Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

sobre a melanina e outros assuntos a talhe de foice

“O senhor está a precisar de sol, não está?”, foi a frase do dia, uma espécie de sentença inaugural de verão, receção de boas vindas ou veredito Omo, ouvida hoje de manhã na papelaria aqui da terra. Várias respostas passaram-me pelo espírito, dizer-lhe que sim, confirmar que tinha acabado de chegar ou, ainda, preparar um testamento contando as minhas desventuras dos verões passados, nomeadamente o último, dizer que há aproximadamente dois anos que não apanho sol que se veja, o que me transformou num ser idêntico ao que alguém aqui no blog chama de “lula anémica”, enfim, coisas pessoais e profissionais, peripécias enfadonhas que a simpatia da senhora, por trás dos óculos grossos, não merecia. Fiquei-me por um sorriso e por um assentimento, sim, sim, preciso, é verdade, vou tratar disso. Era o bastante. 

Verdade se diga que fui apanhado de surpresa porque tinha acabado de exercer outro ato quase esquecido: comprar um jornal. Hesitei e pensei a olhar para o escaparate. Quase que dei comigo à procura do Diário Popular e d’A Capital. Não cheguei a tanto. Hesitei entre o Diário de Notícias e o Público (que o Expresso é dose equina que ainda não me sinto preparado para tomar), olhei as “gordas” e não me decidi à primeira. Acabei por escolher o velho diário do senhor Oliveira, talvez por ter um livrinho-suplemento recheado de cataplanas. Digo contudo, em abono da verdade, que o entusiasmo de tal coisa inédita, sensivelmente no mesmo lapso de tempo, – comprar um jornal – desvaneceu-se depressa. A crónica do Ferreira Fernandes lá estava, sempre certeira e perspicaz, mas o seu contraponto anulou o efeito agradável inicial: uma página inteira de arremedos verrinosos, pretensamente irónicos, humorísticos ou satíricos (não sei bem qual a presunção) mas desagradáveis, verborreicos e próximos do lixo cronístico, por um tal Alberto Gonçalves, que assina “sociólogo”. Como é possível coexistirem no mesmo diário, no mesmo número e na mesma folha, em frente e verso, uma pequena crónica certeira e um longo esguicho de diarreia pursemídica. Isso mesmo, frente e verso. Enfim, coisas de verão. Isto achei eu, e acho por estes dias: o verão explica tudo, as coisas boas e as coisas más.

Ao longo do dia voltei, porém, a pensar na minha brancura imaculada, sobretudo quando contrastava, de modo flagrante, com outras tezes mais carregadas. É algo que sempre achei curioso, a recente moda da corrida ao bronze. Não que seja disparatada, mas apenas porque é algo dos nossos dias. Tradicionalmente, a tendência da nossa cultura foi sempre a inversa: pele queimada do sol era sinal de trabalho braçal, coisa que se evitava mostrar e cuja prova inversa, essa sim, era exibida ostensivamente, da mesma maneira como, por exemplo na China e na Ásia do Sueste, deixar crescer as unhas era sinal de que não se exerciam funções que exigissem trabalho manual, próprio das classes baixas. Por cá, é uma verdade, havia mais valias nacionais: passear-se pelas ruas de Lisboa exibindo óculos era, no século XVIII – e para gáudio dos estrangeiros – sinal inequívoco de erudição e intelectualidade. Mas a alvura de pele nunca deixou de constituir um trademark de pedigree social, até cair definitivamente em desuso por força dos tempos modernos e dos novos paradigmas estéticos. Mas algo perdurou dos velhos tempos.

Deparei com um desses sinais, inequívoco, esclarecedor e sintomático, há poucos dias, uma e outra vez, presumo que exclusivo da imprensa portuguesa: a menção de Anders Breivik ser “loiro e de olhos azuis”, diagnóstico de espanto e de constatação de uma qualquer aberração da natureza. Afinal , os atos que cometeu parecem, de algum modo, inadequados ao seu perfil, talvez mais próprios de quem é bem moreno e de olhos negros, quem sabe adornados por uma barba hirsuta e um turbante. Ao ler repetidamente, na imprensa televisiva, o reparo às características do homicida em série, lembrei-me das peripécias de um amigo meu por esse mundo fora, nomeadamente um episódio, contado várias vezes mas cujos pormenores já se me afiguram nebulosos, em que desembarcou em Tel Aviv, em vôo da El Al e após um périplo algures pela Ásia, no meio de uma multidão de sósias de Breivik, e a forma como foi imediatamente apontado pela segurança do aeroporto, detido e revistado de todas as formas e feitios. Por fim, acrescento que, por supremo sentido de justiça universal, quem é “loiro e de olhos azuis” nunca consegue um bronze digno desse nome, ficando-se por um intervalo cromático entre a lagosta e o tomate; algo que eu, com visível orgulho, branco por trabalho e bronzeado por ócio, nunca terei. Não é grande consolo, mas servirá para estes primeiros dias, enquanto não meto a minha melanina, preguiçosa de anos, a trabalhar. 

1 comentário

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media