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Europa, líderes e opiniões públicas: atirar ao alvo errado

Era talvez altura de pensar duas vezes antes de continuar a culpar exclusivamente os líderes europeus - as suas qualidades políticas, a sua capacidade de liderança, a sua visão, ou a falta disto tudo - pela má gestão da crise das dívidas soberanas. Não que Merkel, Sarkozy e outros não estejam aos papéis, porque estão. Não que não tenham engolido o comprimido do monetarismo, porque o devem ter feito. Não que tenham a memória da guerra que guiou a construção europeia desde os anos 50 do século passado e alimentou o alegado altruísmo da Alemanha durante décadas, porque não têm nem podem ter. 

 

Não sei se Helmut Kohl e François Mitterrand eram políticos com outra estatutura e visão (nada é mais perigoso e enganador que este olhar retrospectivo). O que é indiscutível é que era objectivamente mais fácil "vender" a Europa aos eleitores nacionais há 30 ou 20 anos do que hoje. A UE era menos intrusiva e menos ambiciosa, os conflitos distributivos entre países não eram de monta  - ou eram menos visíveis -, e o futuro do projecto era apresentado como promissor, cenário que ninguém no seu perfeito juízo projecta para esta década.

 

A verdade é que o projecto europeu sempre foi um projecto de elites. Quando olhamos para os estudos existentes, vemos que esse projecto é (ou foi) partilhado por aqueles que mais beneficia(ra)m do que a Europa significa: mais mobilidade, mais oportunidades de negócio, mais trocas culturais. Para aqueles que viram os seus empregos deslocalizdos primeiro para a Península Ibérica, depois para a China e para a Europa do Leste, a Europa não trouxe coisas extraordinárias, tirando o sol mediterrânico via voos low cost.

 

Durante muito tempo, mais referendo menos referendo, o cepticismo em vários países do núcleo (Alemanha, França, Holanda) foi sendo contornado. A entrada no Euro foi relativamente pacífica em Portugal, mas convém recordar que na Alemanha a opinião pública era profundamente céptica. Mesmo entre as elites económicas e financeiras, o Euro estava longe de ser consensual, e uma parte importante daquelas achava que o clube só devia integrar economias prósperas semelhantes: Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Áustria, talvez um outro país nórdico. 

 

Hoje, se a Europa, e em particular Merkel e Sarkozy, fazem figura de baratas tontas, é porque, em parte, não sabem como olhar nos olhos os eleitorados que há década e meia duvidavam que uma moeda única alargada à Europa do Sul fosse uma boa decisão (a outra parte é não saberem o que fazer com as perdas dos seus bancos num cenário de incumprimento soberano). Uma coisa é certa: se não conseguirem convencê-los até 2013 (quando a Grécia - e muito provavelmente Portugal - continuar(em) com os mercados fechados, uma vez findo o(s) empréstimo(s) da UE/CE/FMI) que o projecto europeu só é viável se a UE se transformar numa "união de transferências" (via uma qualquer forma de mutualização da dívida) e se os líderes europeus estiverem investidos de outra legitimidade democrática, não sei como saímos desta. 

 

É legítimo pensar que alemães, franceses, holandeses, etc. digam, nessa altura, "chega". 

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