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Não parece, é!

Circula na net, há mais de uma semana, um vídeo que terá sido gravado por telemóvel aquando da visita de Pedro Passos Coelho ao Colégio Calvão, no dia 1 de Junho, no final da campanha eleitoral (que terminou dia 3). Neste vídeo, aparentemente, Passos responde a um miúdo (que parece ser o autor da gravação ou alguém que está mesmo ao lado de quem grava) "Não parece, é", quando o miúdo diz "O Sócrates parece mais gay". Mais à frente, quase no final do vídeo, ouve-se o relato, em tom de basófia, feito pela mesma voz de puto, sobre a conversa com Passos Coelho: "Eu virei-me para ele e disse o 'Sócrates parece mais gay' e ele 'Não parece, é mesmo'. Ah ganda Passos Coelho!". 
Desde o primeiro visionamento do vídeo, foi-me evidente o potencial jornalístico da coisa. Estávamos perante uma alegada chalaça do provável futuro primeiro-ministro de Portugal dizendo respeito ao PM em funções, feita em público, num palco particular - uma escola (não preciso explicar em que medida se torna uma agravante, espero).
Parecia impossível? Parecia. Houve quem, no Twitter e a propósito do vídeo, raciocinasse do seguinte modo: "Um candidato não podia ter dito aquilo, logo, o vídeo é falso".
Estamos de acordo, um candidato não podia ter dito aquilo, nem a brincar, e muito menos no meio de jornalistas durante uma visita a um colégio. Mas o facto de ser inacreditável não significa, só por si, que não seja credível. Ninguém esperaria ver um ministro a fazer corninhos no parlamento; ninguém esperaria ouvir um deputado a mandar outro para o caralho; ninguém imaginava que o porta-voz do PSD para a negociação com a tróica falasse em pentelhos na TV ou comparasse José Sócrates a Hitler e quem votou nele aos alemães que elegeram Hitler. No entanto, tudo isto sucedeu, e mais: fez-se um escândalo por José Lello ter chamado "foleiro" a Cavaco num post do Facebook; e por José Sócrates ter comentado, para o lado e não para ser ouvido, "mansa é a tua tia", em reacção a um dichote de Louçã num debate quinzenal. Mas, perante a possibilidade de Passos Coelho ter respondido o que parece ter respondido a uma criança, o facto de essa resposta ser inaceitável surge como certificação de que não aconteceu?
Não. Não é assim que as coisas funcionam.

Por isso, pensei que o caso tivesse já sido investigado e tomei o silêncio mediático à volta do vídeo como resultado da investigação - o registo não retratava fielmente o ocorrido. Resolvi, ainda assim (tanto silêncio, sobretudo nos blogues, parecia de mais) confirmar essa hipótese contactando quem facilmente se identifica naquele vídeo - o director da escola, uma jornalista da Antena 1 - e Liliana Valente, do jornal i, a única jornalista que na imprensa descreve a fala do "Não parece, é".
Foi pois com surpresa que percebi que todos disseram nunca ter ouvido falar do vídeo e muito menos sido questionados sobre ele, para o confirmar ou desmentir. As jornalistas lembravam-se bem do "Não parece, é!". Referiram no entanto que, na altura, entenderam a frase como resposta a outra coisa qualquer que não terão percebido, devido à confusão. Liliana Valente afirmou que só ouviu a resposta de Passos Coelho – não a interpelação que a motivou. Por isso mesmo, disse-me, perguntou a uma das crianças presentes "Ele está a responder a quê?". E foi com base na resposta da criança: " Sócrates parece mais velho"- que fez a referência na peça publicada no i. No entanto, por mail, também referiu: " Aliás, eu estava à frente da rapariga da Antena 1 que se vê no vídeo e soubemos que estavam a falar de altura ". Uma informação que contradiz a versão que assinou nas páginas do i e a da jornalista da Antena 1 que, aliás, após ver o vídeo assumiu que não podia ter a certeza do que se passou, sendo clara num aspecto: se tivesse ouvido "gay" não acharia graça nenhuma.
O director da escola, padre Querubim Silva, que surge no filme ao lado de Passos Coelho, garante: "Não dei por nada tal era o aperto e confusão." E ao contrário das jornalistas contactadas – ambas não duvidam de ter ouvido a Passos Coelho a frase "Não parece, é", o director afirma não ter ouvido ao presidente do PSD qualquer resposta do género ou qualquer aluno a fazer observações sobre a sexualidade do PM, embora se apresse a informar que "Estavam lá alunos institucionalizados". E remata a conversa com estranha veemência: "O som não pode ser o do telemóvel com que um miúdo gravava."  
Impressionada com os conhecimento tecnológicos do padre Querubim Silva, tive o cuidado de enviar o clip a quem percebe um bocadinho, ou mesmo muito mais que um bocadinho, destas coisas. E os especialistas não só consideram que o som é consistente com o de uma gravação de telemóvel como afirmam que o vídeo não lhes parece nem truncado nem montado nem falsificado. Mais: que, para o ser, sobretudo a nível do som, teria de ser falsificado por alguém de elevadíssimas capacidades técnicas e mesmo assim dificimente obteria um resultado tão "natural" (chamam por exemplo a atenção para o facto de se ouvir o som das mãos do miúdo no aparelho). Isto para não entrar sequer noutro tipo de considerações, como a do objectivo da falsificação e a sua oportunidade e eficácia (que, como vemos, foi letal).
Ainda assim, a possibilidade de se tratar de uma falsificação existe, claro. E existe, com muito maior probabilidade, a de aquilo a que Passos Coelho - que tentei contactar várias vezes, tendo também tentado falar com o assessor de imprensa do PSD, sem sucesso - responde com o seu sonoro "Não parece, é", não ter sido o "Sócrates parece mais gay" que ouvimos em primeiro plano (e isto apesar de a risada bastante alarve que se ouve em resulado da resposta do candidato não ser muito compatível como o "parece mais velho" ou "parece mais alto" que se ouvem claramente antes e depois e que não suscitam qualquer reacção generalizada). Tudo isto é possível, sim senhor. Como é possível que Passos Coelho tenha mesmo dito aquilo em resposta a um miúdo.

O que devia ser de todo impossível mas sucedeu é que este vídeo andou a circular na net durante 10 dias (há pelo menos um post num blogue a 7 de Junho, curiosamente para certificar que o vídeo é "falso" ) e não houve um jornalista que lhe tenha "pegado". Não houve ninguém com vontade de fazer perguntas.
Na semana em que tantos bloguistas e opinadores se indignaram - e eu fui um deles  - com as insinuações de Ana Gomes em relação a Paulo Portas, nomeadamente no que diz respeito a aspectos da sua vida privada, é revelador constatar que ninguém considerou dever dar relevo à suspeita de que Passos Coelho possa ter comentado a orientação sexual do PM em funções, nem sequer para a infirmar (à suspeita). Podemos ter muitas teorias sobre os motivos deste silêncio, mas vão todas dar ao mesmo: uma escandalosa parcialidade e um sistema de pesos e medidas insuportavelmente diferentes.
É que ninguém pode duvidar de que se algo de semelhante se tivesse passado com Sócrates ou com alguém do PS estaria nas TV em menos de um fósforo, sem que ninguém se preocupasse em verificar se "foi mesmo assim". Independentemente da veracidade daquilo que o vídeo nos mostra, ou seja, independentemente de Passos Coelho ter realmente respondido "Não parece, é" a um miúdo que lhe diz "Sócrates parece mais gay", a questão que este episódio levanta é "parece um cover up". Com ponto de exclamação e tudo.

 

ADENDA: Alguns dos comentadores justificam, para "provar" uma eventual falsificação, o facto de aparentemente Passos Coelho não abrir a boca quando se ouve "Não parece, é!". Ora a única coisa que consegui provar com certeza absoluta junto das duas jornalistas com quem falei é que essa frase foi de facto dita por Passos Coelho.

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