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Subversões

 

Bento XVI continua muito preocupado com a descrença alheia e em particular com o facto de não ser o Vaticano a conduzir os destinos das sociedades ocidentais. Esta perda do sentido do sagrado, segundo Bento XVI, deve-se às mudanças sociais da modernidade, propulsionadas pelos avanços científico e tecnológico e pela globalização, que alimentaram «dúvidas em áreas que pareciam indiscutíveis», como «a fé em um Deus criador e providente, a revelação de Jesus Cristo como único salvador» ou a «lei moral natural» e resultaram na mania secular de que o Homem é «o único artífice do seu destino».

 

Assim, debitou um motu proprio Ubicumque et semper (sempre e em todo o lugar)  com o qual instituiu um novo Conselho Pontifício destinado a combater a secularização e ateísmo que «alastram sobretudo nos países e nas nações do chamado Primeiro Mundo». O dicastério para a Promoção da Nova Evangelização (é mesmo assim que a coisa se chama), dirigido pelo arcebispo Rino Fisichella, terá como missão «combater» este lamentável estado de coisas, ou seja, combaterá o secularismo e o ateísmo, que «inspiram e sustentam uma vida vivida como se Deus não existisse».

 

E esse combate dos ateus é mesmo necessário já que, segundo Bento XVI «a indiferença religiosa e a total insignificância prática de Deus» «não são menos preocupantes e subversivos do que o ateísmo declarado». Isso mesmo, o ateísmo e a laicidade são subversivos, evertentes no latim original e eversivi na versão em italiano, e não relevantes como a Ecclesia traduziu. Enfim, se até para católicos ditos progressivos insultar ateus e acusá-los de malfeitorias sortidas é o pão nosso de cada dia, não espanta que Bento XVI, que em Setembro acusou o ateísmo de ser a causa da crise actual e do Holocausto, agora nos chame subversivos. Não espanta mas maça...

3 comentários

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    Palmira F. Silva 14.10.2010

    Óbvio que não é surpresa para ninguém a missão evangelizadora da Igreja nem é surpresa a forma como critica os «adversários», para usar a linguagem clubística de outro comentador, para tentar recuperar o ascendente perdido.

    A mim só surpreende que os mesmos que afirmam isto lamentem que os ateus não gostem de ser chamados subversivos e se atrevam a criticar os mimos com que a ICAR os distingue: torturadores, nazis, subversivos, imorais, etc., etc.

    Aliás, como previa este tipo de comentários ( os crentes são muito previsíveis) ilustrei o post com esta imagem :)
  • Sem imagem de perfil

    Marco 14.10.2010

    A começar pelo fim, a imagem é pouco ilustrativa da nossa realidade portuguesa, e até da ICAR. Aplica-se muito mais, e com toda a razão, diga-se de passagem, ao ambiente vivido entre os ateístas  (e homossexuais, feministas, movimentos pró-aborto, etc., etc.) e as várias igrejas protestantes, tanto nos EUA como no Reino Unido.

    Por cá, e como povo de brandos costumes que somos, a ICAR não critica: alerta, admoesta... ;) Diz-se que o catequista X até é homossexual, e o pároco faz um daqueles seus "sigh", encolhe os ombros, "até é bom catequista, e tal". Conheço casos destes pessoalmente. É uma espécie de "don't ask, don't tell" da Igreja.

    Depende do pároco, da paróquia, como é lógico;  padres mais novos, em cidades, como deve compreender.

    Voltando à vaca fria, o que me leva a responder aos seus posts (tentei procurar um verbo, mas é difícil - não é que me incomode, não me faz fastio, mas é assim um sentimento como se a cadeira onde acabei de me sentar estivesse quente - no Verão), é que é (quase) sempre para o mesmo lado, quando a maior parte daquilo que fala é transversal a todas as religiões; que os argumentos que apresenta, tantas vezes válidos, fiquem submersos numa certa dose de acidez, que é escusada, e que leva a que lhe respondam na mesma moeda (sem necessidade, também - se ficam assim tão incomodados, façam alguma coisa por mudar as realidades, ou passem adiante).
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