Não é crítica, é desespero
Quando a Helena Garrido diz o BCE, sim, é consequente nas críticas às agências de rating está a cometer um erro. Sim, é um facto que o BCE suspendeu os requisitos de rating mínimos; mas fê-lo por estrita necessidade, não por ter criticado o comportamento das agências de rating. Se o BCE não suspendesse o requisito de rating mínimo, os bancos portugueses ficariam sem acesso à sua principal fonte de financiamento e entrariam imediatamente em default. Como é evidente, o BCE não pode permitir que tal coisa aconteça. Primeiro, porque a falência do sistema financeiro português poria em causa a estabilidade financeira de toda a zona zona euro. Segundo, porque, enquanto membro da Troika, o BCE não tem como não acreditar no plano que ajudou a desenhar e na 'cura' que a UE decidiu impôr aos países periféricos. Ou seja, o BCE limitou-se a ser consequente com o seu mandato e com os seus próprios actos. O que BCE pensa sobre as agências de rating é totalmente irrelevante para o seu mais recente comportamento, pelo que, em bom rigor, não se pode aqui falar de crítica.
É certo que Trichet lamentou o facto das agências de rating constituirem um oligopólio. Mas isto também não deve ser entendido como uma crítica, porque não se percebe em que medida é que a existência de mais concorrência e menos concentração poderiam contribuir para alterar o principal problema das agências de rating: a natureza pró-cíclica do seu comportamento. No fundo, as agências de rating limitam-se a ampliar aquilo que o mercado, por si só, já faz, isto é, ampliam os ciclos de euforia e de depressão. Se Trichet de facto quisesse fazer uma crítica, teria de concluir: os mercados (e as agências de rating) não são eficientes e não geram equilíbrio nem estabilidade. Para que tal fosse possível, Trichet teria de criticar o tipo de 'ciência económica' na qual religiosamente acredita e que, infelizmente, tem sido determinante na resposta da zona euro à crise das dívidas soberanas. Isto, sim, seria uma crítica consequente. Infelizmente, não me parece que Trichet esteja disposto a enveredar por este caminho. A Helena Garrido tem toda a razão quando diz que a Moody's mais não faz do que reflectir o caos em que está a UE. O problema é que o BCE e Trichet são parte central deste caos.

