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jugular

omertà

A palavra, referente ao código de silêncio da mafia, é usada pelo director do Guardian, Alan Rusbridger, num texto publicado a 17 de Julho na Newsweek. Rusbridger narra o processo que levou à descoberta dos milhares de escutas ilegais do News of the World (NOW) e ao subsequente fecho do título. E como o seu jornal foi o único a seguir o caso, perante o esmagador silêncio dos media britânicos, ao ponto de ter decidido pedir ajuda ao New York Times - passando-lhe toda a informação que detinha para que os respectivos repórteres pudessem investigar e a história não morresse ali.

 

A história que Rusbridger conta é, pois, a do furar de um poderoso bloqueio. E se o facto de se saber que os detectives privados que faziam as escutas, assim como provavelmente os polícias que eram subornados, não trabalhavam só para os jornais de Murdoch explica bem a omertà - é mesmo do código dos criminosos que se trata - houve também nesse silêncio muito de corporativismo e dessa regra não escrita que diz que nunca se denunciam os "colegas". Que nunca nos podemos arvorar em "fiscais" da nossa profissão.

 

Mas, não por acaso, é a ausência dessa fiscalização formal ou de uma regulação eficaz, seja ela interior ou exterior, que permite que práticas como as do NOW medrem e prosperem. "Estas coisas não podem acontecer", li num jornal americano. "Não foi isto que nos ensinaram ser o jornalismo." Depende, é claro, de quem ensinou e onde. Para quem aprendeu a profissão no NOW, o sensacionalismo, a chantagem, a perseguição, a exploração da vida privada e das fragilidades das pessoas, assim como a utilização de todos os meios para obter "uma história", são o bê-á-bá do "jornalismo". Aliás, não era preciso sabermos que se faziam escutas ilegais naquele jornal para percebermos que a única coisa que lhe interessava era escândalos, crimes e estórias de alcova. Isso é jornalismo? De acordo, por exemplo, com o Estatuto de Jornalista português - lei da República, sabia? -, não. Mas, fosse o NOW português, quem acredita lhe seria decretada a natureza não jornalística e retiradas as carteiras de jornalista aos respectivos funcionários? Afinal, não faltam por cá práticas semelhantes, santificadas em nome da "liberdade de expressão", mas, na verdade, fruto de uma coisa apenas: a determinação do lucro.

 

O que a história do NOW nos diz é que a mercantilização do jornalismo conduz à sua destruição. E que esse processo está em curso, e em fase muito adiantada, no mundo todo. Com a cumplicidade silenciosa dos jornalistas que restam e a indiferença de quase toda a gente. A omertà continua, de resto: nos debates a que assisti sobre o caso NOW, em Portugal e fora, fala-se de tudo menos de regulação. Ou seja, de tudo menos do que é o fulcro da história: como é que deixámos isto acontecer e o que estamos dispostos a fazer para o evitar. Talvez, afinal, não estejamos assim tão indignados; talvez, afinal, isto seja só mais um "ciclo noticioso". Mais uma estória que vende.

 

(publicado hoje no dn)

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