Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

Religião e argumentação - A Relíquia

Com raras e significativas excepções, quando escrevo algo que tem a ver com religião, em particular com catolicismo, chovem os comentários. É um tema popular, o que seria bom se fosse indicativo de que as pessoas estão dispostas a discutir abertamente a religião. Na realidade, é quase sempre o contrário, isto é, as pessoas comentam os posts porque não querem que se discuta ou critique a (sua) religião. Este diagrama ajuda a perceber porquê mas o parágrafo final deste post da Joana, que remete para os «mistérios» da fé, no caso a Trindade, explica a relutância desses comentadores.

 

Há cerca de um mês, um inquérito do Pew Forum fez furor nos Estados Unidos. A causa da comoção foi a revelação de que ateus e agnósticos sabiam mais sobre religião que os crentes, em particular que os católicos, os que menos sabem no referido estudo. Mesmo em relação à Bíblia, ateus e agnósticos responderam correctamente a mais perguntas que os católicos (em especial que os católicos hispânicos, manifestamente ignorantes sobre a sua religião).

 

Muitos ateus são ateus exactamente porque não aceitam verdades impostas como argumentos de autoridade ou tradição e investigam-nas cuidadosamente acabando por saber mais sobre religião que a maioria dos que aceitam por fé e sem questionar os ditos cujos «mistérios». Claro que não vejo nenhum mal em alguém acreditar no seu deus da mesma forma que usa um telemóvel: não faz a mínima ideia como funciona, quais os fundamentos da física, da electrónica, etc. em que assenta o seu funcionamento e não sabe se existirá uma melhor forma de falar à distância. Mas o que maça é não o reconhecerem, isto é, não reconhecerem que acreditam nas verdades da sua religião unicamente porque tiveram experiências emocionais que os levaram a isso, porque foram educados nessa religião e nunca se interrogaram sobre as suas crenças ou porque escolheram arbitrariamente aceitar a autoridade de uma dada narrativa ou igreja em vez de outra. Maça sobremaneira usarem como premissas de argumentação as conclusões a que querem chegar pseudo-argumentando em jeito de remate de discussão que alguém é ateu porque teve um «trauma», é «crente» na inexistência de deuses ou é um positivista lógico ou cientifista. Esta caixa de comentários é um exemplo acabado do que quero dizer.

 

Em conclusão, maça que por cá a esmagadora maioria dos crentes considerem que as argumentações sobre religião deveriam emular as «tertúlias» de D. Maria do Patrocínio das Neves, a titi de A Relíquia, e carpam estridentemente como ódio figadal toda e qualquer tentativa de crítica ou discussão da (sua) religião. Embora não concorde com as suas conclusões, desde Agostinho até aos nossos dias existem filósofos católicos, inclusive o próprio Bento XVI nas obras e discursos em que não cede à tentação fácil do populismo e anti-intelectualismo, que pretendem (de)mo(n)strar a sua religião como um sistema justificável e sofisticado de crenças verdadeiras sem nada a ver com a crendice supersticiosa e acéfala de quem se recusa sequer a saber o que são os ditos «mistérios» da sua fé (como a transubstanciação eucarística que quase metade dos católicos norte-americanos não sabiam ser doutrina da sua religião).

 

Assim, numa tentativa que espero não venha a ser vã, vou periodicamente lançar temas de discussão que afastem o nosso espaço de debate das canjas de galinha da Vicência. Porque, mais não seja, penso que concordem ser negativa a resposta a uma interrogação que Carl Sagan lança no seu livro póstumo, «As Variedades da Experiência Científica. Uma visão pessoal da procura de Deus»:

 

«Se existe um Deus criador, será que Ele ou Ela ou Isso ou seja qual for o pronome apropriado preferiria uma espécie de cepo embrutecido que o adorasse sem nada compreender?»

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media