Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

o ovo da serpente

No fim de Maio, saiu no diário francês Le Monde um artigo intitulado “Sexo, política e polícia de costumes” em que, a propósito do caso Dominique Strauss-Khan, se aborda a recolha, pela polícia francesa, de informações sobre a vida privada de políticos, informações essas depois cuidadosamente geridas e “plantadas” nos media. No artigo, assinado  por dois jornalistas, cita-se o director, entre 1992 e 2004, do departamento “encarregue” desse tipo de “investigação”, Yves Bertrand: “Não sei nada do caso Sofitel [o hotel onde DSK é acusado de tentar violar uma empregada], mas, de modo geral, ele prova que é legítimo interessarmo-nos pela vida privada dos homens políticos. De resto, por vezes pediam-me para investigar se alguém que podia ir para o governo tinha fragilidades.” Bertrand afirma que o seu interlocutor principal para esse tipo de “investigação” era alguém que esteve no gabinete de Sarkozy enquanto ministro do Interior – e que já negou qualquer conversa com Bertrand sobre vidas privadas. Mas o Le Monde recorda, a propósito, o facto (?) de a ex-ministra da Justiça, Rashida Dati, ter sido colocada sob vigilância (pela polícia? Serviços secretos?) por se suspeitar que era dela que vinham as notícias sobre desavenças do casal presidencial.

 

Estranhamente, este artigo do Le Monde não terá criado grande celeuma. Que um regime democrático da actualidade possa usar assim o aparelho policial para perseguir  e “neutralizar” adversários políticos, violando regras fundamentais da democracia e direitos constitucionais básicos, como o direito à intimidade da vida privada, é uma hipótese que mereceria no mínimo um inquérito parlamentar, senão uma investigação judicial – não se tratará, afinal, de um crime contra o Estado de Direito, se tal estiver previsto na legislação francesa? – e a exigência de demissão dos responsáveis. Mas certo é também que este comportamento típico de regimes totalitários, que deixa qualquer verdadeiro democrata aterrado, se tornou tão banal nas democracias ocidentais que quando se suspeita ser praticado por um governo a capacidade de indignação não é já muita.

Na edição de Junho da revista americana Vanity Fair, por exemplo, narra-se como o escândalo, revelado em 2005, das escutas efectuadas pelo jornal News of the World aos voice mails dos príncipes britânicos acabaria por conduzir, nos anos subsequentes, à descoberta de que o jornal tinha, directamente ou através de detectives privados por ele contratados, escutado mais de 4000 pessoas, entre políticos, estrelas mediáticas, pop, futebolistas, actores, etc, produzindo, em consequência, inúmeras manchetes sobre a vida íntima dos ditos. Uma primeira investigação policial foi pouco profícua, permitindo ao jornal alegar que as escutas tinham sido fruto da actividade de poucos jornalistas, sem conhecimento da direcção, mas à medida que o jornal foi sendo processado e forçado a indemnizar vários escutados foi-se percebendo que as escutas eram uma opção “editorial”. E o seu antigo editor-chefe, Andy Coulson, entretanto contratado pelo novo PM, Cameron, para chefe de comunicação (!) foi forçado a demitir-se, em Janeiro deste ano. Só o fez, porém, porque um jornal – o The Guardian, em jus ao seu título – não largou o assunto, perante o esmagador silêncio dos media britânicos. Silêncio tão esmagador, de resto, que acabaria por  “pedir” ao americano New York Times para pegar também no caso.

 

No Guardian, como na Vanity Fair, este silêncio é explicado com a alegação de que a maioria dos media britânicos usa detectives privados para “investigação”. Isso mesmo terá sido desvendado, diz a VF, num inquérito parlamentar em 2003. Antes de fecharmos a boca de espanto, porém, lembremos como, por cá, se criou uma terceira via: em vez de contratar detectives privados, os media portugueses fazem os seus jornalistas assistentes de processos, acedendo directamente às escutas judiciais; em vez da instrumentalização da polícia pelo governo para perseguir adversários políticos, temos visto o sistema judicial a instrumentalizar a justiça para perseguir quem lhe apetece – incluindo o governo. E, incrivelmente, há quem ache isto tudo normal, desejável e, sobretudo, útil. Há até quem lhe chame “democracia”. Até ao dia em que a serpente cujo ovo chocou com tanto desvelo lhe bata à porta.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 19 de junho)

6 comentários

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media