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tempos interessantes

Quando escolhi o curso de comunicação social –hoje é “ciências da comunicação” --, não tinha uma ideia muito clara do que o jornalismo é ou deve ser. Afinal, vivia num país a convalescer de uma ditadura e de um período revolucionário em que muitos jornais e jornalistas tinham sido tudo menos isso de que ostentavam o nome; um país onde só existia a TV pública e onde a referência das rádios privadas era a Renascença; um país onde havia ainda jornais do Estado.

 

Não foi sequer no curso da Universidade Nova que fiquei com uma ideia clara sobre o assunto, malgrado os esforços de Nelson Traquina, Rui Cádima, José Rebelo e Alberto Arons. Foi mesmo depois de começar a trabalhar. Estagiei no Expresso, na altura o meu jornal preferido, cuja revista, dirigida por Vicente Jorge Silva, considerava uma referência do que me interessava fazer. O meu primeiro “professor” sério de prática – ou o único que assim recordo -- foi Joaquim Vieira. Não me lembro de termos discutido deontologia a não ser uma vez, e mesmo assim não me lembro bem porquê. Mas recordo ter, nessa altura, já interiorizadas regras obrigatórias como a do contraditório, da audição dos interessados e do carácter sagrado do off the record.

Também não me lembro, nesses primeiros tempos, de ter grandes dúvidas deontológicas – talvez devesse ter tido muitas mais. O Código Deontológico dos jornalistas portugueses hoje em vigor não existia – é de 1993 – e era com os mais velhos (e quase toda a gente era mais velha) que, se tivessem paciência, me aconselhava. As primeiras vezes em que mexi com processos judiciais, a propósito de homicídios cometidos por polícias, percebi o quanto podia ser relativa a verdade das autoridades policiais, dos inquéritos e dos tribunais. Que só havia uma “verdade” em que podia confiar e que podia assinar, em cima e por baixo: a que resultasse da minha própria investigação. E, mesmo essa, não podia ser senão uma versão – a minha filtragem das versões todas, quantas mais melhor, que pudesse reunir.

 

Tive até hoje, em mais de 20 anos de jornalismo, algumas vezes, poucas felizmente, de ponderar o interesse público da divulgação de algo que comprimiria os direitos individuais de uma ou mais pessoas. Lembro-me de um caso em que perdi: estava em causa publicar uma conversa gravada sem conhecimento do interlocutor. A situação era de fronteira: tratava-se de um agente da polícia suspeito de ser responsável pela morte de um miúdo de 17 anos pela qual nem sequer fora a julgamento (outro agente fora julgado e absolvido por o tribunal concluir que o autor do disparo podia ser este) que sabia estar a falar com jornalistas mas não sabia que estava a ser gravado; disse coisas que demonstravam a sua total indiferença e até desprezo em relação à morte de que era o possível autor. Defendi que aquelas declarações deviam aparecer na reportagem (televisiva), a pessoa que estava a trabalhar nela comigo opôs-se. Não saíram.

 

Ainda hoje tenho dúvidas sobre esse caso. Estava em causa uma morte completamente gratuita, perpetrada por um agente da autoridade (sobre isso não há dúvidas) e a absoluta denegação da justiça. Mas nunca me passou pela cabeça achar que a não divulgação dessa conversa se podia chamar censura. Ou que, tão poucos anos depois, me depararia todos os dias com a publicação pelos media de conversas privadas sem qualquer relevância criminal ou a mais remota hipótese de interesse público. Que qualquer protesto quanto a isso fosse crismado de censura – que censura, enfim, passasse a ser tudo o que tente obstar ao vale tudo.

 

“Que vivas tempos interessantes”, diz-se, é uma maldição chinesa. Alguém a lançou ao jornalismo português. E, por extensão, a todos nós, jornalistas e não jornalistas. Porque os vivemos todos, a estes tempos, e o assunto nos interessa a todos, mesmo se não parece.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 20 de novembro)

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