Total falta de vergonha na cara
John Gerard Bruton ou Seán de Briotún, primeiro-ministro da República da Irlanda entre 1994 e 1997, ficou muito maçado com o ímpeto reformador do novo ministro da Educação, o mesmo Ruairi Quinn que vemos neste vídeo a reagir ao relatório Ryan, o tal que revelou o abuso endémico de menores em escolas e instituições católicas.
Quinn, que está muito preocupado com a (má) qualidade do ensino irlandês traduzida numa descida abrupta nas performances dos alunos no PISA, pretende substituir a meia hora diária de doutrinação católica por ensino de matemática ou leitura e acabar com a preparação nas escolas de rituais católicos como a comunhão e confirmação. Para além disso, pretende acabar com o monopólio católico do ensino básico, que detém actualmente cerca de 90% das escolas primárias que o dinheiro dos contribuintes sustenta integralmente, por exemplo transferindo parte destas escolas para o Estado no âmbito do acordo que prevê que as ordens religiosas contribuam, o que não fizeram, uma parte do montante das indemnizações que o Estado pagou aos sobreviventes de abuso clerical - cerca de 1600 milhões de euros.
Como seria de esperar, as reformas que Quinn pretende empreender foram muito mal recebidas pela Igreja com coros ululantes de protestos sobre os males sociais que tal desiderato, supostamente, acarretará. Mas até agora ninguém reagiu tão veementemente como Bruton, que explicou que, a cumprirem-se os desejos do ministro, cair-se-ia em "religiões seculares" como o nazismo e o comunismo em que a dignidade humana não é reconhecida e campos de concentração, gulags, limpezas étnicas e outras atrocidades seriam facilmente aceites.
Dizer uma barbaridade completamente idiota como esta - nunca conseguirei perceber o recurso a argumentos ad naziumpara mostrar a superioridade "moral" da religião - numa altura em que o arcebispo Diarmuid Martin admite que, com talvez duas excepções, não conhece nenhum padre abusador que mostre remorsos pelos seus actos, é, no mínimo, total falta de vergonha na cara. Mas é completamente incompreensível, numa sociedade que durante décadas conviveu sem quaisquer problemas com as lavandarias das Madalenas e com abuso endémico de menores, venha com espantalhos de que sem a completa lavagem cerebral católica a que durante essas mesmas décadas todos foram submetidos não é possivel reconhecer a dignidade inerente a todas as pessoas.

