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crónica efémera sobre um tema perene

Há poucos dias tive ocasião de alinhavar e apresentar uns quantos apontamentos sobre uma obra que envolve directamente a relação da Europa com o mundo árabe, o seu longo rosário de equívocos e mal-entendidos e, sobretudo, o conhecimento da academia "ocidental" sobre as realidades, historicamente consideradas, do "Oriente". O Orientalism de Edward Said veio inevitavelmente à baila, tanto mais que a obra em causa é uma vigorosa crítica ao célebre crítico e ao seu trabalho. E já em período final de troca de impressões, no qual um grupo de irredutíveis resistia ao apelo do jogo de Benfica já começado ou a ameaçar início e mantinha-se firme a expor algumas ideias, falou-se, entre desabafos e sorrisos irónicos, em Portugal. Portugal, onde estas temáticas do "orientalismo" estão (e sempre estiveram) completamente arredadas dos interesses das pessoas, onde a obra de Said (de 1978) só foi traduzida mais de 25 anos depois da edição original e onde o livro-mote da sessão ("For Lust of Knowing", de Robert Irwin) está e estará certamente inédito para toda a eternidade (mas já tem tradução brasileira).

E falou-se no desinteresse português sobre tudo isto, a forma como o debate desencadeado por Said, que modificou para sempre a percepção que o Ocidente tem do mundo árabe e que praticamente cindiu o mundo académico em dois campos, esteve e está ausente por aqui. Portugal é um país em reprise, onde andamos sempre desfasados e em eco. E achamos que estar em "cima do acontecimento" é possuir a maior árvore de Natal da Europa, o maior centro comercial da Península Ibérica ou ter o lançamento do Ipad em simultâneo em New York e no Dolce Vita da Pontinha. Não é novidade, sempre foi assim. "Sempre foi assim mas está a ser diferente"? Nem por isso. Ontem, as headlines do noticiário da RTP-1 do horário nobre foram, em primeiro lugar e antes de mais, a saída de Paulo Sérgio do Sporting, depois o caso dos dois jovens desaparecidos numa falésia e, por fim, os portugueses repatriados da Líbia. Fiquei esclarecido.

O turbilhão que envolve o mundo árabe é algo de inédito e de desconcertante. Não são "revoluções islâmicas", não são intervenções americanas em nome de uns quaisquer freedom fighters, não são turbulências pontuais causadas por problemas locais. É toda uma maré de mudança, com epicentros na Tunísia, no Egipto, no Bahrein, no Iémen, e agora na Líbia. O desejo de liberdade, um ya basta!, um cry freedom das massas exigindo liberdade, justiça e a deposição das cúpulas que durante décadas as governaram. As imagens que a Fernanda assinalou, aqui e aqui, são das coisas mais comoventes a que assisti nos últimos tempos. Não me importa a ingenuidade de que alguns, mais cínicos, me possam acusar. Vieram-me à ideia outras imagens, algumas velhas de quase 37 anos, aqui em Portugal, numa quinta-feira de Abril. A explosão da alegria da libertação é sempre impressionante. E enquanto as potências oscilam entre o calculismo, a prudência e o imperativo categórico de reagir, o mundo treme com os riscos de desestabilização que daqui decorrem. O preço do petróleo já está galopante e temem-se os efeitos bola-de-neve a médio prazo. E se alastra ao Irão, à Arábia Saudita, a todo o Médio Oriente? E se adquire tonalidades nacionalistas, "islâmicas", anti-ocidentais? E se ameaçam Israel? E se se transformam numa arma de um novo movimento pan-árabe ou pan-islâmico? Quem já leu o Dune sabe do que falo.

Na tal sessão referi este assunto de fugida (a hora avançada não dava para mais), que agora desenvolvo: a consciência ocidental tem os seus limites, que hão-de ser postos à prova. A nova conjuntura, inesperada, desconcertante, desafia a percepção que temos destas sociedades (tradicionalmente vista como uma cáfila de brutos, de camelos, de barbudos ou de fanáticos), desafia-nos sobretudo a repensar todos os preconceitos enraizados e a colocar todo um novo leque de problemas, que ligam o passado ao futuro, o nosso olhar à realidade concreta e vivida pelas gentes que estão nas ruas. Há uma especialmente perturbante: apreciamos, aplaudimos, rejubilamos com a emancipação popular, mas estaremos dispostos a pagar o seu custo?

O nosso conforto, de consumismo instalado, transporte pessoal movido a combustível fóssil, segurança nos horizontes e nas expectativas, assenta, entre outros pilares, no petróleo explorado por oligarquias tirânicas, por máquinas corruptas enriquecidas e dominantes, que deixam a generalidade dos povos na miséria. Com a conivência de multinacionais petrolíferas, agrícolas, químicas, industriais. E se amanhã os sauditas (10,7% da produção mundial em 2006) os angolanos, os nigerianos, todos povos dos países da OPEP exigissem liberdade, democracia, o fim dos nepotismos e das autarcias, uma justa redistribuição dos lucros? E, já agora, quem nos fabrica têxteis, bens de consumo e tecnologia em condições miseráveis e ao preço da chuva, quem no chamado Terceiro Mundo se vê inevitavelmente empobrecido pelas agriculturas ocidentais, protegidas por subsídios maciços que impedem a verdadeira concorrência nos mercados mundiais, quem recebe cêntimos pela produção de ananás que chega aos nossos supermercados mais barato do que as maçãs mediterrânicas, quem vive das espinhas podres da perca do Nilo pescada nos lagos de África enquanto os europeus saboreiam os lombos? E se amanhã todos exigissem liberdade, democracia, justiça? Onde ficaria a nossa simpatia? Rezaríamos pelo regresso dos Qadaffis, dos Mubaraks (e dos Eduardos dos Santos, dos Mugabes, dos Mobutus e de tantos, tantos outros)?

Em Portugal, estas temáticas andam arredadas. Nem falo do real interesse em saber o que é, como se desenvolveu e evoluiu, quais os problemas que envolvem e os desafios que se colocam ao mundo árabe, ao Magrebe, ao Islão. O que realmente se passa, porquê agora e desta forma. O que se vislumbra são os sinais habituais. Da situação na Líbia, a mais premente, a mais nítida e brutalmente evidente, interessa, recapitulando: 1. se os portugueses que lá estão já vêm ou não a caminho; 2. se a coisa faz subir a gasolina rápido ou rapidíssimo. Mas sobretudo, e antes de mais: se o substituto do Paulo Sérgio vai ou não ter sucesso. Isso é que importa. O resto resolver-se-á, quer a gente o discuta ou não, certo?

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