Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

Jornalismo Gonzo ou de como a ficção se tornou muitas vezes o melhor facto

Thomas Nagel, um dos mais influentes filósofos contemporâneos, galardoado em 2008 pela Academia Sueca das Ciências com o Prémio Rolf Schock de Lógica e Filosofia, escreveu um livrinho, Visão a Partir de Lugar Nenhum (The view from nowhere no original), em que a frase que deu título ao livro descreve uma epistemologia impossível, que conseguimos conhecer o mundo sem ser como parte dele, como observadores.

 

Em jornalismo, o termo «the view from nowhere» assume contornos, não metafísicos mas de imparcialidade, que muitos, incluindo Jay Rosen, professor de jornalismo na NYU, consideram idiotas. Mais concretamente Rosen afirma:

Three things. In pro journalism, American style, the View from Nowhere is a bid for trust that advertises the viewlessness of the news producer. Frequently it places the journalist between polarized extremes, and calls that neither-nor position “impartial.” Second, it’s a means of defense against a style of criticism that is fully anticipated: charges of bias originating in partisan politics and the two-party system. Third: it’s an attempt to secure a kind of universal legitimacy that is implicitly denied to those who stake out positions or betray a point of view. American journalists have almost a lust for the View from Nowhere because they think it has more authority than any other possible stance.

Rosen pensa que os jornalistas deveriam aceitar como virtude o que normalmente é criticado como uma violação da imparcialidade jornalística ou seja, que a missão jornalística deveria ser a de informar os factos com uma visão de um lugar concreto. Rosen opõe-se a falsas controvérsias, a procura de uma narrativa dramática onde nada existe em nome de uma pretensa imparcialidade.  Ou seja, para Rosen o ideal deveria ser a objectividade e não a imparcialidade jornalística. E essa objectividade deveria ser «trying to ground truth claims in verifiable facts» e em assumir que se leêm esses factos de uma determinada perspectiva - e não enganar o leitor pretendendo que não se tem uma opinião na matéria que se publica.

 

Concordo com Rosen de que seria preferível que os jornalistas assumissem que não são imparciais sobre um tema e que quando sobre ele escrevem a narrativa é colorida pelas suas opiniões pessoais. Mas um jornalista não pode, ou pelo menos não deveria, confundir essa narrativa com os seus próprios desejos sobre o tema ou com os seus bias em relação aos protagonistas. Esse foi o erro do jornalismo Gonzo, um «estilo» curiosamente baptizado por um jornalista luso-americano, Bill Cardoso. Do truísmo que ninguém pode olhar o mundo sem ser como parte integrante desse mundo, os gonzos concluíram que nem sequer valia a pena tentar ser objectivo muito menos imparcial. E em vez de procurar averiguar factos para contar uma história, o jornalista gonzo e as suas opiniões tornaram-se A história. Ou antes, tal como Hunter S. Thompson, o pai da coisa, basearam-se na máxima de William Faulkner de que «a ficção é muitas vezes o melhor facto» e devotam-se a ficcionar a realidade conformando-a aos seus desejos. E, pelo menos em Portugal, nos últimos tempos o jornalismo gonzo, a par do jornalismo de sarjeta, parece ter-se tornado o ideal jornalístico. Paradoxalmente, os seus praticantes, nem imparciais nem objectivos, debitam prosa assente em ficção ou em pseudo-factos assumindo um manto de superheróis incansáveis na defesa do interesse público.

3 comentários

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media