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Crónica de uma Morte Merecida

"Mas será que ninguém vê qual o verdadeiro culpado nesta história toda!!? Sim claro que é o C Castro! Estragou a vida do rapaz... Vai ser julgado quem menos culpa tem!!!!" 

Desconto de tempo: Detestava o Carlos Castro, era-me profundamente repulsiva aquela pose emproada e vaidosa, aquele tom convencido e arrogante, aquela postura intriguista, mundana, fútil. Personificava o que sempre execrei nos media: a vantagem do meio de comunicação para promover a imbecilidade; aquelas crónicas da Daniela, aqueles juízos idiotas, as elegantes vs. as pirosas em sentenças verrinosas, gratuitas, vazias, alinhadas nas revistas apenas para promover a má-língua e a intriga, o lado mirone que habita em cada um de nós. Sempre me irritaram as loas que cantavam ao seu trabalho, disfarçando as futilidades sob a capa do "controverso", do "polémico", do "não ter papas na língua". Até ouvi vários designá-lo por "jornalista". Fim de desconto.

Confesso que foi com um sorriso que recebi o cochicho, há dias, da sua morte. Julguei que estivessem a brincar comigo. Quando percebi que a pessoa que acabara de me dar a notícia não estava a gracejar, o sorriso desapareceu, sobretudo quando ouvi o comentário final: "sim, ia com um puto de 20 anos, já se sabe...". Depois, o espanto e o choque com o caso, as circunstâncias e os pormenores macabros do assassinato. Por fim, a indignação com o processo de lavagem do alegado assassino. Esta lavagem não decorre da existência de dúvidas, suspeitas de encobrimento ou incriminação por terceiros ou, sequer, atenuantes (acidente, legítima defesa, etc.); decorre, tão-somente, do facto de Carlos Castro ser homossexual e de ter uma relação com o alegado assassino. E isto, aos olhos do Portugal de 2011, quase 40 anos depois do 25 de Abril, o país que pertence à Europa Comunitária há mais de 20 e que se considera um farol de humanismo e de tolerância no mundo, é ainda algo que as pessoas não aceitam, não engolem e não perdoam. E que, em última instância, acaba por imputar uma "culpa" e um "merecimento" à vítima.

A frase que transcrevo acima não é um resmungo qualquer. É o comentário mais votado à notícia do Correio da Manhã do "não sou gay nunca mais". O mais votado, por larga margem, praticamente o dobro dos votos do que se lhe segue. Curiosamente, o que consta no cabeçalho da edição online de hoje como "o mais votado" tem cerca de 1/3 dos votos daquele, mas é igualmente significativo: "O Renato matou-o fisicamente e o carlos castro matou o miudo psicologicamente.Isso tambem é crime".

Já se sabia que os portugueses não são especialmente tolerantes com as diferenças, apesar de toda a prosápia nacionalista que nos inculcou a ideia de sermos abertos, tolerantes e de brandos costumes; e que a homossexualidade, apesar das recentes vitórias no campo político-legislativo, não é coisa facilmente aceite. Não nos devemos deixar, nunca, enganar pela ilusão "legal" e não subestimar o fosso entre legislação e prática. Este caso é particularmente assertivo: um homem foi morto, após espancamento prolongado, e posteriormente alvo de mutilação; era um sexagenário, e o autor do crime, um jovem forte e robusto. Até aqui, nada a apontar. O pormenor que faz toda a diferença é que tinham uma relação, e que um deles era um homossexual assumido. E aqui é que tudo fica, subitamente, transfigurado e o assassino passa miraculosamente a quase-vítima: um jovem bom ("de ouro", como disse a mãe - que queria a imprensa que ela dissesse?), belo, estudioso, "normal", trabalhador, que tinha um sonho de vingar na vida e de fazer carreira de modelo; infelizmente, essa carreira, tortuosa, não era fácil; ter-se-á envolvido com um decano das lides, influente e bem relacionado; viajaram juntos; os amigos deste disse que ele estava "apaixonado". A velha história do "subir na horizontal", tantas vezes propalada, cochichada, intrigada, quando está em causa uma mulher jovem e um homem poderoso, certo? Errado. Porque isso é quando se trata de uma mulher e um homem, ora pois, algo aceite socialmente; entre dois homens é uma abominação, como profere o Levítico.

O aspecto mais interessante, o traço mais relevante desta história horrível é, precisamente, o que envolve o preconceito homofóbico. Digam-me lá, eram dois adultos, certo? A sua relação não estava inquinada por nenhuma "contaminação" externa, digamos, relação laboral, hierarquia de serviço, etc. (segundo algumas informações, foi o jovem Renato Seabra quem procurou o Carlos Castro), correcto? Então porque carga de água é que o cronista de fofocas teve "culpa", "matou o miúdo psicologicamente" ou "estragou a vida ao rapaz"? Eu sei a resposta. É que, no fundo, apesar de toda a apregoada "tolerância", uma boa parte dos portugueses tem ainda uma homofobia latente e entranhada: o Renato foi "corrompido" pelo velho devasso, obrigado, constrangido, chantageado ou simplesmente instigado a actos abomináveis em troca de ajuda na tal carreira de modelo; o que ele fez (matá-lo) não se perdoa, mas compreende-se e desculpa-se (passe a contradição), afinal qualquer homem-que-é-homem reagiria assim (ou deveria) perante um atentado semelhante; os pormenores gore do olho arrancado a saca-rolhas são apenas excessos de um macho ofendido na sua virilidade. Digamos que o Renato estava disposto a muito para subir na carreira, mas há limites para tudo. Há certamente quem pense que o Renato deveria ser libertado e, quem sabe, recompensado, sempre seria uma forma de conter a bicheza que prolifera por aí.

Há, porém, um comentário na mesma notícia que revela algo de mais sinistro: alguém que diz que todos temos filhos e netos e que, portanto, com "telhados de vidro". Assim, ninguém gostaria que semelhante coisa "nos" acontecesse; não o assassinato, presume-se; mas sim esta "corrupção" que é, afinal, vista como a causa de tudo. É a insinuação velada, confusa e muito comum, de misturar homossexualidade com pedofilia (afinal, tudo perversões, certo?): chamá-lo repetidamente de "o rapaz", "o rapaz", como se fosse um moço de 14 anos e não um homem adulto. Isto eleva a questão a outros patamares, com o efeito assumido de favorecer e desculpabilizar a "vítima".

Evidentemente, nada disto estaria em causa se o Castro fosse um velho babado por saias e o Renato, uma cheerleader de formas redondas. Nesse caso, a relação seria apenas mais uma "subida na horizontal" (bocejo!). E se ocorresse um homicídio, ninguém viria em socorro da autora, decerto que seria uma assassina interesseira, uma puta ladra que esteve meses a chular o pobre velhinho apaixonado e iludido e que tentou, decerto, um qualquer "golpe do baú" (provavelmente com um parceiro por trás pois, já cá se sabe, as mulheres não são muito inteligentes) que correu mal. Assim não, é apenas uma história, simultaneamente trágica e moralizante, de "uma vida perdida" de um jovem iludido, um aviso a todos os jovens para não se deixarem seduzir por iguais enganos e a confirmação da "violência da comunidade homossexual" (como o inefável Arroja defendeu, num post que, por pudor, me recuso a indicar), embora o gay é que tenha sido assassinado, mas que interessa isso? No fundo, estava a pedi-las, não estava?

P.S. - desculpem o desabafo extra, mas o Renato é "uma vida perdida"? mas um preto escarumba da Cova da Moura que mate alguém não é isso, pois não? é apenas um assassino que merece a pena mais pesada possível, e isto porque infelizmente em Portugal foi abolida a pena de morte, certo?

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