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o resgate do bolinhas

É um peluche branco-bege em fundo encarnado, irresistível e disponível, como só um cachorrinho, para todos os encantamentos e folias. A legenda da foto reitera, ainda assim: “É lindo e brincalhão”. Chamaram-lhe (coitado) “Bolinhas”, tem três meses”, e quem o adoptar “leva-o já chipado e vacinado”. É um anúncio no Facebook, inserido no grupo  “Vamos LIMPAR Portugal dos MAUS TRATOS e ABANDONOS AOS ANIMAIS!!!” Três exclamações, nem mais nem menos: é gente entusiasmada e entusiástica, esta, e, além de sensível, voluntariosa: gente que não se limita a lastimar a sorte dos animais abandonados, lança mãos à obra.   

 

Esta boa e entusiástica gente, porém, não suscita só parabéns e elogios pela seu notável combate pelo bem estar animal. Metade dos quase 400 comentários da página ignoram o Bolinhas e seus óbvios encantos. Está em causa a informação dada sobre a sua origem: “foi resgatado à etnia cigana”. Assim, sem mais. Ou melhor, com reticências: “O Bolinhas foi resgatado à etnia cigana...” As reticências, presume-se, encerram todo um mundo de subentendidos, para além dos claramente expressos – os de que um cachorrinho pode ser salvo de “uma etnia”. Não de uma situação de maus tratos, não de alguém que não cuidava dele como é exigível, mas de toda uma “categoria”. Como quem diz “fulano foi resgatado aos canibais” ou “sicrano foi salvo dos lobos” – num caso e noutro, a ideia de perigo subjacente ao colectivo justifica a imprecisão: não há este ou aquele canibal, porque os canibais se distinguem comer pessoas; não há este ou aquele lobo porque os lobos são animais selvagens. Para quem escreveu a legenda do Bolinhas, então, “a etnia cigana” comunga dessa ideia de perigo óbvio, sem necessidade de concretização ou mais explicações. Sem necessidade, sequer, de justificar o “resgate” de um animal que, depreende-se, seria de alguém e, portanto, estaria sujeito, de acordo com a lei – sim, há as leis, lembram-se? -- ao direito de propriedade.

 

Há quem avente isso mesmo: que, da forma como a coisa está posta, o delicioso Bolinhas foi roubado. Quiçá até porque ladrão que rouba a ladrão. Será essa pelo menos a perspectiva de tantos amantes dos animais (de pêlo) que respondem, com indignação e escândalo, às acusações de racismo: “Vejam bem a polémica que está aqui armada por duas palavras tão pequenas (etnia cigana)”, diz uma das respostas. “Isto não é um grupo sobre ciganos mas sobre animais abandonados; se querem defender os ciganos façam um grupo para isso”, diz outra. E há mesmo quem desista dos paninhos quentes: “Não estou a dizer que são todos, mas 95% [dos ciganos] são maus... Não venham dizer o contrário!”. Em sua defesa, a administração da página diz que o apelo reproduzido surgiu assim e não costumam corrigir os textos. À observação de que perante os protestos o deveriam ter feito, porém, ninguém responde. E mesmo quando se acrescenta na legenda da foto que o Bolinhas “já foi adoptado” a informação sobre o heróico “resgate” permanece intocada. Parece, pois, que quem administra esta página está confortável com a ideia de que se pode classificar “uma etnia” como perigosa (pelo menos para cachorrinhos) e justificar assim, pública e notoriamente, sonegar um animal, sem queixas à polícia, sem tribunais, sem recurso a isso que chamamos o Estado de Direito.

 

Estamos então, aparentemente, perante aquilo a que se dá o nome de acção directa, ou milícia, conforme estejamos ou não de acordo com o feito. Contactada uma das responsáveis pela página (o número de telefone está disponível na mesma), Augusta Pereira, esta informa que está a administrar um abrigo de animais em Torres Vedras e que  no meio de 150 cães não tem tempo para falar do Bolinhas, até porque já foi adoptado. Descarta a responsabilidade pela redacção do texto – “Não sei quem foi” – e recusa qualquer esclarecimento sobre as circunstâncias em que o cão foi encontrado e retirado a quem o detinha: “Mas quem é a senhora para querer saber isso? Com que direito me quer obrigar a dizer? O cão não era seu de certeza.” Afinal, tudo uma questão de propriedade – a não ser, claro, que eu seja “da etnia cigana”. Abaixo de cão, portanto.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 3 de abril)

 

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