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O nosso Andrew Mellon 2

Para além de defender entusiasticamente políticas pró-cíclicas, o nosso economista estrela de Harvard tem outras ideias brilhantes para salvar a economia portuguesa. No colóquio da Comissão de Orçamento e Finanças sobre dívida pública, Ricardo Reis avançou com a seguinte proposta: reduzir a progressividade do nosso sistema fiscal para aumentar a poupança nacional. Para além de uma insensibilidade social que me abstenho de comentar, esta proposta revela sobretudo as limitações intelectuais da teoria económica em que Ricardo Reis se especializou. No final do debate, fui ter com Ricardo Reis e disse-lhe que não era possível afirmar que a redução da progressividade fiscal aumentasse a poupança total. Embora seja verdade que, tudo o resto constante, aumentar o rendimento disponível daqueles que mais poupam tem um efeito marginal positivo na poupança, não é necessariamente verdade que o efeito final (isto é, depois de considerado efeito dinâmico em todas as variáveis que compõem o PIB português) se traduza num aumento da poupança total da economia nacional. A razão é simples: a economia de um país não se pode analisar recorrendo à metodologia ceteris paribus (tudo o resto constante) que economistas da estirpe de Ricardo Reis insistem em (ab)usar nas suas divagações teóricas. Admito que dê jeito para publicar sofisticados papers académicos, mas não dá para muito mais.

 

Mais do que uma função da propensão marginal à poupança (a percentagem do rendimento que alguém decide não consumir), a poupança total de um país é uma função do PIB. Mas Ricardo Reis não vê qualquer problema nisto, pois ele é daqueles economistas para quem, como o equilíbro é um presuposto teórico, a poupança tem sempre de ser igual a investimento. Ou seja: qualquer acto de poupança, por definição, não deprime o produto; limita-se a mudar o peso relativo do consumo e do investimento. Nas condições actuais, é muito provável que o efeito seja o contrário do desejado: aumentar marginalmente a poupança pode levar a uma redução tal do consumo que a poupança final, por causa da redução do PIB, acaba por ser inferior à inicial. A este efeito Keynes chamou paradox of thrift. Ante a minha crítica, Ricardo Reis não argumentou, limitou-se a dizer: sim, é verdade que há outras teorias. Mas não percebeu que eu não estava a tentar afirmar, em abstracto, uma teoria alternativa à dele; eu limitei-me a tentar perceber se é ou não provável que o seu modelo teórico possa não ter aplicação nas condições actuais. No mundo teórico de Ricardo Reis a minha dúvida não tem razão de ser, pois condições actuais é coisa que não existe. Uma teoria ou é verdadeira ou falsa. Ontem, hoje, sempre.

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