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jugular

Lezã ê Lezôtre

Sim, é "les uns et les autres". Mas achei que para título deste post justificava-se esta pequena farsa. Uma pequena paródia adequada a um circo mais alargado em que estes dias interessantes se estão a transformar. E porquê este francês macarrónico? Porque o francês é ainda uma língua de prestige e finesse, e só me faltaria meter aqui um piano. Algo distinto, com classe e (ai que já me ia sair o glamour) élan, isento de grosseira vulgaridade do povoréu ignorante e bronco. Não estão a perceber. Eu já explico.

Um dos traços característicos mais marcantes dos portugueses (muito visível, por exemplo, no baixíssimo grau de confiança interpessoal que vigora por cá, a "tragédia silenciosa" que o João Pinto e Castro apontou aqui) é a incrível capacidade de promover a discórdia no seio do consenso, de gostar mais de divisões do que de solidariedades, de semear a desconfiança onde é possível o entendimento, de preferir os muros às pontes e de destacar o que separa em vez do que une; um incorrigível individualismo, uma falta genética de sentido de comunidade, nas várias dimensões possíveis do termo. Em vez de um verdadeiro sentido de comunidade, abrangente e inclusivo, os portugueses preferem sempre, sempre, outra coisa: o espírito de trincheira. Nós e eles, os que estão connosco e os que não estão - logo, estão contra nós. Os uns e os outros (soa mal, sim). Esta dicotomia pode parecer básica e infantil, mas é verdadeira. O L'Esprit, não des Lois, mas des Chapelles, tido em português como as capelinhas, resulta disto, de uma desconfiada reserva perante quem não é dos nossos, logo, uma potencial ameaça, um possível rival, concorrente. Toda a gente sabe do que falo. Este espírito de capelinha afeta toda a gente, é transversal a toda a sociedade, não escolhe profissão nem estatuto nem origem. Infelizmente, como constatei ontem, é absurdamente mais estúpido e tacanho por parte de quem se arvora em arauto da elite intelectual, ilustrada, informada e esclarecida de Portugal, e que acaba, na sua arrogância insuportável de desdém snob, por produzir discursos abaixo do nível da discussão de café mais primária. De que falo? Da mais recente crónica de Vasco Graça Moura no Diário de Notícias

Portugal é, tradicionalmente, um país que sofre de uma espécie de Síndrome de Coimbra, expresso numa reverência para com tudo o que ostente um título académico, desde os fidalgos que se pavoneavam pelas ruas de Lisboa de óculos, no século XVIII, para mostrar perda de visão causada pela excessiva leitura e estudo (e que eram motivo de chacota por parte dos viajantes estrangeiros), até ao fascínio pela figura de Salazar, e, nos nossos dias, dos esgares provocados pela falta de um canudo por, entre outros, Manuel Alegre às loas cantadas a quem ostenta o título de professor, de Cavaco Silva a Marcelo Rebelo de Sousa ou a Carlos Queiroz. Esta mesura desmesurada, esta academitose é inversamente proporcional ao respeito pelo intelectual. "Intelectual" é sinónimo de inútil, de privilegiado, de gente dos gabinetes, de lunático ou de figura decorativa. Fizessem os portugueses menos Kòu tóu ao doutor e ao professor e respeitassem mais a intelectualidade deste país, e os fumos que toldam a visão e intoxicam o entendimento destes dias pré-eleitorais poderiam ser menos espessos.

Isto é a minha opinião geral e já anteriormente manifestada sobre o tema. Fico, assim, chocado e, simultaneamente, com um patético sentido de ridículo amargo quando leio um intelectual por excelência, excelente poeta e magnífico tradutor, escrever alarvidades, num exercício de espumar de raiva sectária dignos do demagogo mais obtuso. Um desprezo cego que o leva a considerar que Portugal "perdeu toda a autonomia política e económica" ao mesmo tempo que acha que a troika "devia ter imposto a saída imediata de José Sócrates pela esquerda baixa".

O seu alvo é, evidentemente, o PS e os seus dirigentes. Mas atrás de Sócrates, dos seus ministros e do aparelho partidário está, afinal, o eleitorado que, ao contrário de tudo o que seria esperado, previsível e natural, corre o risco de reeleger novamente o partido, após seis anos de governação e de uma crise particularmente grave e dolorosa. Um intelectual do PSD seria levado a pensar e a refletir porque é que o seu partido não dispara na sondagens; Graça Moura, em vez disso, e na mais perfeita demonstração do espírito de trincheira, acha que a culpa, como sempre, é dos outros, dos eleitores PS, a "canalha analfabeta e irresponsável do costume", a "piolheira mais ignóbil" que se prepara para escolher Sócrates outra vez. Excelente exercício de maturidade democrática, pensei eu. Sempre entendi que a democracia é um sistema inclusivo e solidário, porque vincula os eleitores nas suas escolhas, mediante a responsabilidade dos que votam nos vencedores (que irão governar) e o respeito dos restantes (que aceitam a escolha da maioria). Mas este ex-secretário de Estado, ex-deputado europeu e ex-detentor de cargos de responsabilidade de nomeação política (RTP, Comissão dos Descobrimentos, Imprensa Nacional, entre outros), tem um entendimento diferente. Como os portugueses não lhe fazem a vontade e não passam todos para a sua trincheira, então estão todos contra ele. Portugal, que lhe conferiu honrarias e cargos e que governou e representou além-fronteiras é, afinal, "um não-país", um país "abaixo de cão", "de abjecta subsidio-dependência e de calaceiros profissionais" e "de lorpas contumazes". Raras vezes assisti a mais perfeito exercício de arrogância intelectual ou de desprezo pelos conterrâneos. Um insulto. Não bastavam os finlandeses e os alemães, até a nata da intelectualidade nacional atira a dignidade de um povo para a sarjeta, e porquê? porque está na trincheira oposta à sua.

Dizer-se que "só neste país", que "este país é uma merda" já entrou na banalidade corriqueira do discurso de um povo inseguro, descrente, desconfiado e de comportamento bipolar, que chora e exibe bandeiras verde-rubras nos campeonatos de futebol e que adora o seu país quando está longe dele. Dizer-se que "neste país ninguém trabalha", que "é tudo uma cambada de corruptos" e que "não há civismo" é já habitual no comportamento esquizofrénico de quem, sem ver nisso qualquer contradição, anseia pela próxima ponte ou tolerância de ponto, pensa que é melhor deixar uma lembrancinha para apressar o processo e ziguezagueia nas rotundas 50 km acima do limite de velocidade. No fundo, os problemas são sempre causados pelos outros. Se calhar era eu que estava iludido e enganado, ao pensar que Graça Moura não era, não podia nem devia ser o taxista que resmunga contra esta cambada e acha que só com outro Salazar. Agora vejo que, na realidade, é muito pior.

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