em branco
Há sempre um dia – muitos, aliás – em que isto de escrever parece não fazer sentido. Em que o gesto de alinhar letras e palavras e querer dizer qualquer coisa surge inútil, patético. É estranho, isto de escrever. Quem nunca teve de o fazer – e ter de fazer significa viver disto, ter prazos e horários e uma espécie de ultimato permanente sobre os dedos no teclado – não pode conhecer esta espécie de determinação cega que faz avançar o texto, esta espécie de coragem sob fogo (a bateria antiáerea do “que raio estou para aqui a dizer”, a bazooka do “nada disto é importante”, o míssil intercontinental do “isto é patético”) que não desiste. Avança-se na brancura do ecrã ou do papel por aquilo a que se dá o nome de “puro esforço de vontade”. Porque é preciso.
Para sentir a premência desse ditado, o império majestoso dessa determinação, é necessário ter um dia trabalhado num meio diário – um jornal, uma agência, uma TV, uma rádio. Saber que se tem uma hora, 30 minutos, 10, para fazer isto que nos pagam para fazer, para traduzir nestes símbolos que fazem as vezes de sons uma noção ou duas, cinco ou seis informações, talvez um estado de alma, talvez uma ideia ou uma perspectiva mais ou menos original. Saber que aquele espaço na página, aquele desenho por preencher é nosso, que é preciso fazer coincidir o que há para dizer sobre vacas loucas ou o debate parlamentar ou o bombardeamento de Gaza ou o julgamento da mulher acusada de mandar matar o marido -- ou nada (uma melancolia, uma memória, um desejo, a história de um peixe de aquário ou de uma iguaria de praia), como é o caso desta e de tantas crónicas – com o número de linhas, o número de “batidas”. É preciso pensar, arquitectar uma estratégia ofensiva e defensiva, uma apropriação do campo e do espaço, e fazê-lo no tempo disponível (e é sempre menos do que pareceria necessário, o tempo disponível). É preciso admitir que nos vamos enganar, e que não é possível querer fazer perfeito – como as mulheres que, li num livro há anos, tecem os tapetes persas e quando se enganam não emendam porque, explicava-se, “só Alá consegue a perfeição”. É preciso fazer as pazes com a ideia de ser só mediano, só banal, só indiferente, nada de especial e mesmo assim prosseguir no paradoxo do propósito maior. Há um truque para fazer isso, um único, e funciona para isto como para tudo: nunca pensar que não se é capaz, que não se consegue. Acreditar sempre que é possível. E avançar. Não há segredos a não ser este, e vale sempre, em todas as circunstâncias (na escrita e nas outras). Lobo Antunes chama-lhe “a mão inteligente”, essa espécie de rédea solta da escrita, um quase transe associado aos grandes feitos da literatura, aos poemas escritos em pé, de jacto, por Pessoa, aos monólogos de Becket ou do Herzog de Saul Bellow, esses encadeados perfeitos de palavras que não podemos senão imaginar em torrente, em convulsão, como uma revelação divina. Mas é assim, um pouco assim, o quase anónimo trabalho dos jornalistas, a pirueta sem rede sobre o abismo disso a que chamamos verdade ou factos ou realidade ou acontecimento. É nessa vertigem que se fazem as notícias e as visões do mundo servidas diariamente aos milhões que o compõem. Recolher o mundo e devolvê-lo, como se tudo tivesse um sentido declinável, unívoco, passível de ser organizado e traduzido, de ser estruturado em princípio meio e fim, premissas, desenvolvimento e conclusão: a tarefa é impossível, e no entanto todos, os que a assumem e os que a recepcionam, fazem de conta que pode ser. A linguagem cria o seu próprio sentido e levanta o mundo. Escrever é sempre isso, mesmo nesta página, mesmo quando se escreve sobre escrever, mesmo quando se escreve para, por escrever. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 24 de fevereiro)

