Não vale tudo
De acordo com o último Eurobarómetro sobre Saúde Mental os portugueses são os maiores consumidores de antidepressivos (AD’s) da União Europeia - um em cada sete (14,2%) dos portugueses da amostra tomou-os nos 12 meses prévios. Conclusão tirada pela ministra da Saúde: os médicos portugueses não fazem uma prescrição racional destas substâncias e, pior ainda, andam para aí a prescrever medicamentos caros que não são primeira linha na terapêutica das doenças depressivas (e ansiosas).
Que a generalidade dos antidepressivos - e mais ainda dos antipsicóticos - são muito dispendiosos estamos de acordo, já que as moléculas mais "recentes" (julgo que era a elas que Ana Jorge se referia quando falou em "última geração") não sejam para uso de primeira linha está errado e é falso.
Há erros de prescrição? Há, com toda a certeza, daí até serem a norma vai uma distância. enorme. Os erros de prescrição contribuem para o desperdício? Sim, mas apontá-los como prática corrente e como responsáveis maiores desse desperdício financeiro é grave, leviano e desonesto.
Talvez quem tutela a Saúde se tenha esquecido que o primeiro inquérito epidemiológico nacional, integrado num estudo multinacional, concluiu, há poucos meses atrás, que Portugal é o país da Europa com maior prevalência de doenças mentais, nomeadamente depressivas e ansiosas - se a memória não me falha 23% dos inquiridos sofreram de uma dessas patologias nos 12 meses anteriores.
Como escreveu um destes dias um médico interno de psiquiatria, "as declarações da ministra demonstram que (1) não é minimamente conhecedora das guidelines de tratamento da maioria das doenças mentais; (2) ignora que os portugueses apresentam prevalências de doenças mentais significativamente elevadas no contexto europeu; (3) quer reduzir a factura do SNS à custa dos psicofármacos mas em vez de assumir esse ónus pretende imputar aos médicos o facto de estes estarem a prescrever mal quando se limitam a evidência científica e aos consensos internacionais.".
Vale a pena explicar que "novos antidepressivos" é um epíteto com mais de duas décadas, altura em que 'nasceu' uma nova classe de AD’s, os inibidores selectivos da recaptação da serotonina. Este novo grupo veio acrescentar aos ‘dinossáurios’ AD’s tricíclicos, mais que uma maior e mais rápida eficácia terapêutica, uma maior comodidade na toma e um melhor perfil de efeitos secundários, com consequente aumento da adesão terapêutica em regime ambulatório, bem como um menor risco em caso de sobredosagem.
Caminho parecido foi seguido pelos "novos antipsicóticos", também conhecidos como "antipsicóticos atípicos", que vieram sobrepor-se aos neurolépticos e trazer evidentes ganhos na qualidade de vida e no funcionamento geral dos doentes psicóticos, nomeadamente dos esquizofrénicos.
Percebo a situação difícil em que o país se encontra mas não aceito que se arranjem bodes expiatórios nem que se deixe de ter atenção a situações limite que implicam com um grupo de cidadãos particularmente desprotegidos. A maioria dos doentes psicóticos dependem de terceiros e não têm capacidade reivindicativa. As estruturas secundárias de suporte são escassas, mesmo contando já com os anunciados 15 projectos piloto na área das residências protegidas e do apoio domiciliário a este tipo de doentes, e um controlo minimamente aceitável da situação clínica passa obrigatoriamente pelo cumprimento e manutenção da terapêutica instituída, já de si difícil pelas características da própria patologia. A precariedade económica e social de muitos destes doentes é uma realidade à qual não me parece justo nem digno fechar os olhos. A redefinição das percentagens de comparticipação dos medicamentos nos diferentes escalões e a revogação da portaria 1474/2004 vêm agravar esta situação.
Referi o que considero ser o grupo de doentes mais preocupante, digamos que o caso extremo no conjunto das doenças mentais. Julgo, contudo, que se poderão estar a correr riscos graves com outras entidades clínicas de evolução crónica, com repercussões prognósticas importantes e com implicações económicas que acabarão por determinar um aumento real dos custos, directos e indirectos, nomeadamente pelo incremento das necessidades de internamentos e da abstenção laboral.
Está muita coisa em causa, de facto não vale tudo senhora ministra.
(Publicado hoje no Público)

