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Da intolerância religiosa e de lixos tóxicos

Tim Boudreau, professor de jornalismo da Central Michigan University, todos os anos convida um orador conhecido pelas suas opiniões ofensivas para ilustrar aos seus alunos de Media Law que a Primeira Emenda protege a liberdade de expressão mesmo ao mais imbecil fanático. Este ano, a convidada foi Shirley Phelps-Roper, filha do fundador da Westboro Baptist Church que, por exemplo, organizou uma manifestação no funeral de Heath Ledger em protesto religioso pela sua participação no filme Brokeback Mountain - porque «Deus odeia o sórdido balde de lodo peganhento temperado com vómito conhecido como  Brokeback Mountain e todas as pessoas que estão envolvidas nesse filme».

 

Os Phelpses foram ao campus esta semana. Uma estudante resumiu bem a palestra e a impressão que lhe causou. Kara Eastling, que considera os membros da igreja «um bom exemplo de intolerância», afirmou «Honestly, it's hard to put into words. I think it was a good learning experience. It actually makes me feel better about myself. I'm glad I'm not like that.»

 

Esta foi uma excelente iniciativa de Bordreau que cumpriu muito mais que os objectivos de mostrar que até fanáticos imbecis devem ter o direito a exprimir as tolices mais bárbaras. Com este exemplo tão vivo os estudantes não esquecerão nunca a lição mas não esquecerão também o que de facto pretendem os fundamentalistas de qualquer credo. Por isso, e contrariamente ao que ululam aqueles, fundamentalistas, católicos que povoam as nossas caixas de comentários quando os seus comentários não são aprovados de imediato, não me passa sequer pela cabeça «censurar» ou usar «lápis azul» nas tonterias que debitam. De facto, não há nada mais didáctico que deixá-los falar para que todos percebam o que realmente lhes vai na cabeça.

 

E não há assunto mais educativo que o ateísmo, como confirmou recentemente um católico «moderado», um dos grandes nomes da teologia da libertação. Frei Betto respondeu aos que protestaram uma sua opinação em que afirmava que os crimes cometidos pela ditadura brasileira foram motivados pelo ateísmo militante, explicando que são perversos militantes fundamentalistas ateus todos aqueles que negam Deus. Mais concretamente, afirmou «Lamento que os ateus não tenham entendido minha posição contrária ao ateísmo militante, ou seja, pode-se ser ateu, mas não negar o Deus no qual cremos ou profanar o templo vivo de Deus que é o ser humano».

 

Ou seja, frei Betto apenas aceita ateus que não neguem Deus, todos os outros são fundamentalistas e necessariamente torturadores abjectos. E, implicitamente, devem ser repudiados ou mesmo perseguidos, como afirmou recentemente o ministro italiano dos «strange affairs». Aliás, os comentários a esse post são especialmente educativos pela defesa acérrima da perseguição de ateus fundamentalistas, categoria em que cabem todos os que se atrevem a afirmar-se ateus.

 

Um dos beatos comentadores não teve pejo em aplaudir «Frattini e a sua coragem em dar um sinal aos crentes que chegou a hora de contrariar as perseguições que ALGUNS ateus [identificados como militantes perversos] fazem contra as normas de vida que são da opção de cada um». Quem são esses militantes perversos, ou antes «lixo tóxico» foi explicitado nos comentários a outro post. Os únicos ateus toleráveis são aqueles que sofrem pela sua falta de fé e «calam sua angústia e militam em privado e sem ondas, levando seus filhos a ser educados em escolas cristãs e também católicas (os que podem), para que a proposta cristã seja verdadeiramente assumida independentemente dos dogmas». Ou seja, só são verdadeiros ateus para os crentes aqueles «que lêem a bíblia e batem com a mão no peito»

 

É razão para perguntar por que cargas de água tanto ofende os crentes a mera existência de ateus que se atrevem «a exprimiram-se ateus» e que, horror dos horrores, se arroguem a defender «o direito de ser ateu e de exprimir a negação de Deus». Ou por que razão, em assomos tóxicos de presunção e água benta, se considera um direito, ou antes, um dever inalienável, dos cristãos combaterem o ateísmo. E, principalmente, por que razão acusam de perseguição quem critique a cruzada...

4 comentários

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    Palmira F. Silva 06.11.2010

    sigh...
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    J. Paulo 06.11.2010

    Pelo contrário, o Braga percebeu as tristes figuras que os católicos fazem nestas caixas e não quer espantar a clientela. Mais uns posts destes e até o faz sem mais do mesmo.
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    Dmitry.G 06.11.2010


    E não é que tem sentido!?  Pensando bem, faz-se mister admitir que a linha unidimensional de raciocínio do Miguel está fadada ao sucesso, se considerarmos a cruzada por ele sugerida.  E que belo comercial, embora não muito original, diga-se de passagem. É muito mais simples vender a idéia do desprezo aos posts, que poderia suscitar uma alvissareira censura, mascarada por uma espécie de contrição calcada sob a forma de um protesto silencioso, do que desdobrar-se à tarefa “inglória” de contestar a razão, cada vez mais incontestável, com que somos aqui habitualmente “agraciados”.  Não foi por outro motivo que mencionei o fato de que, na tosca e desesperada tentativa de argumentação desta horda de ordinários que faz vista grossa ao “óbvio ululante”, a emenda sai, invariavelmente, bem pior do que o soneto, revelando-os seres patéticos e provocando-nos a chacota, na imensa maioria das vezes.  E é aí, exatamente, que a Palmira não perdoa, incomodando-os a tal ponto que, pelo andar da carruagem, não demora a surgir alguma outra idéia mais eficaz.  Até mesmo porque, a julgar pelo farto material produzido pelo desespero obscurantista que esta intrépida articulista não se furta a pinçar, tanto “aqui” quanto “acolá”, a tarefa de denunciar absurdos, que estão se tornando cotidiana e universalmente quase hilários, vai se tornando cada vez mais simples para alguém como ela, que se norteia pelo bom senso, indignando-se. 


     

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