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não reclamados

Estou a almoçar com uma amiga quando recebo o telefonema. “É do hospital X”, diz a mulher. “Está aqui uma pessoa que talvez conheça”. O coração galopa: um atropelamento, um acidente, alguém da família, um amigo que chama por mim? Não: o nome nada diz. Mas o número de telefone é mesmo o meu, o nome é mesmo o meu. Quem é essa pessoa, que faz, que idade tem? “36 anos, sem ocupação ultimamente”. Mais nada. Não é possível falar com a pessoa – “Não pode falar”. Não é possível saber por que está no hospital, se por acidente ou doença. Não é possível saber como chegaram a mim a não ser isto: “A pessoa tinha o seu contacto”.

 

Inquieta e intrigada, pondero ir ao hospital. Ver um doente, um internado em coma, inconsciente? Talvez se faça luz. Mas tenho medo – medo de entrar nesta história que intuo ser tão desolada, medo da tristeza, do sem remédio que adivinho na voz da mulher que me liga, uma voz funcional, de quem cumpre um dever, de quem todos os dias faz isto e já não repara que ligar a alguém e dizer “é do hospital por causa de uma pessoa que aqui está” estremece na instantânea narrativa de dor, de pavor. Não, não vou. Contacto alguém que conheço no estabelecimento. Passadas umas horas, sei o nome completo e a última morada conhecida (ou relatada, inventada?) do homem. Sei o que o levou ao hospital, onde esteve internado nos últimos meses. E sei que morreu de madrugada. Que o hospital procura quem reclame o corpo. Que, para além da morada, a única referência é o meu número e o meu nome, num papel.

 

Um homem que não recordo, que não consigo perceber de onde ou como me conhece, tinha consigo isso: um papel comigo. Sou o elo deste morto com os vivos, um elo contingente, relutante. Existir para alguém que não existia para mim até este momento, o momento de não existir mais, o momento em que inscreve o seu nome, o seu destino, na minha história. Ser algo – o quê? – para este homem. Um nome, um número: talvez ele pensasse que isso o acompanhava. Ou um acaso, um papel que ficou ali, esquecido. Quem sabe. Ninguém para responder. Ninguém provavelmente para reclamar esse corpo tão só, para o levar para o lugar onde o levarão. 36 anos e este silêncio, este deserto – e eu. Um conto de Auster, uma novela de Chandler a começar assim: um filme negro, um morto que fala comigo, que me diz: descobre-me, ouve-me, segue o meu rasto. Lembra-me. Um eco nos corredores desse hospital, um mistério selado nesse papel que já está no lixo, amarrotado, sem uso, como o corpo que ninguém vela.

 

Penso nele, o homem do papel, perante esta epidemia de mortos descobertos em casa (melhor dito: esta epidemia da descoberta de que as pessoas morrem, e tantas vezes, quando idosas, em casa). Penso nele e em todos os mortos não reclamados que ao fim de um mês (mês e meio?) nas gavetas do Instituto de Medicina Legal seguem sem cortejo para o enterro ou a cremação. Penso nele enquanto leio, oiço, vejo debates e reportagens infindas sobre “a solidão nas cidades”, “o abandono dos idosos”, a “desumanização” não sei do quê. Penso como é possível que se desvie assim a conversa, que se restrinja a ideia de solidão e abandono a esta era e a essa categoria – idosos, como se fosse uma raça diferente – como se não houvesse tanta gente nova só, e como se não houvesse solidões optadas, escolhidas, como se não tivesse havido sempre corpos ignorados, esquecidos (estão a brincar com isto das cidades, só pode – que melhor sítio para morrer e nunca mais ser encontrado que o campo?). Como se a morte não fosse inevitável e não morrêssemos sempre sós, por mais que à volta haja gente. Como se o tempo e a sua lei surda não nos cercasse a todos, sem apelo, levando, se durarmos o suficiente, quase toda a gente que nos ama e que amamos. Como se, culpando alguém, ou uma noção de culpa mais ou menos colectiva, exorcizássemos o óbvio: que no momento de morrer, seja ele onde e como for, os outros serão para nós o que fui talvez nesse papel para aquele homem: uma esperança vã, nada.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 20 de fevereiro)

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