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os oráculos belfos

Desde o anúncio do pedido de ajuda ao FMI, os debates televisivos tornaram-se (ainda mais) sessões de flagelação colectiva, em que gente supostamente independente e séria elenca "todos os erros" que "nos levaram à bancarrota". Quase invariavelmente, porém, os erros todos, a crer no que se diz nesses conciliábulos, ocorreram nos últimos, vá, dez anos (para se poder culpar o partido que está no governo). Ou, com boa vontade, nos últimos 37 (desde o 25 de Abril). São, portanto, tudo "erros da democracia", e têm a ver com coisas horríveis como "gastos do Estado" e "termos querido viver acima das nossas possibilidades".

 

Por exemplo, nos últimos dias, assisti ao espectáculo de Medina Carreira a elogiar a superioridade do Estado Novo na contenção orçamental perante um pivô incapaz de lembrar o país miserável (com mortalidade infantil a níveis africanos, uma taxa de iliteracia brutal, e redes de electricidade, esgotos, água canalizada e viária ínfimas, para citar apenas evidências inquestionáveis) que disso resultou. E a um sermão de Vítor Bento, acolitado por Morais Sarmento e António José Teixeira (perante um Francisco Assis em suplício), sobre "a perda dos valores" associada por este à diminuição da religiosidade (sem religião pode lá haver "valores") e que responsabiliza pela "corrida ao lucro pelo lucro" que "nos trouxe aqui" - sem alguém aconselhar ao conselheiro de Estado a leitura de Os Esteiros ou de Oliver Twist (para nem falar da escravatura propriamente dita), observando-lhe, de caminho, que o que apelida de "perda de valores" é quiçá a extensão a toda a sociedade das expectativas e prerrogativas de boa vida e conforto que antes eram privilégio das classes opressoras. Para terminar num obsceno Otelo a reivindicar o copyright do derrube da ditadura e a asseverar que "se soubesse que era para isto" ficava em casa (ou assim).

 

Acresce a isto a repetição, nos noticiários, de coisas como "há cada vez mais pobreza", "nunca houve tanta desigualdade" e "a mais alta taxa de desemprego de sempre". Os absolutismos dão, é certo, imenso jeito ao escrever peças, mas de vez em quando podiam misturar-se uns factos. Lembrar que as estatísticas de desemprego actuais só são comparáveis com as efectuadas com os mesmos pressupostos - alguém sabe quanto era o desemprego na pré-democracia? - e que a pobreza diminuiu nos últimos 20 anos (como atesta o último relatório da OCDE). E tendo a pobreza diminuído, o aumento da desigualdade significa que as camadas "de cima" da população têm "progredido" mais depressa que as "de baixo". O que não sendo bom não é "cada vez pior".

 

Pedir ainda que alguém lembre que muito do que se passa é consequência da maior crise económica mundial desde 1929 e das suas ondas de choque é decerto de mais. Estamos em campanha eleitoral, bem sei. Mas, ia jurar, só nas democracias há eleições. E jornalismo. A sério.

 

(publicado hoje no dn)

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