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jugular

a causa dos dons

o que será que leva a sic-not a, ao elencar um grupo de 'notáveis' convidados para comentar no canal, tratar todos pelo nome, sem títulos -- incluindo a cientista elvira fortunato, que é professora doutora -- excepcionando o bispo carlos azevedo, que é denominado como 'dom'?

 

como jornalista, já várias vezes me deparei com o automatismo acéfalo e reverencial que abre para a hierarquia da igreja católica e para o suposto candidato ao trono de portugal uma excepção em relação à regra de não usar títulos, académicos ou outros, para referir as pessoas. esta excepção é tanto mais ridícula quanto os títulos religiosos só fazem sentido no contexto da confissão em causa e da respectiva hierarquia, por exprimirem reverência -- reverência que é também expressa nos títulos nobiliárquicos. ninguém acharia normal que num jornal actual ou num noticiário de rádio ou televisão o presidente da república ou os membros do governo fossem tratados por 'sua excelência', mas toda a gente parece achar normal que se diga 'dom' ou 'sua eminência' ou mesmo 'sua santidade' (como ouvimos profusamente durante a visita do papa).

 

as palavras -- a linguagem -- não são inócuas e muito menos o são as formas de tratamento. o respeito -- que toda a gente, à partida, merece -- não implica genuflexão nem partisanismo. dom significa 'senhor', 'dono', 'mestre'; significa alguém de 'mais elevado', a quem se deve reverência especial. um jornalista ou um meio que usa a terminologia interna e reverente de uma confissão para denominar os seus membros está a exprimir, mesmo que por pura preguiça ou macaquice de imitação, a sua fidelidade e obediência a essa confissão; como alguém que denomina Duarte de Bragança como 'dom' está a inscrever-se na lógica da titularidade nobiliárquica.

 

como a 'regra', existente em quase todos os jornais, que transforma deus num nome próprio elevando o d a capitular (mesmo quando se escreve 'um deus'), o uso do 'dom' para os clérigos católicos e para os 'nobres' é a negação da 'objectividade' e 'imparcialidade' jornalísticas e uma forma particularmente insidiosa disso a que tanta gente gosta de chamar 'jornalismo de causas': aquela que pressupõe que a causa em causa 'é de todos', 'comum', e portanto não 'fractura'.

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