Religião e argumentação - A Relíquia
Com raras e significativas excepções, quando escrevo algo que tem a ver com religião, em particular com catolicismo, chovem os comentários. É um tema popular, o que seria bom se fosse indicativo de que as pessoas estão dispostas a discutir abertamente a religião. Na realidade, é quase sempre o contrário, isto é, as pessoas comentam os posts porque não querem que se discuta ou critique a (sua) religião. Este diagrama ajuda a perceber porquê mas o parágrafo final deste post da Joana, que remete para os «mistérios» da fé, no caso a Trindade, explica a relutância desses comentadores.
Há cerca de um mês, um inquérito do Pew Forum fez furor nos Estados Unidos. A causa da comoção foi a revelação de que ateus e agnósticos sabiam mais sobre religião que os crentes, em particular que os católicos, os que menos sabem no referido estudo. Mesmo em relação à Bíblia, ateus e agnósticos responderam correctamente a mais perguntas que os católicos (em especial que os católicos hispânicos, manifestamente ignorantes sobre a sua religião).
Muitos ateus são ateus exactamente porque não aceitam verdades impostas como argumentos de autoridade ou tradição e investigam-nas cuidadosamente acabando por saber mais sobre religião que a maioria dos que aceitam por fé e sem questionar os ditos cujos «mistérios». Claro que não vejo nenhum mal em alguém acreditar no seu deus da mesma forma que usa um telemóvel: não faz a mínima ideia como funciona, quais os fundamentos da física, da electrónica, etc. em que assenta o seu funcionamento e não sabe se existirá uma melhor forma de falar à distância. Mas o que maça é não o reconhecerem, isto é, não reconhecerem que acreditam nas verdades da sua religião unicamente porque tiveram experiências emocionais que os levaram a isso, porque foram educados nessa religião e nunca se interrogaram sobre as suas crenças ou porque escolheram arbitrariamente aceitar a autoridade de uma dada narrativa ou igreja em vez de outra. Maça sobremaneira usarem como premissas de argumentação as conclusões a que querem chegar pseudo-argumentando em jeito de remate de discussão que alguém é ateu porque teve um «trauma», é «crente» na inexistência de deuses ou é um positivista lógico ou cientifista. Esta caixa de comentários é um exemplo acabado do que quero dizer.
Em conclusão, maça que por cá a esmagadora maioria dos crentes considerem que as argumentações sobre religião deveriam emular as «tertúlias» de D. Maria do Patrocínio das Neves, a titi de A Relíquia, e carpam estridentemente como ódio figadal toda e qualquer tentativa de crítica ou discussão da (sua) religião. Embora não concorde com as suas conclusões, desde Agostinho até aos nossos dias existem filósofos católicos, inclusive o próprio Bento XVI nas obras e discursos em que não cede à tentação fácil do populismo e anti-intelectualismo, que pretendem (de)mo(n)strar a sua religião como um sistema justificável e sofisticado de crenças verdadeiras sem nada a ver com a crendice supersticiosa e acéfala de quem se recusa sequer a saber o que são os ditos «mistérios» da sua fé (como a transubstanciação eucarística que quase metade dos católicos norte-americanos não sabiam ser doutrina da sua religião).
Assim, numa tentativa que espero não venha a ser vã, vou periodicamente lançar temas de discussão que afastem o nosso espaço de debate das canjas de galinha da Vicência. Porque, mais não seja, penso que concordem ser negativa a resposta a uma interrogação que Carl Sagan lança no seu livro póstumo, «As Variedades da Experiência Científica. Uma visão pessoal da procura de Deus»:
«Se existe um Deus criador, será que Ele ou Ela ou Isso ou seja qual for o pronome apropriado preferiria uma espécie de cepo embrutecido que o adorasse sem nada compreender?»