada, o one-man-shadow-government. Eu pago os meus impostos, por Deus!

 

Se soubessem como custa ter que suportar os comentadores (destrutivos) gostaríamos de vê-los obrigados a ter que governar toda a vida (é assim que deveríamos subverter a máxima salazarista). E, sem surpresas, os nossos potenciais representantes replicam esta cultura. É complicado governar por consensos, melhor governar por alternância: quem tem o poder tenta, quem é oposição mina. E assim gira o carrossel. É que negociar pode demorar meses ou anos e as legislaturas são curtas. Mais vale aproveitar enquanto se lá está ou tentar lá chegar rapidamente. E fazer tudo sozinho.

 

Em vez do governo de filósofos, pelo que tenho percebido, precisamos de um governo de santos, os únicos que estão à altura de tamanhas façanhas. Não é à toa que foi Moisés que conduziu o povo escolhido para a terra prometida. Um político não teria conseguido. Mas, como lembrava há umas semanas o Economist, a maioria dos santos acaba mártir.

 

Se queremos políticos melhores, temos, primeiro, que ser melhores, dir-se-á. Mas é muito mais do que isso: o povo é o primeiro dos políticos, demitir-se esquizofrenicamente dessa função é não perceber que cada um de nós tem que ser um político à escala da sua vida, na medida das suas possibilidades e capacidade. Votar apenas já não basta.

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