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In Memoriam

 

Foi ontem anunciada a morte de Vitorino Magalhães Godinho. A Shyznogud e a Irene já prestaram a devida homenagem ao homem, ao cidadão, ao intelectual e ao historiador. Não podia, contudo, deixar de acrescentar algumas palavras e de destacar alguns aspectos do significado que teve, para mim, aquele que foi talvez o maior historiador português da 2ª metade do século XX, autor da mais marcante, inovadora e abrangente obra historiográfica das últimas décadas. Vitorino Magalhães Godinho marcou várias gerações de historiadores, antes e depois da minha. Ninguém, nos anos 80, ia para História sem sentir um fascínio especial pelo autor que, logo nos manuais do 10º ano, nos mostrava uma História-Ciência, longe das estorietas heróicas, bolorentas e com ar de romance de cordel que ainda ecoavam, mas também distante da história-daguerreótipo que igualmente proliferava, cheia de chapas, tiques e receitas universais tão inexoráveis quanto simplistas. Magalhães Godinho foi também um intelectual que pensou e reflectiu sobre a democracia, a cidadania e o futuro de Portugal. Foi simultaneamente incompreendido e idolatrado, reverenciado pela frente e desdenhado pelas costas, vítima, primeiro, do "obscurantismo salazarista" de que falava Barradas de Carvalho e, depois, do turbilhão do Portugal pós-74, onde nunca se adaptou, não compreendia e com o qual não pactuava. Foi ministro e director da Biblioteca Nacional, demissionário, em rota de colisão com o mundo da política, a feira nacional das vaidades e o carrossel mundano dos poderes e das influências. Um intelectual endeusado por uma legião de indefectíveis, também. Ainda hoje não é pacífico criticar a sua obra e os seus erros (que não foram poucos). Morreu na noite de terça, suscitando um coro de homenagem unânime. Não seria mau se não o fosse tanto.

 

Em 1985, pouco depois de ter comprado e lido avidamente o "Portugal - A Pátria Bloqueada e a Responsabilidade da Cidadania" (Ed. Presença), discuti a figura e a obra daquele que já então era uma figura tão venerada quanto ignorada com um conhecido meu, da área do Direito, pouco dado a reverências historiográficas a que eu era naturalmente atreito. Disse-me ele algo semelhante às célebres palavras de Pinheiro de Azevedo sobre Otelo, no Verão de 75, mutatis mutandis: "tem o seu lugar na Revolução, sou amigo dele, mas não me resolve coisa nenhuma", ou seja, era um sábio respeitável, tinha muita razão naquilo que dizia, mas quando teve oportunidade para agir, demitiu-se, alegando as inevitáveis razões de não ter meios nem autonomia para fazer o que devia ser feito. Infelizmente, a política é a arte do possível, e Vitorino Magalhães Godinho era sobretudo um intelectual, brilhante é certo, mas pouco disponível para fazer bom enquanto almejava o ótimo.

Passadas mais de duas décadas, não posso, contudo, deixar de apreciar, com um sorriso amargo, a atualidade de algumas passagens, como esta: Não há soluções milagreiras para um país que se afundou no lodaçal e se manietou na paralisia. Mas não pode é continuar-se pelo mesmo caminho - a evitar andar; nem podem os que o atolaram e nele se cravam como sanguessugas, tendo-o como espectador passivo para o seu retábulo de vaiddes, continuar a assumir responsabilidades a cuja altura não têm estado. As complacências ou mesquinhas divisões, a incapacidade de idear que é também incapacidade de realizar não conseguirão jamais reerguer Portugal. Só a lucidez implacável no diagnóstico, a ousadia imaginativa no forjar de projectos, a firmeza dura em executá-los, a aceitação de autênticos sacrifícios (e não o sacrifício da maioria para sustentar uma minoria autosatisfeita) com vista a resultados futuros permitirão, pela tomada de consciência e esforços cívicos do maior número, varrer os escombros e edificar-nos uma pátria que seja de todos nós e dos que após nós vierem. Perdoem-me o abuso, mas a minha preferida é mesmo esta: [acabe-se também (...)] com a manipulação da economia por economistas de figurino tão especializados que nada veem ao redor da sua especialidadezinha muito, muito tacanha, e por isso parecem um disco a rodar sempre no mesmo sulco, lamurientamente. 

Vitorino Magalhães Godinho foi, essencialmente, um historiador. Dos grandes, daqueles que marcam gerações e épocas. Alguns poderão avaliar o entusiasmo que era deparar, enquanto estudante, com conceitos novos e inovadores, linguagem fecunda e desabrida, a problematizar e questionar épocas, movimentos, sociedades, estruturas e o tempo longo. Os inevitáveis complexos histórico-geográficos, ferramentas que nos abriam um novo horizonte de análise e abordagem do passado, mas um passado vivo, denso, actual, uma antecâmara do presente e não um mero presépio de figuras de pacotilha envoltas em papel colorido. Foi o nosso mais eminente representante da escola dos Annales, na senda de Lucien Febvre e Marc Bloch, um sopro de modernidade num panorama historiográfico estagnado e com décadas de atraso.

Não partilho, porém, do endeusamento a que a sua obra foi votada. Nunca o conheci pessoalmente. Apenas o vi uma vez, ainda estudante, numa mesa-redonda na Reitoria da Universidade de Lisboa. Saí enjoado com a reverência laudatória com que os restantes participantes o trataram, como se as suas palavras fossem revelações divinas, incontestáveis. Achei uma injustiça para com o paladino da crítica, da cidadania e do questionar de ideias-feitas, fáceis e confortáveis. O mesmo afirmo, hoje, em relação aos seus trabalhos: a obra de Magalhães Godinho foi uma notável inovação no panorama nacional, mas rapidamente se tornou desatualizada. O conhecimento da História é feito de passos e de superações. Se uma boa parte dos seus trabalhos mantém uma razoável atualidade, uma porção considerável está claramente ultrapassada (não, Eduardo, nenhum dos seus estudos sobre os descobrimentos portugueses é hoje "definitivo"). Padece, em poucas palavras, das mazelas da historiografia da escola dos Annales: demasiada atenção ao "tempo longo", desdém pela história política, individual, factual, primado do económico sobre as restantes áreas da vivência humana, pouca atenção prestada à mudança, à dinâmica, ao devir histórico, a favor das permanências, das estruturas, atenção centrada no que permanece em vez de no que muda.

A sua obra mais volumosa, "Os Descobrimentos e a Economia Mundial", é, de forma mais ou menos consensual, considerada um "clássico". Eu, se fosse reverente em dia de homenagem ao grande historiador, limitar-me-ia a dizer que se trata de uma obra "datada"; como não sou, digo que é um mono intragável. Talvez seja um problema meu, pois nunca consegui ler mais do que meia dúzia de páginas de cada vez, afogado na torrente de dados, ligações, números, produtos, fluxos e rotas muito pouco inteligíveis e digeríveis. Escapam, como sempre, as ideias, os rasgos de génio que sobressaem, aqui e ali, no espessa fumaça informativa. Continuo a preferir outros trabalhos, alguns verdadeiramente inovadores, ainda actuais e muito úteis. Destaco, ainda e sempre, a frescura dos "Ensaios", nomeadamente o vol. II (Sá da Costa, 1968, de que reproduzo acima uma notícia na imprensa da época - salvo erro o Diário de Lisboa). Já um dos seus trabalhos mais recentes, "Mito e Mercadoria, Utopia e Prática de Navegar" (Difel, 1990) é decepcionante, uma prova inequívoca de desatualização e de repetição de ideias anteriores (para além de revelar diversas insuficiências e exercícios de presunção).

Com a morte de Vitorino Magalhães Godinho apaga-se um dos grandes vultos da historiografia nacional do século XX, na senda de Duarte Leite ou Jaime Cortesão. Outros nomes, também míticos para a minha geração, já se foram, como Oliveira Marques ou Joel Serrão. Ocorre-me um sobrevivente, ainda entre nós: José Mattoso, que marcou de forma indelével, como Magalhães Godinho, uma nova visão sobre uma época, uma nova forma de fazer História.

 

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