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a fábula de la merkel

As declarações de terça da chanceler alemã sobre "os países do Sul" suscitam várias reflexões e reacções. Diz ela que nós - as bronzeadas cigarras - temos mais férias e nos reformamos mais cedo que as branquelas formiguinhas do Norte, as quais se esfalfam a trabalhar para nos salvarem da miséria. Sucede que, diz um quadro publicado quarta no Jornal de Negócios, a chanceler não sabe do que fala: afinal, não só a generalidade dos trabalhadores germânicos terá, mercê de acordos colectivos, 30 dias de férias - mais cinco que o máximo possível por exemplo em Portugal (a média na UE é 24,5) -, como o mínimo em vigor por cá (22) está muito próximo da média da UE (21,5, sendo que na Suécia, Luxemburgo, França, Áustria e Dinamarca é 25). Quanto à idade da reforma, a portuguesa (indexada à esperança de vida, o que significa que vai aumentando) e a alemã são actualmente iguais (65 anos). Curiosamente, um debate na TV espanhola apresentava anteontem dados diferentes - a idade da reforma para os alemães surgia nos 67 anos, como para os espanhóis (o que só ocorrerá bem depois de 2020), enquanto a nossa surgia como sendo 65 - e frisava-se: "Não se pode pôr a Espanha no mesmo saco de Portugal e da Grécia."

 

Sim, é mesmo isso: as imputações falsas de Merkel fazem pandã com as preconceituosas "avaliações dos mercados" que lançaram, com espasmódicas baixas de rating, os países periféricos numa espiral de dívida. Puxando de galões de honestidade trabalhadora versus o que caracteriza como a preguiça dos países do Sul, a chanceler roça a xenofobia; sabendo-se desprovida de qualquer legitimidade democrática para dar ordens aos outros europeus, evidencia um pendor dirigista que é um muito mau presságio para uma União já em fanicos.

 

Perante isto, esperar-se-ia uma enérgica reacção dos governos e demais representantes políticos dos países assim atacados e difamados (e de preferência conjunta); mas só PCP e BE mostraram indignação. É pena. E é pena não por qualquer serôdio nacionalismo, mas porque está em causa a verdade e, já agora, a defesa da dignidade de trabalhadores que se vêem assim insultados. E que, perante reformas em catadupa impostas pelos respectivos governos e pelas intervenções externas, só podem questionar-se sobre que sentido faz subir a idade da reforma quando se insiste na necessidade de "vagar postos de trabalho para os jovens", se baixa o preço dos despedimentos - o que só é relevante para os casos dos trabalhadores mais antigos - e se diminui o tempo e o valor do subsídio de desemprego. Num país no qual toda a gente parece tão preocupada com as histórias de filhos adultos que vivem com os pais por alegadamente não auferirem o suficiente para terem uma casa sua, talvez seja altura de pensar no que sucede quando os pais perdem o emprego a 20 anos da idade legal da reforma. Formigas condenadas a ser cigarras - em pleno Inverno.

 

(publicado hoje no dn)

 

actualização: afinal, parece que o governo português reagiu como devia, chamando na sexta (data da publicação desta coluna no dn) o embaixador alemão para lhe comunicar o seu desagrado com as declarações da chanceler.

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