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jugular

Um reparo e muitos desconcertos

With or without religion, good people will do good things and bad people will do bad things. But for good people to do bad things that takes religion. (Steven Weinberg *)

 

O post «O Drama, o Horror, a Tragédia» mostra claramente que, contrariamente ao que pretende o Paulo, o debate que tanto o desconcertou não só não é um absurdo como é um debate necessário, quiçá o debate mais necessário dos nossos tempos, aquele que abrirá caminho aos debates mais sérios sobre religião que urgem. No video, vemos o drama, o horror, a tragédia e o insulto que constitui para muitos crentes a mera afirmação de que se pode ser bom sem Deus, não só para este caso específico em Fort Worth no Texas, mas, como os hierarcas da Igreja Católica e seus apaniguados repetem à exaustão nos últimos tempos, para o preconceito global de que não crer em deuses é a causa de todas as malfeitorias, presentes e passadas. Dizer despudoramente coisas como «Esse é um exemplo típico de quem não acredita em Deus. Matou o menino de dois anos de idade, tentou fuzilar três ou quatro pessoas», como foi feito há dias numa televisão brasileira, é apenas um pequeno retrato do que pensam adeptos de todas as religiões.

 

Ou seja, é de facto necessário discutir se a religião, e só a religião como afirmam muitos crentes, é uma força para o bem, exactamente porque este é um tema em que é urgente, como dizes no final do teu post, «excluir as ignorâncias, despromover o medo, o preconceito e a intolerância» da parte dos crentes. E para o fazer  é necessário discutir a religião sem tabus nem melindres e em todas as suas dimensões. E uma desta dimensões é exactamente aquilo que recusas discutir - e que Weinberg sumariou naquela citação fantástica - refugiando-te num falso dilema, que um dos nossos leitores já reparou, e que reside no facto de, vá-se lá saber porquê, teres decidido que o que se discutia não era «se a religião é "uma força para o bem no mundo"» mas sim se era «coisa boa ou coisa má».

 

Isto é, o que se discutiu não foi, como assumiste indignadamente no resto da diatribe, se a religião em si é uma coisa má mas se a religião inspira os seus crentes a fazerem coisas más, algo que penso ninguém conteste. Nem discutir a coisa implica, agora mesmo numa falácia de dispersão, mais concretamente numa bola de neve, que a seguir se pretenda abolir a religião por referendo.

 

Depois considero extraordinariamente curioso que alguém que se recusa a ver um debate diga que as circunstâncias em que ele decorreu constituem só por si uma falácia abominável e leviana, algo extraordinário não só pelo epitetização mas em particular pela ideia que um debate televisivo entre dois defensores de pontos de vista opostos é algo em si reprovável, certamente por se tratar de religião uma vez que não faltam debates deste tipo acerca de tudo e mais umas botas e nunca sobre eles te pronunciaste. Não sei se preferes a visão unilateral, do lado religioso, sobre a coisa, pelo menos é o que transparece do teu texto, em particular do final em que sugeres que debater religião desta forma bilateral é apenas contar espingardas para cavar trincheiras, do lado dos que O (assim, maiusculizado e tudo) negam sem dúvida pelos termos do post.

 

Um preconceito não é aquilo que um preconceito comum relativamente aos preconceitos assume, isto é, não é uma ideia falsa em que acreditamos firme e dogmaticamente. Um preconceito é apenas uma ideia que aceitamos sem discussão, porque nela acreditamos firmemente, mas que somos incapazes de justificar porque nunca pensámos sobre ela, ou fomos obrigados a isso, por exemplo ao ver um debate na televisão.

Por isso, a única forma de despromover preconceitos é discuti-los, seja em que formato for.  E não em acenar - involuntariamente, acredito - com a falácia da irrelevância. Podes concordar ou discordar do que foi discutido, dos moldes em que foi discutido ou quejandos, mas não podes, ou pelo menos não deves, desviar o assunto para algo que é irrelevante para a discussão: começar por dizer que é um absurdo e acabar dizendo que este tipo de debate é uma coisa tão grave que não deve ser feita porque é «contar espingardas, cavar trincheiras, acirrar cisões».

 

*Sem qualquer pretensão de argumento de autoridade, apenas gosto da citação (e subscrevo-a até que argumentação em contrário que me convença) :)

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