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jugular

visto para fora

De cada vez que dou comigo a referir a alguém o estado do piso de Lisboa (que é, já agora, um dos meus principais motivos de irritação quotidiana) e nomeadamente do seu centro – porque é onde mais me desloco a pé -- já espero ouvir o estribilho do costume: “Ainda por cima nesta zona, o que é que os turistas hão-de pensar”. Espero, bem entendido, por aquilo que não cessa de me pasmar e encanitar. É que, para tanta gente, quem vive e trabalha na cidade e nela torce os pés, tropeça, dá cabo do calçado e arrisca o proverbial malho aqui e ali ao longo da vida nada vale, aparentemente, face aos que vêm de fora para a visitar por uns dias e, ainda por cima, quase sempre de ténis ou chinelos de meter no dedo ou então de camioneta até à porta da casa de fados: o que importa mesmo é o que os outros (“os estrangeiros”) “ficam a achar” do país.

 

Volta e meia, leio até este tipo de argumento (com muitas aspas) em colunas de opinião: ai, o que vão pensar os turistas da sujidade do Bairro Alto (tipo, não interessa para nada o que nós pensamos, o que pensa quem lá vive, quem lá trabalha e quem lá vai ao restaurante ou aos copos todas as semanas), e como é que o presidente da Câmara não resolve aquilo – quiçá prendendo toda a gente ou assim -- antes que hordas de suecos saiam de lá aos berros de escândalo enquanto nós, os autóctones, nos rebolamos, deliciados como porquinhos, naquela nojeira. Custa-me imenso, confesso, perceber que raio vai na cabeça de quem assim analisa os problemas da sua terra, os seus problemas: na perspectiva de um olhar exterior, com vergonha do que os vizinhos vão pensar, como se a nossa dignidade essencial – a que reside no que pensamos de nós – se tivesse perdido algures ou nunca tivesse existido.

 

Só esse olhar exterior, afinal, nos permitiria então aferir da nossa valia ou identificar com rigor os problemas e as soluções. E então, só então, fazer diferente, emendar, melhorar. Como se, afinal, geríssemos um hotel, dependentes do que os eventuais hóspedes pensam do seu conforto, e não vivêssemos nós mesmos no edifício. A não ser que a ideia seja carecermos de capacidade crítica face ao que é nosso e precisarmos da inultrapassável argúcia de alienígenas, da sua visão distante e “desinteressada”. Sim, deve ser isso: note-se, por exemplo, a forma como as notícias sobre Portugal “no estrangeiro” são notícia por cá: sempre com uma aura de espanto e reverência, como quem se maravilha por “eles” repararem que existimos. E o maravilhamento reverente é ainda maior se o que é dito for desfavorável ou até selvático. Opera-se inclusive o milagre de vermos repetirem-se por cá como verdades, desde que estabelecidas noutras línguas, aquilo que se sabe serem falsidades retintas (enfim, não tanto um milagre nos dias que correm, mas isso é conversa para outro dia – talvez).

 

Do mesmo modo, a tendência de qualquer português quando lhe é posto um micro à frente “lá fora” é tentar colocar-se à altura desse olhar que projecta (deseja?) implacável, cascando o mais que sabe e pode no seu país, de preferência com elucubrações qb históricas. Pensa que só assim poderá ser sério ou levado a sério – como poderia sê-lo se lhe desse para discorrer sobre a excelência, a grandeza ou as vantagens do seu país, que, como é claro, “lá fora” toda a gente sabe, de fonte segura, que não presta para nada? Esta mescla deplorável de auto-comiseração e complexo de inferioridade com uma peculiar mania da grandeza – a de se fazer parte do pior, mais miserável, mais incapaz país do mundo – é feita de muita ignorância e pacovice (nomeadamente, o completo desconhecimento de termos de comparação e a infantil crença de que toda a outra gente vive em terras de leite e mel) mas é sobretudo uma forma de automutilação. E nada melhor para alimentar este vórtice desgraçado que a virtualidade de uma intervenção externa: é o cumprir da sina. Para, de cerviz curvada, podermos comprazer-nos no decreto do último rei. Ser uma piolheira com papel passado, carimbo e certificado. Internacional, como deve ser.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 10 de abril)

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