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O boomerang colonial: culpa ou responsabilidade?

texto de Miguel Montenegro

Foi com assombro que li a crónica do Sr. José Pacheco Pereira no Público de 16 de Fevereiro de 2008, intitulada “Boomerang,” sobre o pedido de desculpas do governo australiano pelas violências e indignidades cometidas no passado contra os aborígenes australianos.

Recuperando a velha retórica “anti-relativista” que o cardeal Ratzinger relançou imediatamente antes de arrematar o papado, o Sr. José Pacheco Pereira deplora a posição do chefe de governo australiano, Kevin Rudd, e, por implicação, a posição do parlamento federal e da expressiva maioria da sociedade australiana a quem o chefe do executivo deu voz.

Se o pedido de desculpas do representante político dos australianos se refere à totalidade das ofensas cometidas pelos europeus contra os aborígenes, o cerne do mesmo refere-se às chamadas “stolen generations”: cem mil crianças, no mínimo, sobretudo de ascendência mista (aborígene e europeia) que, entre 1869 e 1969, foram subtraídas à força às suas famílias para serem colocadas em instituições do estado, da igreja ou em famílias “brancas” no intuito de as “branquear” culturalmente. 

Desde o início da penetração ocidental no continente australiano, no século XVIII, os aborígenes australianos foram objecto de assassinato em grandes números, de expulsão das suas terras ancestrais, de reagrupamento em reservas e de utilização como sub-proletariado barato. Todavia, a maior parte da população autóctone sucumbiu não em resultado do confronto directo com os europeus, mas devido às doenças que estes trouxeram consigo e para as quais aqueles não possuíam imunidade. A devastação epidemiológica levou mesmo à convicção de que era uma questão de tempo até que os aborígenes acabassem por desaparecer por completo. Se o Aboriginal Protection Act de 1869, que marcou o início da subtracção forçada de crianças aborígenes, alegou motivos humanitários, o eugenismo e o racismo científico do fim do século XIX e do princípio do século XX olhavam com maus olhos para a infusão de sangue europeu numa “raça” que o choque epidemiológico, na altura mal compreendido, fazia parecer condenada. Foi neste quadro mental que a política de rapto sistemático se desenvolveu, como um meio expedito de apagar a memória cultural e de subtrair às comunidades indígenas aqueles cujo sangue europeu poderia resgatar e fazer mudar o que se julgava ser o destino racial dos aborígenes.

Infelizmente, esta política de rapto não é um caso isolado. Ainda nos anos sessenta era praticada na Amazónia, onde crianças nativas eram também retiradas à força aos seus pais para serem criadas em missões cristãs, como o documentou Robert Jaulin no seu livro La Paix Blanche.

Tudo isto é sobejamente conhecido, apesar dos constantes esforços daqueles que, como o Sr. José Pacheco Pereira, julgam possível salvar a herança histórica e cultural europeia sem a passar pelo crivo do exame crítico da história – um exercício de lucidez a que as opiniões públicas estão, hoje em dia, mais sensíveis.

Esta abertura acrescida é, sem dúvida, um fenómeno complexo mas que só erradamente pode ser atribuído a uma qualquer “fraqueza civilizacional” que comentadores como o Sr. José Pacheco Pereira parecem temer numa lógica opositiva que nada tem a invejar às visões do mundo de um George Bush ou de um Bin Laden. Pelo contrário, a admissão de erros e a capacidade de confronto com a imagem que o espelho nos devolve é, e sempre foi, sinal de força, tanto no indivíduo como na sociedade. A este tipo de honestidade e de exame desassombrado da história, o Sr. José Pacheco Pereira prefere desdenhosamente chamar “multiculturalismo” e “relativismo cultural,” o mesmo “relativismo” contra o qual o papa Ratzinger vocifera periodicamente. Até porque existem os beatos do multiculturalismo, e é mais fácil imputar o confronto com o passado e com os demónios próprios a uma dogmática equivalência de tudo com tudo (o fantasmático “relativismo cultural”) do que responder à exigência de honestidade que se perfila no exame crítico da história do Ocidente.

Esta forma de denegação, mais subtil que o primário “negacionismo,” de que o Sr. José Pacheco Pereira procura demarcar-se ao pô-lo em paralelo com o “politicamente correcto,” não deixa de ser ela própria um sinal evidente de fraqueza que as proferições contra o espectro conveniente do “relativismo cultural” revelam mais do que escondem.

Se, ao longo das últimas décadas, as opiniões públicas se tornaram cada vez mais sensíveis ao confronto com a história e à assunção de responsabilidades (noção à qual o Sr. José Pacheco Pereira parece preferir a de “culpa,” cuja irracionalidade pode mais comodamente imbricar com a de “relativismo cultural” no sistemático exercício de evacuação em que consiste o seu artigo), isso deve-se, entre outras coisas, ao levantamento progressivo das barreiras censórias, formais e informais, que, durante séculos, protegeram o Ocidente de si próprio (mas não os outros do Ocidente). E é conveniente aqui precisar que este exame do Ocidente não concerne apenas a Europa e as sociedades fundadas por europeus, como também todas aquelas que se organizaram segundo ideologias ocidentais como o cristianismo, o comunismo e o progressismo nas suas múltiplas variantes. Afinal, não se trata de esclarecer uma identidade biológica (“raça”) mas sim opções civilizacionais; são estas que o nome “Ocidente” designa.

De entre os dados do problema que o Sr. José Pacheco Pereira preferiu não incluir no seu extenso artigo, conta-se a origem do presente movimento de opinião australiano que culminou no recente pedido de desculpas: um relatório sobre as “stolen generations” concluído pelo Procurador Geral Michael Lavarch em Maio de 1995 e apresentado no Parlamento Federal em Maio de 1997. O referido relatório, intitulado “Bringing them home,” foi realizado após anos de insistência da parte de organizações de defesa dos direitos dos aborígenes com o intuito de pôr fim à ignorância pública sobre o tratamento de que foram objecto várias gerações de famílias e de crianças aborígenes e, particularmente, de “sangue misto.” O relatório aponta, entre outras coisas, para violações grosseiras dos direitos humanos e para a intenção genocidária deliberada dos responsáveis pela política de rapto. O tratamento dado a esta centena de milhar (ou mais, ninguém sabe) de crianças e às suas famílias era simplesmente desconhecido na sociedade australiana. Não foi certamente por modéstia que, neste caso, uma mão ficou sem saber o que a outra fazia.

Apesar de se ter subtraído a um honroso pedido formal de desculpas, até o antecessor de Kevin Rudd, o conservador John Howard, reconheceu os erros escabrosos em que incorreram os seus predecessores políticos e as violências injustificáveis de que foram objecto os aborígenes. Foi por isso com espanto que, numa altura em que os Australianos acabam de dar o difícil primeiro passo na direcção da convivência honesta com a história, consigo mesmos e com a sua diversidade interna, vejo um político português invocar a explicação oficial que um governo colonial forneceu no século XIX e na primeira metade do século XX para justificar uma política de rapto de crianças com propósitos manifestamente eugénicos e etnocidários (se o genocídio é a destruição física uma população, o etnocídio é a sua destruição cultural e moral).

Fazendo eco às alegações de que o poder colonial lançou mão afim de fazer avançar a sua agenda etnocidária e eugénica, o Sr. José Pacheco Pereira explica candidamente que “o objectivo era retirar as crianças de origem mista, quase sempre com pai branco e mãe aborígene, que as comunidades originais recusavam e abandonavam e levá-las para orfanatos e instituições do estado e religiosas com o fim de as educar fora da sua cultura original, mas também de as proteger dos abusos de que eram vítimas ou, pura e simplesmente, recolhê-las porque eram abandonadas.”

Escusando-se a um negacionismo primário, o Sr. José Pacheco Pereira reconhece alguma da destruição semeada pelo empreendimento “civilizador” ocidental e deplora-a. Reunindo diferentes registos históricos sob o tema dos “pedidos de desculpa” – hoje em dia mais livremente assumidos do que outrora – o Sr. José Pacheco Pereira assinala, justamente, o facto de os horríveis crimes cometidos dentro do Império Soviético não terem sido objecto da mesma assunção de responsabilidades por parte dos comunistas e demais simpatizantes deste género de regimes. Esta incoerência é, em Portugal, acentuada pelo facto de o partido comunista local nunca ter querido distanciar-se das atrocidades estalinistas como o fizeram outros partidos comunistas europeus. Todavia, não é em defesa da honestidade, do exame histórico desapaixonado e do reconhecimento imparcial das responsabilidades de uns e de outros, para além e acima de mesquinhas clivagens político-religiosas, que o Sr. José Pacheco Pereira invoca as assimetrias ideológicas da memória.

Fazendo seu o diagnóstico de João Paulo II, que assinalou “um conceito judaico, o de teshuva, como estando na base destes pedidos de perdão,” é à influência judaica que, subtilmente, o Sr. José Pacheco Pereira atribui “esta relação de culpa, aliás um elemento muito importante que o judaísmo trouxe à modernidade e que impregnou a cultura ocidental,” lamentando que o princípio da assunção de responsabilidades históricas, que apenas consegue interpretar como “relação de culpa,” tenha transbordado aquele que parece considerar o seu domínio de aplicação canónico (o genocídio europeu dos judeus no século XX) para se tornar, nas palavras do articulista, “um ritual público muito comum nos governos à esquerda.”

Longe, por isso, de reclamar a honesta imparcialidade do julgamento histórico, o Sr. José Pacheco Pereira não faz mais do que inscrever o seu discurso na clivagem político-religiosa intelectualmente estéril que opõe um conservadorismo cristão defensivamente etnocêntrico a uma esquerda volúvel e moralmente selectiva, ambos hipócritas porque ambos sofrendo de extensos escotomas nas suas consciências históricas.

O estigma que o Sr. José Pacheco Pereira lança contra a parte oposta da lógica contraditória em que se move revela o perfil de uma posição caricatural insustentável que não deixa de reenviar àquela, simétrica e implícita, porque intelectualmente inarticulável, a partir da qual o articulista discorre: “A culpabilização do colonialismo acompanhou uma nova sensibilização ‘multicultural,’ que tende a considerar de forma relativista o valor de todas as culturas e civilizações em nome do abandono de uma visão eurocêntrica do mundo.”

A difícil assunção das suas responsabilidades históricas pelos australianos – assim como a interpelação, naturalmente penosa, que aquela constitui dentro do país europeu que há menos tempo se separou da sua realidade colonial – é assim pura e simplesmente dissolvida no fantasma político-religioso do “relativismo cultural,” um fantasma do mesmo quilate da presunção de ignominiosa devassidão que o fundamentalista católico reserva a quem tem uma vida sexual que não se pauta pelas suas regras, ou da atribuição de culposos intentos exploratórios a todos os empregadores pelo integrista de esquerda: a lógica é sempre a mesma, a sua constância elementar é disfarçada pela aparente distância entre os termos que articula; o resultado é a sua própria perpetuação por meio da sistemática elisão redutora da realidade.

É a este extremar de posições que o Sr. José Pacheco Pereira dá corpo na recta final do seu longo artigo, emprestando a sua voz às tíbias racionalizações com que o discurso colonial, num contexto histórico favorável, tentava ocultar a sua sordidez, mas que hoje é difícil ouvir ou ler sem se ser atravessado pela impressão do insólito ou do patético. Assim, o articulista afirma que práticas como o rapto de crianças (pudicamente nomeado de “roubo” com aspas) “eram feitas muitas vezes com as melhores das intenções, em nome daquilo que se pensava ser o bem-estar e dignidade das crianças, que seriam rejeitadas pelos aborígenes.” Imbuído, sem dúvida, de um ímpeto missionário, o Sr. José Pacheco Pereira prossegue: “A ideia de ‘civilizar,’ a bem ou à força, implicava também obrigações e sentido de missão que levaram muitos homens e mulheres a viverem vidas difíceis e perigosas apenas para melhorar as condições de vida daqueles que, ou queriam converter à sua religião e num certo sentido ‘salvar,’ ou a quem queriam dar condições mínimas de vida, alimentação, cuidados médicos, educação, como seres humanos que tinham direito à dignidade da vida. Foi esse, por exemplo, o papel das missões religiosas, elas próprias também um produto do colonialismo.”

Palavras para quê? Quando obrigar alguém pelas armas, pela injúria, pelo medo e pela desqualificação a renegar a sua forma de ver o mundo e a abandonar o seu modo de vida se justifica com as “melhores intenções,” quando o rapto de crianças aos seus pais se traveste com o “melhorar as suas condições de vida,” quando a expulsão e o genocídio de populações autóctones, como aconteceu na Austrália e nos Estados Unidos, são obscenamente reduzidos a um relambório de boas “intenções,” de “sentido de missão” e de “salvação,” o sentido da língua é dissolvido e a palavra humana reduz-se a nada, o mesmo nada a que conduziram as purgas e os gulags do regime soviético cujos actuais defensores não renegariam o argumentário branqueador do Sr. José Pacheco Pereira. Ou será que o Sr. José Pacheco Pereira considera, numa espécie de concurso de horrores, que as missões cristãs na Amazónia ou na Austrália onde se procedia à reeducação “cultural” das crianças indígenas sequestradas são moralmente superiores aos campos de reeducação vietnamitas?

Se, após ter cortejado o absurdo, o Sr. José Pacheco Pereira parecia não poder ir mais longe – ou mais baixo, – o leitor é surpreendido quando o articulista coloca, dentro do mesmo saco do “relativismo multicultural” onde enfiou o difícil mas honesto confronto dos australianos com a sua própria história, o dislate do arcebispo da Cantuária que sugeriu acolher a sharia dentro do sistema jurídico britânico, na esperança, talvez, de que o beatismo multiculturalista se transmita por contiguidade. Ou talvez seja o próprio articulista que sofre do tal “relativismo cultural” ao não fazer a distinção entre a cultura não missionária dos povos australianos autóctones e uma ideologia religiosa tão totalitária como aquela a coberto da qual os europeus espezinharam inúmeros povos e culturas. Naturalmente isto equivaleria a arrancar o escotoma no qual se baseia a posição do Sr. José Pacheco Pereira, uma posição que, bem mais do que etnocêntrica, é sobretudo monocêntrica e monológica. Em termos mais coloquiais, é a posição de quem não pode viver sem um credo, seja ele qual for.

A perfeita asignificação é, por fim, atingida no tom de brincadeira de quem tenta servir o imperdoável sob a forma do fantasma da capitulação face ao presente Grande Aguilhão Histórico da Lógica da Contradição, o islamismo, ao qual o Sr. José Pacheco Pereira reage obedientemente no melhor estilo bushita: “ainda acabamos por dar razão à Al-Qaeda, que nos considera como ‘cruzados,’ logo um alvo a abater pelo novo Saladino.” Num estranho exercício de dejecção por pequenos passos, o gesto de honestidade histórica do governo australiano e, por implicação, do povo australiano, acaba finalmente por ser assimilado às pretensões do terrorismo islamista.

O Ocidente está em pleno processo de metamorfose, mas esta metamorfose não aponta para a esquerda contra a direita ou vice-versa; ela não aponta para o monoteísmo cristão contra o ateísmo cientista ou vice-versa; ela não aponta para o beatismo “multicultural” adorador de uma alteridade genérica contra um etnocentrismo ocidentalocêntrico tingido de uma vago essencialismo cristão ou vice-versa. Esta metamorfose aponta sim para além e para fora da “monomania” da contradição que estrutura a partir de dentro a lógica de ruptura e de não compatibilidade que anima todas estas e muitas outras falsas opções. É fácil passar, por conversão, de um campo para o outro dentro desta lógica da contradição obstinada (veja-se o percurso de um Régis Debray em França ou o do próprio Sr. José Pacheco Pereira que, vindo da esquerda radical (maoísta), se situa agora na direita conservadora); difícil é conseguir sair desta casa de dois quartos. Pior: difícil é compreender que se está enclausurado nela e que, por causa dela, o curso da história se tornou estranho e o mundo, o palco dos nossos mais indomados fantasmas.

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