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Crónica de uma fraude anunciada

Ontem, num colóquio organizado pela Comissão de Orçamento e Finanças, dedicada ao tema Dívida Pública, tivemos a honra de escutar vários sábios (magos, feiticeiros, alquimistas, deuses) da economia, dos quais destaco a estrela da companhia: Keneth Rogoff.

 

Em viagem de promoção do seu livro This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly, este ilustríssimo professor de economia disse-nos que, contrariamente ao que a populaça julga, as crises financeiras são normalíssimas. A sua ocorrência não nos ensina nada, pois as crises são como as tempestades: limitam-se a acontecer.

 

Rogoff usa a história para negar a história, e diz coisas extraordinárias, como: "olhem para a Espanha [acho que era a Espanha], teve imensas crises financeiras no passado, e ainda cá está". Fantástico. Para Rogoff, o mundo é para ser contemplado (esteticamente?), não transformado. A certa altura, saiu-se com esta pérola: 'misteriosamente, quase não houve crises financeiras entre o final da II Guerra e o final dos anos 70'. Misteriosamente?!. Na sessão de debate, perguntei se faria sentido dizer 'misteriosamente' ou se, pelo contrário, durante esse período, 'things really were different'. A resposta não tardou: a diferença foi o forte crescimento da economia mundial verificado nesse período. Ou seja, nada se passou no mundo da finança que não se tivesse passado sempre. Para ser perceber como a resposta de Rogoff não tem pés nem cabeça, basta pensar no que aconteceu recentemente a países como os EUA, Espanha e Irlanda: todos tiveram fortíssimos crescimentos económicos assentes em bolhas especulativas. A liberalização dos mercados financeiros foi iniciada no final dos anos 70 e o número de crises financeiras, como é óbvio, aumentou exponencialmente desde então. Misterioso, isso sim, é Rogoff achar que nada disto é óbvio.

 

Se Rogoff acha que as crises financeiras não devem ser causa para alarme, o mesmo já não sucede com a subida da dívida pública. A dívida pública, essa sim, é alarmante, garante-nos o professor. Rogoff explica porquê em dois artigos (Growth in a Time of Debt e Debt and Growth Revisited), onde se conclui: quando a dívida pública é superior a 90%, a mediana da taxa de crescimento do PIB cai 1%. Informativos ou não, estes artigos limitam-se a estabelecer uma correlação estatística, nunca uma relação causal. Mas Rogoff discorda: os artigos mostram, provam que a dívida é perigosa para o crescimento. Para se perceber em que medida esta afirmação de Rogoff não decorre de qualquer análise estatística da realidade, basta lembrar que, desde 2008, a maioria dos dados, embora reforcem a correlação entre dívida e diminuição do crescimento do PIB, revelam uma causalidade que é exactamente a inversa daquela que Rogoff pretende afirmar. A causalidade que Rogoff nos garante 'ver' nos dados, não é empírica, é teórica, e decorre exclusivamente da sua crença inabalável na Equivalência Ricardiana.

 

Por outro lado, e independentemente daquilo que Rogoff possa achar que provou sobre a relação entre dívida pública e crescimento, dizer que a dívida pública pode ser perigosa é uma mera advertência, que corresponde a um estado emocional - e nada nos diz em relação ao mérito de opções concretas de política económica. Não estou a dizer que a dívida não é um problema; limito-me a constatar que, preocupados ou não, todas as decisões sobre o que devemos fazer dependem exclusivamente dos méritos de projectos particulares. Por exemplo, imaginem que se chega à conclusão que avançar, hoje, com o TGV é uma boa decisão (o facto de eu achar que sim é irrelevante para o meu argumento), em que medida é que o nível do stock da dívida deve influenciar a minha tomada de decisão? Se um projecto for bom, isto é, se considerarmos que os ganhos são superiores aos custos, esse projecto aumenta a probabilidade de se reduzir a dívida no futuro e deve sempre avançar. Quem não percebe isto, das duas uma: ou não percebe patavina de economia ou finge que não percebe e está a instrumentalizar o medo e desconhecimento das pessoas em relação a estas matérias.

 

No final do debate de ontem, Paulo Mota Pinto (deputado do PSD, presidente da COF e organizador do colóquio) Braga de Macedo, Ricardo Reis, Teodora Cardoso e Silva Lopes concluiram que era necessário agendar outra conferência, desta vez para falar sobre o tema do crescimento económico, esse, sim, fundamental. Sem que se tenham apercebido do significado último do que tinham acabado de dizer, o painel de comentadores acabou, de forma não intencional, por deitar para o lixo todo o trabalho de Rogoff. No fundo, estes economistas acabaram por confirmar a minha posição: tudo o que possa ser dito sobre a dívida - que é má, que é perigosa, que é boa - é absolutamente irrelevante para debates sobre o crescimento económico. Rogoff foi o único que não se manifestou sobre a necessidade de uma nova conferência. É fácil perceber porquê.

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