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Respondendo a Ricardo Reis

Caro Ricardo Reis,

 

Obrigado pela sua resposta. Vou tentar responder-lhe passo a passo.

 

1- Diz que o efeito expansionista de resolução dos problemas fiscais é 'um efeito teórico bem estudado e inspeccionado empiricamente'. Desculpe, mas não é verdade: os casos de austeridade expansionista referidos nesses estudos dependem de um conjunto de pressupostos que não se verificam no contexto actual. Como explicou Martin Wolf no Financial Times, o efeito recessivo de uma redução do défice só não é dominante se for adequadamente compensado por efeitos contrários nos balanços externo e privados, o que, nas circunstâncias actuais, parece altamente improvável (para não dizer impossível). Os resultados de uma ‘austeridade expansionista’ são menos prováveis: quando esta é feita por vários países simultaneamente (o que é o caso); quando o sector privado não está altamente endividado (o que não é o caso); quando a procura externa é robusta (o que não só não é o caso, como, com a política de austeridade generalizada onde todos tentam exportar, tenderá a piorar ainda mais); e quando estamos a falar de países com taxas de câmbio flexíveis (não é o caso nos países da zona euro). Wolf conclui: ‘a ideia de que a redução do défice é expansionista é certamente heróica’. E uma posição heróica, acrescento eu, decorre certamente de tudo menos de um ‘efeito teórico bem estudado e inspeccionado empiricamente’;

 

2- Em relação à Equivalência Ricardiana (ER), e ao contrário do que afirma Ricardo Reis, eu nunca disse que a ER determinava que 'cortes de impostos eram expansionistas'. Escrevi algo diferente: quando defendemos que a austeridade pode ser expansionista, então 'entramos no maravilhoso mundo da equivalência ricardiana, onde se afirma que  os privados estão cheios de carcanhol e só não o gastam porque têm medo uma vaga de impostos futuros. Se esse medo desaparecer - isto é, se o Estado for credível na sua promessa de conter as necessidades de financiamento futuro -, a confiança regressa em força e a economia floresce'. Se estivesse de boa-fé, não seria difícil de perceber o meu ponto. Já agora, a Equivalência Ricardiana tem sido usada para, via aumento da incerteza e degradação da confiança dos agentes, defender que aumento de défices podem ter efeitos negativos no produto. No artigo Growth in Time of Debt, Kenneth Rogoff escreve "The simplest connection between public debt and growth is suggested by Robert Barro (1979). Assuming taxes ultimately need to be raised to achieve debt sustainability, the distortionary impact imply is likely to lower potential output". É certo que isto não é o mesmo que a Equivalência Ricardiana original, mas é inspirado nela. Tendo em conta tudo o que disse no colóquio sobre dívida, assumo que concorda com Rogoff e Barro e, portanto, considera que a citação acima nos ajuda a determinar qual a política económica mais adequada para o momento em que vivemos;

 

3- "Gostava de ter criado esta teoria mas, infelizmente, ela é ensinada em aulas de introdução à macroeconomia pelo mundo fora: é material de manuais de ensino, nenhuma originalidade minha", responde Ricardo Reis à minha acusação de que 'a causalidade que Ricardo Reis afirma - que os défices são a causa da retracção do sector privado - só existe na sua cabeça'. Bem, o facto de ser ensinada em todo o mundo não é propriamente um argumento em favor do que quer que seja; antes a confirmação de que a ortodoxia económica ensinada em grande parte das universidades aparenta não ter instrumentos adequados para compreender o mundo actual. É que, mais importante do que afirmar uma determinada teoria que consideramos correcta, importa que sejamos capazes de formular uma interpretação adequada da realidade. E partir do pressuposto que os défices são a causa e não a consequência da crise que vivemos não me parece aceitável como interpretação do problema. O Ricardo acha mesmo que faz sentido dizer que, hoje, os défices são a causa da retracção do sector privado? Não será mais: os défices, hoje, são o resultado da retracção da economia e do sector privado e correspondem a uma política (mundialmente concertada) para evitar que os eventos de 2008 nos levassem a uma nova Grande Depressão? Mais, e mudando ligeiramente de tema:  acha normal que a mesma União Europeia que disse ser absolutamente necessário ignorar os limites do pacto de estabilidade para fazer frente a uma emergência venha depois dizer que se recusa a garantir os meios necessários para sustentar essa mesma decisão, deixando certos Estados à mercê dos mercados financeiros? Permita-me uma sugestão: que tal deixar o conforto de teoria abstractas, a-históricas e anti-empíricas e procurar interpretar o mundo tal como ele se nos vai sendo apresentado?;

 

4-Tem razão, eu não conheço toda a sua teoria económica - nem preciso. Como conheço um artigo onde disse que 'o efeito na economia real dos problemas nos empréstimos subprime deve ser pequeno. Estamos a falar só de 1% dos devedores no mercado da habitação americano em incumprimento', faço aquilo que a maioria das pessoas que não têm tempo nem pachorra para ler tudo o que se escreve no mundo faz: extrapolo. Se juntarmos a este artigo a sua ideia de que estamos perante (apenas mais uma) crise das finanças públicas - e não aquilo que devia ser óbvio para todos: que vivemos uma crise das finanças públicas que é o resultado da maior crise financeira desde a Grande Depressão -  e aquilo que referi em 1), a minha conclusão de que a teoria económica a que o Ricardo pertence não tem instrumentos para entender a crise actual não me parece abusiva;

 

5- A tal abordagem ceteris paribus que o Ricardo diz permitir avaliar 'efeitos individuais, um de cada vez, sem negar que possam estar em acção vários factores, e depois uso os dados para os combinar a todos, dando a cada um o peso devido' tem o óbvio problema de separar fenómenos que não podem ser separados, sob pena de distorcer e violentar o objecto que estamos a tentar compreender. O 'método científico' de simplificação e análise é importante para muitas coisas, mas está longe, muito longe de ser adequado para compreender fenómenos sociais e históricos. A análise ceteris paribus que o Ricardo tanto preza não é apenas um método; é uma forma de pré-determinar aquilo que é nosso objecto de estudo, distorcendo-o aprioristicamente. Eu sei que economia que o Ricardo representa não tem por tradição participar neste tipo de debates metodológicos. Mas esse é um problema do Ricardo e da economia, não meu;

 

6-Vai-me desculpar, mas o estudo do FMI não foi 'discutido em frente de todos'. O que se fez foi escolher, de forma selectiva, afirmações avulsas que reforçavam a tese defendida por alguns dos oradores presentes - a de que vivemos apenas um problema de finanças públicas e que a melhor forma sair disto passa por reduzir o peso do Estado. Aliás, na fase de debate eu critiquei o professor Braga de Macedo por 'omitir' um dado fundamental: nem todos os cortes na despesa têm o mesmo efeito. Braga de Macedo reconheceu o 'lapso' e lá acrescentou que, por exemplo, cortes no investimento público tinham um efeito recessivo maior do que o corte noutro tipo de despesas. Tendo em conta o debate político que se tem travado em Portugal, espero que concorde que não estamos perante um lapso menor e muito menos inocente. Mas a parte mais relevante é, como referi em 1), quando tentamos entender a situação actual, os estudos sobre os efeitos de políticas de austeridade nos últimos 30 ou 40 anos têm uma utilidade muito duvidosa;

 

6- Tem razão quando diz que não defendeu a redução o aumento da regressividade dos impostos - e peço-lhe desculpa por isso. No entanto, o que escrevi continua válido. Se, como referi, nas circunstâncias actuais não é líquido que uma redução da progressividade não aumente a poupança, mutatis mutandis, o mesmo vale para a ideia de que aumentar a progressividade do sistema fiscal pode ter efeitos negativos sobre a poupança. O meu argumento mantém-se: a poupança depende sobretudo do PIB, não da propensão marginal à poupança;

 

7- Em relação ao trabalho do professor Rogoff, acho extraordinário que um académico recorra a argumentos de autoridade para me criticar. Qual a relevância de estarmos perante um o 'um best-seller internacional, elogiado por académicos, jornalistas e políticos'? Limitei-me a constatar uma coisa que me parece óbvia: quem recorre a técnicas estatísticas que neutralizam as circunstâncias singulares de determinados dados para concluir o que quer que seja está, por definição, a usar a história para negar a história. Se o Ricardo não percebe a diferença entre história (uma narrativa singular) e a utilização de indicadores históricos para chegar a uma 'lei' geral, o problema é seu (e de Rogoff ), não meu. O Ricardo nega que Rogoff falou das crises financeiras em tom blasé, como se estas fossem 'naturais'? Nega que desvalorizou o facto de o número de crises quase ter desaparecido entre o final da segunda guerra e meados dos anos 70? Nega que ele não retirou daí qualquer lição, preferindo antes desvalorizar a aparente singularidade dessa ‘anormalidade’ estatística? Se concorda com Rogoff, então lamento informá-lo, mas não então não entende em que medida (e de que modo) o homem e o saber pertencem à história. Isto não é nenhuma novidade. Afinal, o Ricardo pratica uma forma de conhecimento cuja metodologia se inspira nas ciências naturais a-históricas. E o problema, caro Ricardo, está todo aí.

 

ps: Eu nunca disse que Rogoff 'não percebe patavina de economia'. Sugiro que releia o meu post e, depois, corrija o seu.

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