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jugular

a apologia das escutas, da sua livre divulgação e comentário, por ana gomes -- for the record

ana gomes entendeu responder ao meu texto de sexta do dn. diz ana gomes que, ao contrário do que afirmo, não se riu da transcrição da escuta, mas 'do conteúdo da transcrição'.

 

para explicitar o que quer dizer, elenca coisas que diz não saber: 'não tive acesso ao processo, não sei se a escuta se justifica no quadro da investigação, não sei se estamos perante uma “reprodução mercantil” e sobretudo não julgo que a divulgação daquela conversa tenha interesse informativo para o público'.

 

ana gomes põe portanto a hipótese de uma conversa com aquelas características poder ter cabimento -- e o cabimento das escutas é o de indiciar crimes -- num processo criminal; mas, apesar de lhe reconhecer hipotético interesse criminal, não lhe reconhece interesse informativo. porém, não lhe reconhecendo interesse informativo, não sabe se a sua utilização pelos jornais (e não só) é mercantil.

 

no meio desta deplorável trapalhada, não achou nada de melhor para fazer que 'reagir ao seu conteúdo' publicamente, para um jornal. porquê? porque 'em parte lhe dizia respeito'. isto apesar de, confessa, 'não ter ficado a saber nada de novo'.

 

neste ponto, ana gomes, deixe-me dizer-lhe que até compreendo que a primeira reacção -- e até a mais saudável -- de uma pessoa colocada perante o relato de um dito desagradável sobre ela seja rir. mesmo que quem a confronta seja um jornalista e saiba que não está a ter uma conversa privada. é uma reacção, digamos, humana. tenho é muita dificuldade -- direi mesmo total incapacidade -- em compreender que não tenha, no decorrer da conversa, caído em si e dito ao jornalista que não podia usar a gargalhada ou fosse o que fosse na peça. a ana gomes não nasceu ontem, é uma política e até diplomata (!) experimentada e portanto não devia ser assim tão fácil apanhá-la desprevenida (se é que podia ser apanhada desprevenida a propósito de uma 'notícia' que vinha noutro jornal e que não é muito crível não conhecesse já quando foi contactada pelo dn). mas, passada uma semana, a ana gomes demonstra, na justificação que dá para o facto, que não foi nem pouco mais ou menos apanhada desprevenida. até porque é a própria ana gomes que traz à colação a sua experiência prévia no reino das escutas e da 'orquestração perversa de instâncias judiciais com jornalismo de sarjeta' que 'atacou miseravelmente a direcção do ps' de que fez parte. ana gomes sabe, pois, e muito bem, o que são instrumentalizações de escutas com fins políticos -- é ela que nos lembra isso.

 

e que diz, pois, esta veterana na coisa das instrumentalizações das escutas judiciais e da sua divulgação? que  'não se cala' -- 'então como agora'. pois, lá calar-se não se cala. mas, agora, não para protestar 'o mais que pode' ou para chamar a atenção para aquilo que antes achou 'miserável'; agora ri, acha graça.

 

e porquê?

 

porque, já vimos, a escuta em causa fala dela.

 

e porque 'sabe distinguir entre o que é fabricação caluniosa – e deve ser desmentido e desmascarado como tal. E o que, sendo abusivo e porventura até criminososo na divulgação, não é desmentido... porque não é desmentível.'

 

ora bem: para ana gomes, ficamos a saber, a justificação de uma escuta, da divulgação de uma escuta e do comentário ao seu conteúdo é tão simplesmente o facto de se falar dela e de ela achar que a conversa em causa aconteceu mesmo e portanto -- conclusão de ana gomes, atenção -- 'não é desmentível'. isto independentemente -- independentemente, repita-se, porque é a conclusão explícita na espantosa frase citada, como já era implícita na reacção à abordagem do dn  -- de a divulgação ser 'abusiva e até porventura criminosa'.

 

temos pois de concluir que ana gomes acharia natural, porventura mesmo desejável, que eu, ao ter conhecimento de eventuais conversas que tenha sobre mim, por exemplo a propósito do texto que escrevi sobre ela para o dn ou sobre este post, por via de um jornalista que me ligasse a relatá-las, em vez de me ralar em saber como é que o jornalista teve acesso às ditas conversas, e, estando gravadas, quem as teria e com que legitimidade gravado e transcrito e colocado num sítio onde estivessem acessíveis a jornalistas, me risse à gargalhada e, quiçá, acrescentasse umas observações da minha lavra sobre a ana gomes, assinando-as ou usando o anonimato. desde que a ana gomes não desmentisse -- por não querer ou não poder -- estava tudo bem.

 

pois, ana gomes. aqui chegada, pergunto-me: exactamente o que é que tanto a revoltou na utilização das escutas judiciais contra a direcção de ferro rodrigues? se não foi, como não pode ter sido pelo que nos diz, o princípio da coisa, a violação do estado de direito, o crime, a compressão dos direitos fundamentais, o 'jornalismo de sarjeta', foi o quê?

 

aliás, a parte final do seu post, em que refere um caso que, confesso, não estou a identificar (se calhar era melhor dizer o nome, já que diz o resto), é bem o remate perfeito para um post que deve ficar para a história pelo que defende e pelo que não defende. ana gomes quis rematar um post em que justifica ter legitimado publicamente a devassa de uma conversa sem qualquer interesse criminal ou informativo defendendo que em certas circunstâncias o jornalismo pode e deve infringir a lei e divulgar escutas. pois, ana gomes. por acaso essa é, sem tirar nem pôr, a defesa que todos os que, nas suas palavras, 'atacaram miseravelmente a direcção de ferro rodrigues' fazem do que fizeram. temos o direito de saber, dizem -- seja por que meios. e o direito de saber tudo -- depois lá decidiremos o que interessa e o que não interessa. for the record, a ana gomes concorda. creio que é também essa a justificação da tortura.

 

em adenda, ouvir aqui, quando estiver disponível (até há pouco não estava, o programa assinalado como sendo de 20 de novembro não é) o que outro membro da direcção socialista de ferro rodrigues, pedro adão e silva, tem a dizer sobre a gargalhada de ana gomes ao dn (em debate com pedro marques lopes, na tsf)

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