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Crónica de uma queda anunciada

São 19.30 e o país aguarda aquilo que já algum tempo parecia inevitável. Sócrates demite-se, o governo cai. Eleições no horizonte, corrida à vista. Durante uns meses, o país vai esquecer a crise, enquanto as máquinas partidárias dão polimento aos cromados próprios e escurecem os alheios, anuncia-se, promete-se, exalta-se. O que vier a seguir há-de ser melhor, o povo escolhe o seu caminho como é próprio de uma democracia. Porém, o que vier a seguir há-de sacudir-se, se for PSD/CDS atribuirá o ónus ao antecessor, se for PS culpará quem causou este compasso de espera. Uma coisa é certa: Portugal estará pior. Mas as consciências estarão lavadas e renovadas, as posições alinhadas, as sombras desvanecidas, as legitimidades rejuvenescidas. será hora de varrer os cartazes, arrumar as bandeiras e preparar a longa ressaca que aí vem. O fim da festa.

Confesso que esperei, durante algum tempo, que a crise política passasse ao lado. Afinal, um governo com meio mandato deveria ter fôlego para prosseguir. E as aflições dos últimos anos sugeriam consenso, coesão, emergência, tudo a remar para o mesmo lado. Houve quem desconfiasse que não iria durar muito, não há "estado de graça" (para mais desgastado por um mandato anterior) que resista a cortes draconianos, a doer, sem anestesia nem briefing adequado, sem clareza nem segurança nem sentido de justiça incontestável e incontestado, com tropeções, tiros no pé, remendos, confusões, injustiças e miopias. Mas eu pensei que a fibra nacional, que o sentido de cerrar fileiras, que o tecido social, fossem suficientes para aguentar o embate, o primeiro e os que aí espreitam. Não foi. Nem o governo foi capaz de agir com pleno sentido de estado, nem as oposições (várias, as políticas e as outras) estiveram à altura do que se lhes exigia. Todos se enredaram e enfeitiçaram, com o Presidente a presidir ao coreto, no tiro-liro de Hamelin que nos conduziu ao dia de hoje. Cavaco sai muito mal na fotografia, mas isto são opiniões minhas: esta última de dizer que aconteceu tudo muito rapidamente e que não teve tempo de tomar medidas preventivas há-de ficar nos anais do ridículo nacional. Teremos um Presidente desprevenido? Um colapso governamental anunciado com charanga, que toda a gente previa, menos quem mora em Belém.

Porém, talvez tenha sido melhor assim. A factura há-de doer, mas as pessoas suportam melhor as dores quando estão de consciência tranquila. E Portugal pode lavar da consciência os pecados que pendiam sobre este governo: o que vier a seguir não verá as canelas roídas a cada passo e a cada movimento. A situação era insustentável. Um governo desgastado e com mínimos de confiança. Há-de vir outro em "estado de graça". espero que o aproveite bem.

Por fim, a situação revela, uma vez mais, o que há dias chamei (plagiando um professor, etc.) de "insuficiência do político". Portugal continua a crer que o problema está em quem nos governa, no sistema, nos deputados, nos ministros, numa palavra, "neles". Um sistema democrático que construímos durante décadas mas que toda a gente desdenha. Faz parte da má-língua nacional, na desconfiança, impregnada nos genes, de quem franze o sobrolho ao vizinho, quanto mais ao deputado. O político é a expressão do resto, da sociedade no seu conjunto, das expectativas e anseios colectivos. Mas continuamos todos a achar que não. Enfim. Espero que tudo isto não desemboque em populismos, demagogias e "cesarismos", muito típicos de sociedades politicamente pouco amadurecidas e com baixo nível de cidadania e de espírito cívico mas que jazem latentes e que, em tempos de crise, se exprimem por "votos de confiança" em quem "tem fibra [para não usar outro vernáculo] para endireitar isto". Agora, com a vossa licença, são 20.00 h.

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