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jugular

queremos um talibanato?

joão miranda explica, com a concisão simplista que é seu apanágio, por que motivo é tão urgente que o projecto inclusão, da rede ex aequo com apoio da comissão para a cidadania e igualdade de género e da embaixada da noruega, tenha o apoio vigoroso do ministério da educação.

 

quando há quem considera que lutar contra a homofobia em meio escolar, ou seja (melhor explicar, não é?) tentar evitar que crianças e adolescentes sejam perseguidos e discriminados por outras crianças e adolescentes por causa da sua orientação sexual, é 'propaganda política' e 'uma questão que divide a sociedade', é óbvio que é preciso não só colocar esta campanha em todas as escolas como fazer muitas outras.

 

porque, embora se tenha a noção de que o joão miranda não percebeu o que está a dizer (é uma noção muito comum no que respeita ao que o joão miranda diz), o que o joão miranda está a dizer é que a sociedade portuguesa está dividida entre achar que se devem perseguir e discriminar os homossexuais, neste caso, as crianças e adolescentes homossexuais, e que achar que isso é ou não uma coisa boa é uma mera questão de opinião, ou seja, que é tão respeitável achar que os homossexuais devem ser perseguidos como achar que não devem. o joão miranda está aliás firmemente convencido de que a maioria da sociedade portuguesa é a favor da perseguição e discriminação dos homossexuais -- e, mais, acha que nada, absolutamente nada, deve ser feito contra isso (se a maioria da sociedade portuguesa achasse que deviamos perseguir e discriminar os joões mirandas por se chamarem joões mirandas, suponho que ele acharia que as escolas públicas deveriam ser coniventes e até cúmplices, como deve achar que se a maioria da sociedade portuguesa achasse que era de fazer excisão genital a toda a gente, pumba, fazia-se e não se discutia, nem pensar em contrariar o que 'toda a gente' acha, porque essa cena do bem e do mal é 'questão de opinião' -- e que, portanto, aquela cena da declaração universal dos direitos das pessoas é um abuso).

 

podia, claro, lembrar o joão miranda que a constituição portuguesa e uma felizmente já bastante apreciável bateria de leis são muito claras a condenar a perseguição e a discriminação dos homossexuais ou de qualquer pessoa com base nas suas orientações sexuais e que é conveniente que o estado observe as suas próprias normas, mas nesta matéria nem devia ser preciso recorrer à grandiloquência das leis, bastaria uma coisa tão simples quanto o bom senso (e talvez um bocadinho de imaginação, para quem precise de se projectar no lugar daquele que, como é o caso, se vê como 'outro').

 

percebo, claro, como percebe o joão miranda, que há pessoas -- os pais de que fala o joão miranda, por exemplo -- que acham que a homossexualidade é uma coisa horrorosa e que a forma de a 'combater' é fazer sofrer o mais possível quem a 'tem', mesmo que se trate dos seus próprios filhos. percebo e sei que assim é, e é precisamente por isso que o estado de um país que se queira decente deve fazer o possível e o impossível para obviar a esse sofrimento. já basta a essas crianças o sofrimento de ter pais tão monstruosos -- que ao menos na escola possam ser respeitadas e sentir que não são aberrações.

 

não deixo, porém de assinalar um pormenor curioso: é entre os que se mandam ao ar com o que é uma óbvia corporização das normas constitucionais de respeito pela liberdade, autonomia e direitos fundamentais de personalidade que se encontram os maiores defensores da manutenção de símbolos religiosos nas escolas públicas (essa, evidentemente, inconstitucional por colidir frontalmente com a liberdade religiosa e o princípio da separação). são esses que dizem que os crucifixos não significam nada, são só decoração e 'símbolos culturais' que não admitem que um cartaz com três miúdos a dizer 'estão bem' com as orientações sexuais uns dos outros possa estar na parede das escolas. é capaz de ser altura de esta gente começar a mexer-se para mudar a constituição: para que o estado português passe a aprovar a perseguição e discriminação das pessoas com base na sua orientação sexual (e, quem sabe, na sua opção religiosa, na cor da pele, na altura, na massa corporal, no tipo de sapatos que usam) e para que se institua uma religião oficial. enfim, um talibanato. e levem isso a votos, ok? tenham essa coragem, ao menos.

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