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ser o quê

“O que é que queres ser?” É daquelas clássicas de conversa com miúdos. Perguntamos mal percebemos que são capazes de perceber a pergunta. Sabemos que vai sair qualquer coisa como bombeiro, polícia, cowboy, astronauta, condutor de automóveis ou tratador de animais, cientista ou veterinário, conforme a brincadeira que estiver no auge ou a série da berra (OK: isto se calhar era dantes, agora é mais top model, cantor, estilista, actor de novelas ou profiler). Às vezes, porém, ainda nos sai a sorte grande: cão (eu quis ser cão tanto tempo). Ou cavalo, ou, pronto, tiranossaurus. Ou princesa, como a minha amiga Alexandra – os pais disseram-lhe que podia ser o que quisesse e ela quis.

 

É uma pergunta que vamos fazendo à medida que eles crescem. A dada altura, já não é sobre o que querem, mas sobre o que “vão ser”. É a altura em que já têm de fazer opções na escola, escolher vias, disciplinas, áreas chave. É sempre muito cedo: 14, 15 anos, e projectar uma recta no vácuo, no infinito do que virá. Modular assim, como quem lança dados, a linha da vida. Escolhe-se como? A partir de quê? Há, claro, quem tenha isso que se chama vocação, ou essa superlativa distinção a que chamamos talento. Ou quem, por contexto familiar, seja conduzido inelutavelmente a assumir um negócio, uma empresa, uma função. Os outros – quase todos – entregam-se ao acaso. Pensam: “Isto é capaz de ser giro”. Ou “gosto de matemática, se calhar vou para economia”. Ou: “adoro escrever e quero conhecer e mudar o mundo, vou ser jornalista.” Ou “desenho tão bem, tentarei as artes”. Haverá quem tenha a sorte (ou azar?) de tropeçar num ofício, daqueles que se aquilatam cedo nos dedos: carpintaria, por exemplo, ou a alquimia dos fusíveis e dos interruptores, a mecânica dos motores ou das torneiras. Haverá, enfim, quem aterre na improbabilidade daquelas funções com que, dir-se-ia, ninguém sonha: agente funerário, por exemplo.

 

E um dia já ninguém pergunta. Um dia, de repente, já somos qualquer coisa. Pode não ser o que queríamos, pode não ser o que somos, mas estamos ali, solidificados numa pose, numa palavra qualquer. Seja o que for, seja como for que ali fomos parar, passou a ser um sinónimo do nosso nome, de nós. Quantos empregados de balcão se imaginaram a tirar cafés ou a medir tecido, a embrulhar jóias ou a aconselhar cremes, a pesar laranjas ou a cortar fiambre, quando alguém lhes perguntou o que queriam ser? Houve mesmo quem quisesse ser coveiro, ou recolher o lixo? Houve quem sonhasse coser numa fábrica ou desmanchar reses num matadouro? Quantos sonhos pelo caminho até chegar a operador de PBX, ou encarregado de portaria, ou empregado de limpeza – e não, não é desprimor, é apenas óbvio que não é de actividades assim que se faz a gesta das aspirações. Mas, na verdade, a dúvida aplica-se a todas. Quantos cientistas se imaginavam, sem um Nobel nem a cura do cancro, a dissecar ratinhos e analisar gráficos toda a vida? Quantos professores queriam mesmo ensinar, passar anos a repetir a mesma matéria, a mandar calar o miúdo do fundo, a corrigir exames, a calcular notas? Quantos médicos se arrependem de ter escolhido isto, a intimidade com a dor e com a decadência, o confronto, corpo a corpo, com a sua essencial transitoriedade? Quantos designers de moda se cansam de projectar novidade, quantos actores se desgostam de encarnar destinos e paixões, quantos jornalistas secam a curiosidade e a empatia?

 

Sim: afinal quantos de nós, adultos que “são” um qualquer nome de função, seriam capazes de responder, sem hesitar, sem embaraço ou calafrio, à pergunta que antes parecia uma brincadeira, um desafio ingénuo, indolor, inofensivo? Quantos sabem dizer como foi que vieram aqui parar, em que momento aquilo que respondiam passou a ter o peso de um  fado, de um caminho sem regresso? Quantos são o que quiseram ser e quantos, sendo, não são? Podíamos pensar nisso, a próxima vez que nos surpreendermos ou inquietarmos por uma criança dizer “não sei”. Não sabe ninguém.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 6 d fevereiro)

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