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Oscilo patetices ou o pato de vinte milhões

Nos últimos tempos e por razões que me ultrapassam os nossos media têm feito propaganda em doses nada homeopatetas ao Oscillococcinum, que, supostamente, seria a panaceia ideal para a vulgar constipação, na realidade uma banha da cobra, perdão, pato, dos laboratórios Boiron, os tais que recentemente quiseram comprar «respeitabilidade» para a sua charlatanice financiando a universidade de Zaragoza.

 

Penso que não seja segredo que se há charlatanice que me maça é a homeopatetice, pelas razões evidentes. E, por muito que se explique o que é de facto a homeopatetice, persistem uma série de lendas urbanas que importa desmistificar sobre a coisa alimentadas pelos que lucram, muito, com as banhas da cobra. Contrariamente ao que pensam os que a apresentam - em conjunto com «medicinas (?) alternativas» com nomes vagamente orientais, como Hado, Johrei ou reiki- como alternativa à depreciativamente denominada medicina ocidental ou convencional, a homeopatetice é um produto genuinamente ocidental e muito pouco «tradicional». De facto, a homeopatetice foi «inventada» em 1796 por um médico alemão, Samuel Hahnemann, e nunca foi tradicional em lado nenhum.

 

Outro mito seria a «naturalidade» da homeopatetice que não conteria «químicos», um disparate total porque tudo tem «químicos», tirando o vácuo absoluto. Uma determinada molécula ou químico é sempre igual independentemente da sua origem, o prefixo bio ou o 100% natural no nome de um composto químico não lhe altera as propriedades. Por exemplo, a aconitina é sempre um dos mais violentos venenos para o sistema nervoso quer a sua origem seja um tubo de ensaio ou o acónito (Aconite) utilizado nas formulações sacudidas homeopatetas. Assim como são tóxicos o arsénio, o cobre, o cádmio,  o enxofre ou o mercúrio, quer os designemos pelos seus nomes comuns quer por aqueles que se encontram nas bulas(?) homeopatetas   (Arsenicum album, Cuprum metalicum, Cadmium, Sulfur e Mercurius solubillis). Para além de metais, o arsenal homeopateta dispõe de outros compostos inorgânicos que não são exactamente simpáticos como o sulfureto ou sulfeto de cálcio(Hepar calcies) ou que são tão de sintese como a aspirina, por exemplo a Calcarea Phosphorica, fosfato de cálcio preparado a partir de ácido fosfórico e hidróxido de cálcio.

 

Por outro lado, embora o fenol (carbolicum acidum) seja um composto muito útil no embalsamento, não tem certamente as virtudes que os homeopatetas lhe atribuem. Outros ingredientes, como o veneno de cobra surucucu  (Lachesis trigonogaster), veneno de cascavel (Crotalus horridus), aranhas inteiras (Tarentula Hispanica), escaravelhos (Cantharis),  leite de cão (Lac canidum) testículos crus de boi, abelhas esmagadas (Apis mellifica) e afins são apenas bizarros ou bizarros e venenosos.

 

Assim, embora se contem algumas plantas nos ingredientes homeopatetas, para além do acónito, por exemplo, hera venenosa (Rhus toxicodendron, supostamente para «curar», por exemplo, as assaduras dos bébés), beladona (Belladonna, extremamente venenosa ), noz vómica (Nux vomica, de que se extrai a estricnina] ou a cicuta que matou Sócrates (Conium), a homeopatetice não é fitoterapia.

 

Então o que é a homeopatia? A homeopatetice continua a assentar nos dois princípios definidos há 200 anos por Hahnemann: o primeiro que «semelhante cura semelhante» (Similia similibus curantur), ou seja, que aquilo que põe doente uma pessoa saudável cura sintomas semelhantes numa pessoa doente. Felizmente o segundo princípio impede que a homeopatetice, dada a extrema toxicidade de alguns dos seus ingredientes, mate directamente os seus pacientes - embora, como o post Charlatanices e SIDA - Uma história de horror ou o vídeo no final do post ilustram, possa ser extraordinariamente perniciosa. Este segundo princípio reza que doses cada vez menores de um «medicamento» (?) são cada vez mais eficientes através de um processo chamado "potentização", basicamente diluições sucessivas 1 para 100 em que entre cada diluição o remédio deve ser vigorosamente sacudido. Essa sacudidela mágica, ou sucução, supostamente liberta a «energia curativa» do remédio, o que quer que isto seja.

 

O que nos traz de volta ao Oscillococcinum, um extracto de fígado e coração de pato diluído a 200C, isto é, diluído 200 vezes 1 para 100 ou uma diluição 1 para 10400 ou uma diluição 1 para 10 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000  000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000.

 

O que significam todos estes zeros? Simplesmente que as tais pílulas que se vendem a cerca de 2 euros cada são pura e simplesmente açúcar. Para ver o absurdo da coisa, admitamos que existe uma molécula de Oscillococcinum no Universo e calculemos a concentração homeopateta dessa molécula. Sabendo que o número estimado de partículas no Universo observável e inferível é cerca de 1080, é fácil de calcular que a concentração da coisa, em todo o Universo, é cerca de 40 C, para obter 200C precisariamos de muitos milhões de Universos.

 

Por outras palavras, falar em concentrações 200C, aliás, dizer que algo foi sujeito a uma diluição superior a cerca de 12C, é algo que não faz qualquer sentido químico, é gozar descaradamente com o pessoal - e fazer um lucro obsceno com a coisa pelo meio. No seu número de Fevereiro de 1997 a U.S. News & World Report apontava o óbvio: apenas um pato por ano era necessário para a Boiron fazer, em 1996, agora essa é a receita só nos EUA, 20 milhões de dólares com a banha da cobra. A revista chamou ao pato "the $20-million duck" mas diria que os patos são os que caem nas tretas homeopatetas sem se procurarem informar sobre o que é de facto.

 

Enfim, há quem caia na treta do memorial da água, uma impossibilidade química introduzida por um imunologista francês, Jacques Benveniste, ou antes, por uma sua colaboradora, Elisabeth Davenas, que Benveniste convenientemente «esqueceu» de informar ser paga exactamente pela Boiron. Embora John Maddox, o editor da Nature que, nunca percebi bem porquê, publicou o artigo de Benveniste - que pretendia que uma solução infinitamente diluída de anticorpos conseguia activar glóbulos brancos devido à tal «memória da água» - com uma reserva editorial que afirmava «Os leitores deste artigo podem partilhar a incredubilidade de muitos referees», tenha desmascarado a coisa* com a ajuda de James Randi e Walter Stewart, um perito em fraude científica, ainda há muito quem acredite nesta palermice. Eu, que consumo água da torneira com proveniência no Tejo, sujeita a muitas sacudidelas no processo de purificação e transporte, prefiro nem saber o que a água que bebo solvatou no passado. E agradeço encarecidamente a total amnésia da água cada vez que contemplo o que flutua noTejo.

 

*Repetiram, em ambiente controlado e no laboratório de Jacques Benveniste, as tais experiências da memória da água. Os três não demoraram muito a refutar as pseudo-experiências subsidiadas pela empresa homeopateta e publicaram, logo na edição de Julho de 1988, o artigo «'High-dilution' experiments a delusion», em que, simpaticamente, embora apontando que dois dos colaboradores de Benveniste eram pagos pela Boiron, afirmavam que não tinha havido má fé do senhor, apenas péssima ciência e ilusão.

As conclusões do trio de investigadores foram as únicas possíveis: «A hipótese de que se pode imprimir na água a memória de solutos passados é tão desnecessária quanto quimérica (fanciful no original)».

 

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