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Totalitarismos e vitimização: a invenção da cristofobia

Na Geneologia da Moral Friedrich Nietzsche referiu-se à necessidade cristã de mártires, na sua maioria inventados, de que alimentam a fé e sem os quais fenecem escrevendo que «o cristianismo (ou a moralidade dos escravos) necessita um ambiente hostil para funcionar, a sua acção é fundamentalmente reacção»

 

Em particular a ICAR* precisa de agitar incessantemente a bandeira de supostas perseguições a cristãos, pois, como afirmou em 2004 Edward Novak, secretário da Congregação para as Causas dos Santos, «De um mártir» nascem «centenas, milhares» de novos fiéis. Isto é, para angariar clientela e inflamar os fundamentalistas, é necessário inventar perseguições e glorificar os «mártires» que se «sacrificam» em nome de uma qualquer «causa» cristã, seja ela o aborto, a «defesa» da família tradicional ou a imposição a todos das doutrinas da Igreja.

 

O cúmulo do absurdo da cristianovitimização pode ser apreciado nas manobras e pressão exercidas pelo Vaticano para que seja aprovado um novo termo: a «cristianofobia» ou «cristofobia», termo recente mas rapidamente incorporado no léxico dos fundamentalistas que querem submeter todos aos ditames do Vaticano. A coisa teve especial reprodução mediática após a publicação do livro «Política sem Deus. Europa e América, o cubo e a catedral» (Edições Cristandade), do teólogo católico e biógrafo de papas George Weigel. De facto, e como confirmam os comentários ao post «Way to go, Filipino Freethinkers», os fanáticos cristãos gritam «cristofobia» e ululam perseguições sempre que os poderes públicos não condescendem em transcrever na letra da lei os anacrónicos ditames da Igreja de Roma.

 

Neste post em particular o devoto comentador insiste ad nauseam na tese de que os católicos em particular e os cristãos em geral são o grupo mais perseguido do planeta, quiçá mesmo nas Filipinas onde após séculos de dominância absoluta da ICAR alguns grupos se arrogam a apoiar publicamente o anti-católico projecto de lei que dá uma «navalhada de luva branca, quer nos não-nascidos graças ao aborto a pedido, quer nos cristãos e na ICAR em particular» ao pretender dar acesso à pílula e aos (já não tão execrados) preservativos.

 

Esta nova onda de cristianovitimização que invade o espaço etéreo cristão, para a qual dizer «freedom of worship» em vez de «freedom of religion» é carpido como um ataque insidioso aos cristãos, foi amplificada recentemente quer pela condenação à morte por blasfémia de Asia Bibi no Paquistão quer pelo ataque da al-Qaeda à Catedral de Nossa Senhora da Salvação em Bagdad, que vitimou 70 crentes.  Claro que é completamente irrelevante que seja exactamente a religião a causa de ambas as barbáries e que no Iraque, por exemplo, as grandes vítimas das guerras religiosas sejam shiitas, muitos deles massacrados nos seus templos. Ou que, numa guerra que já matou pelo menos um milhão de pessoas, de acordo com os únicos estudos peer-reviewed, dizer «Our people in Iraq today are persecuted, threatened and suffer martyrdom. Since 2005, 900 Christians have been killed, among them five priests and the archbishop of Mosul» é um insulto à memória das centenas de milhares que morreram nesta guerra abominável.

 

A onda de martirização atingiu o pico de amplitude aqui mesmo ao lado onde,  encorajados pelas palavras de Bento XVI, os monges beneditinos que rezaram aos «mártires» da Guerra Civil espanhola junto às sepulturas de Franco e Primo de Rivera carpem estar a ser perseguidos e comparam o que lhes está a acontecer à «persecución de odio a la fe en España de 1934 a 1939».

 

E o que se está a passar é que se iniciaram obras de restauração na fachada da igreja do Valle de los Caídos - o colossal monumento ao fascismo que alberga os túmulos de Francisco Franco e de José Antonio Primo de Rivera (fundador da Falange Española). Ou seja, só pode ser perseguição que exactamente este ano, quando se cumprem 35 anos da morte de Franco, a basílica, em estado de deterioração que ameaça a segurança dos visitantes,  esteja indisponível para os monges prestarem a devida homenagem ao ditador católico, cuja morte os mais devotos assinalaram condignamente ontem, respondendo ao apelo a uma campanha de oração que está a agitar os falangistas.

 

Não é coincidência nem causa estranheza que sejam os herdeiros do totalitarismo franquista a carpir perseguição por algo tão imbecil como umas obras de restauração. A democracia que deploram, indissociável do pluralismo ideológico e religioso, da liberdade de opinião e expressão e da tolerância, foi uma conquista árdua contra o totalitarismo e intolerância da Igreja que abençoou Franco.

 

* Mas não só. Para além da recente carpidura de perseguição anti-cristã pela televisão pública de Chicago que, horror dos horrores, tratou com muito respeito um abominável homossexual assumido, e apenas como exemplo,  recordo um entre muitos episódios de pretensas martirizações por parte dos cristãos norte-americanos, como todos sabemos, discriminados, perseguidos e ostracizados na terra onde tomar posse num cargo político sem mencionar Deus (cristão, claro) é motivo de parangonas com acusações sortidas. «Nós estamos enfrentando, como nunca no passado, esta hostilidade contra o povo de Deus» bramiu em 2006 o «perseguido» pastor Herbert Lusk, que recebeu mais de 1 milhão de dólares de financiamento federal ao abrigo dos programas baseados na fé de Bush.

 

O «mártir» cristão continuou advertindo:

 

«Não brinquem com a igreja porque a igreja já enterrou muitos críticos [suponho que todos menos os cristãos recordam alguns desses críticos, vítimas do zelo inquisitorial dos cristãos] e todos os críticos que ainda não enterrámos estamos a tratar dos preparativos do seu funeral». Penso que ninguém tem dúvidas de que esse é um desejo que os fundamentalistas de todas as religiões partilham...

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